Atletas brasileiras recebem medalha de ouro na Olimpíada de Londres, em 2012.| Foto: Reprodução
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O esporte movimenta corações. Motiva. Transforma.Tudo isso eu sei na prática porque foi o que me aconteceu. Desde cedo, o vôlei fez pulsar meu coração e movimentou meus sonhos em direção aos horizontes mais felizes. Ao peso das medalhas no pescoço, venci o peso da expectativa e de eventuais desafios do dia a dia.

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Recordo-me quando, ainda em 2005, tive a chance de disputar minha primeira Superliga pela equipe Brasil Telecom. E com minhas amigas e companheiras de vôlei, pude notar o quanto cada uma lutava pra conquistar o próprio espaço. Em cada jogada, elas e eu bloqueávamos a desconfiança. No saque, percebia que o arremesso atingia o coração da torcida, arrancando sorrisos e aplausos.

O tempo passou e tudo estava bem. Fui para outras equipes e cheguei à Seleção. Lembro-me, que a cada salto, rente à rede, vencia um novo degrau. Lutávamos contra as dificuldades da quadra, com gana por resultados. Fiel às equipes que defendi, subtraí, ao menos por segundos, os problemas dos brasileiros, ao aplicar a multiplicação de pontos.

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Das quadras vi pessoas chorando pelas minhas conquistas. Minhas não, nossas! Pois não fosse o esforço das outras meninas, minha estante ainda estaria vazia de medalhas e troféus.

A Seleção Brasileira de Vôlei foi consequência do belíssimo trabalho que pude desenvolver neste esporte coletivo tão importante. Pelas capas de jornais, entrevistas para as rádios e TV, e depois para os sites de notícias, eu sabia que estava no caminho certo. Podia ver e sentir o quanto meus pontos beijavam o coração de brasileiros sedentos por dias felizes. O ouro olímpico foi a cereja tão esperada.

Mas o universo do esporte feminino, construído através do suor e da aplicação das meninas do vôlei e de outros esportes, teve estrutura colocada em risco com a participação de atletas trans no esporte feminino.

Eu não caminharia neste terreno perigoso, se não percebesse o quanto nossos resultados estão em xeque. As trans têm estrutura física superior e isso pode interferir no placar final. Observamos atletas transgêneros que, no feminino encontram facilidades que não encontrariam no masculino. Essa situação está desestimulando meninas a ingressarem no esporte.

Porém, aos poucos, os olhos da lucidez começam a perceber essa questão de forma mais nítida. Recentemente, a Federação Internacional de Natação impôs novas regras à participação de mulheres trans em todas as competições de esportes aquáticos. No MMA, Ronda Rousey se recusou a enfrentar uma lutadora trans. Ainda assim, no mundo inteiro, vitórias de mulheres trans se tornaram mais frequentes.

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Eu sou alguém que luta pelas pessoas e que defende sonhos. Não é justo que, para atender os anseios de um pequeno grupo, se coloque todo o esporte feminino em condições de desigualdade competitiva. É preciso haver o level playing field, onde todos têm as mesmas vantagens, desvantagens e chances competitivas. É preciso defender isso não só pelo vôlei, mas pelo esporte feminino em todo o mundo.

Nunca foi questão de preconceito ou de exclusão, mas de defesa do esporte feminino. Nossa luta é contra a imposição de ter que jogar contra pessoas com outra estrutura física e metabolismo. Não dá para competir de igual pra igual, mesmo treinando de seis a sete horas todos os dias.

Todas as medalhas que tenho foram conquistadas ao preço de muito suor. Desde cedo aprendi que, no final, os resultados de quem se esforça de verdade são os melhores. No alto do pódio da vida, o lugar sempre será do amor e da capacidade de se lutar pelo que se acredita. Não podemos deixar que a falta de falta de equilíbrio no jogo seja capaz de interromper histórias vencedoras.

Tandara Caixeta é atleta da Seleção Brasileira de Vôlei.