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Presidente dos EUA, Joe Biden.| Foto: Divulgação/White House

A recente visita da vice-presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris, à Guatemala para tratar de assuntos imigratórios escancara uma mensagem ideológica da política imigratória adotada pela gestão Biden neste primeiro semestre de governo. Reforçada com a continuidade de medidas de deportação em massa e amplo controle e combate à imigração irregular na fronteira americana, assombra a frase “não venham aos EUA de forma irregular” dita por Harris e amplamente divulgada pela imprensa mundial.

Na contramão da representatividade de sua imagem, Kamala Harris – primeira mulher, descendente de imigrantes e negra na vice-presidência do país – explicita a contradição do governo em relação ao discurso de esperança para imigrantes adotado na última corrida eleitoral americana. Nos primeiros seis meses da gestão Biden, o que de fato é sentido pela comunidade imigrante, de modo geral, é a manutenção da política de tolerância zero na imigração defendida e aplicada pelo predecessor Donald Trump.

A caça aos imigrantes indocumentados nos EUA mante-se em níveis “trumpianos”, inclusive nos estados. No Texas, por exemplo, o governador Greg Abbott anunciou uma política de tolerância zero contra imigrantes indocumentados que atravessarem irregularmente a fronteira. Também alertou que não renovará licenças para manutenção de abrigos para crianças separadas dos familiares no estado. Atualmente existem mais de 50 abrigos para crianças imigrantes somente no Texas.

A recente decisão da Suprema Corte americana que determinou a impossibilidade de pessoas que entraram nos Estados Unidos de forma irregular se candidatarem ao sonhado green card – documento que garante a residência permanente – deixa o cenário ainda mais sombrio para imigrantes irregulares no país. A decisão afetará, inclusive, os jovens do programa Daca, conhecidos como “dreamers” e que foram árduos apoiadores da plataforma Biden-Harris na última eleição, mirando uma saída imigratória.

Enquanto isso, o número de pessoas detidas ao cruzar a fronteira do México com os EUA, somente em abril deste ano, já é o maior em 20 anos. O número de brasileiros que tentam entrar irregularmente no país cresceu em 2021. Em abril deste ano foram apreendidas 178.622 pessoas na fronteira com o México. Destas, 8.745 eram brasileiras.

Os números oficiais mostram que de outubro de 2018 a setembro de 2019 o número de brasileiros detidos foi de 17,8 mil. De outubro de 2019 a setembro de 2020, o total foi de 6,9 mil brasileiros. Já de outubro de 2020 a abril de 2021 o total foi de 14,6 mil brasileiros detidos na fronteira buscando entrar irregularmente nos EUA. Para estes imigrantes brasileiros, temos a preservação das deportações em massa em aviões fretados pelo governo americano com a facilitação assinada pelo presidente Jair Bolsonaro na última visita aos EUA. O último voo, com mais de 100 pessoas deportadas, pousou no Brasil em maio e um novo avião lotado com imigrantes brasileiros irregulares está previsto para o fim deste mês.

A contradição do tom por parte do governo Biden-Harris na pauta imigração, pré- e pós-eleição, é, sem dúvida, um dos fatores mais surpreendentes para a comunidade imigrante que apostou nesta plataforma como mais favorável a uma possível reforma imigratória no país. Agora, o que se mostra claro é que a gestão Biden também não facilitará a vida de quem escolhe entrar irregularmente no país.

Rodrigo Lins, mestre em Comunicação, é pesquisador do tema da imigração e autor de “Internacionalize-se: Parâmetros para levar a carreira profissional aos EUA legalmente”.  

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