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A vitória de Abelardo de la Espriella na Colômbia consolidou uma mudança radical no mapa político da América Latina. Sete dos doze países sul-americanos agora são governados pela direita. Apenas quatro mantêm governos de esquerda: Brasil, Uruguai, Guiana e Suriname. Guiana e Suriname, contudo, são inexpressivos no contexto regional.
A Venezuela, embora teoricamente de esquerda, sofreu intervenção militar direta dos EUA sob a administração Trump em janeiro de 2026, com a captura do então presidente Nicolás Maduro. Isso deixa o Brasil como principal potência de esquerda em um continente cada vez mais dominado pela direita.
A mudança política nos países vizinhos não é apenas simbólica. Com governos de direita intensificando o combate ao crime organizado na Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Peru e Venezuela, o Brasil emerge como o principal destino para a migração de facções criminosas internacionais. Enquanto Trump e seus aliados intensificam operações militares contra narcotraficantes, o Brasil – isolado ideologicamente na região – torna-se refúgio.
O Tren de Aragua, facção venezuelana, já opera em território brasileiro. A Operação Rota do Norte, deflagrada pela Polícia Civil de Roraima em 16 de junho de 2026, revelou que integrantes do Tren de Aragua fornecem armamento de grosso calibre diretamente ao Comando Vermelho: fuzis, metralhadoras calibre .50 e lança-granadas. Esses armamentos originam-se das Forças Armadas da Venezuela, Argentina e Peru.
Apesar da morte de Niño Guerrero, líder do Tren de Aragua, anunciada por Trump em 12 de junho de 2026, a facção continua operando no Brasil, expandindo suas atividades criminosas e coordenando o fornecimento de armas para facções brasileiras.
Sebastián Marset, uruguaio de 34 anos, está no topo da lista vermelha da Interpol e é procurado pela DEA. Conhecido como "El Jugador", é considerado o maior traficante de cocaína do mundo. Sua estrutura criminosa foi parcialmente desarticulada em operações que apreenderam 13 aviões, 80 caminhões de transporte internacional, sete embarcações e 10 toneladas de cocaína puríssima.
Enquanto Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Peru e Venezuela intensificam suas operações de combate ao narcotráfico, o Brasil permanece como o único grande mercado da região com capacidade logística para distribuir drogas globalmente sem o escrutínio que seus vizinhos agora enfrentam
Marset é agora parceiro estratégico do PCC. A aliança foi consolidada após convivência na prisão Libertad, no Uruguai. O cartel uruguaio tornou-se braço logístico do PCC na rota Bolívia–Brasil–Paraguai–Europa. Em novembro de 2025, Marset foi filmado em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, reunido com lideranças do PCC.
No vídeo, ele ameaça: "Hoje posso estar aqui, amanhã no Paraguai, outro dia na Bolívia, outro na Colômbia. Onde for, estamos preparados para fazer guerra com quem for, com a polícia. Melhor sermos amigos que inimigos. Quem escolhe a guerra com a gente não se dá bem".
A Tríplice Fronteira entre Tabatinga (Brasil), Leticia (Colômbia) e Santa Rosa (Peru) é o principal polo do narcotráfico na Amazônia. Segundo relatório conjunto da Abin e da DNI (Direção Nacional de Inteligência) da Colômbia, essa região negocia as maiores cargas de drogas e funciona como epicentro de lavagem de dinheiro.
O Comando Vermelho domina o lado brasileiro, com forte presença no Amazonas, Pará, Acre e Rondônia. O PCC também expande sua presença. Ambas as facções negociam diretamente com grupos colombianos para a compra e o transporte de drogas.
As rotas fluviais amazônicas são os principais corredores. O rio Solimões funciona como eixo principal, conectado pelos rios Javari, Içá e Japurá. A partir de Manaus, os entorpecentes seguem para o Pará, de onde são distribuídos para diferentes regiões do Brasil ou encaminhados ao litoral para escoamento rumo à Europa e à África.
O porto de Vila do Conde, em Barcarena (PA), próximo a Belém, é o principal ponto de saída. Oferece acesso direto ao oceano Atlântico e facilidade para driblar a fiscalização. Quando há intensificação da fiscalização, as organizações utilizam diferentes rios e modais logísticos, incluindo pistas clandestinas na Amazônia, especialmente na Venezuela, e semissubmersíveis (narcossubmarinos) para travessias até a África e a Europa. A cocaína que sai daqui não apenas alimenta mercados globais – ela reconstrói redes criminosas internacionais que retroalimentam o Brasil com armas, dinheiro e poder.
As áreas de cultivo de coca nas regiões da Colômbia que fazem fronteira com Equador, Peru e Brasil somaram 122.044 hectares em 2023 – 54% de toda a coca cultivada no país. Houve crescimento de 126% em relação a 2020. A produção de cocaína triplicou na última década. Os laboratórios processam até cinco toneladas por mês. Os rendimentos dobraram nas últimas duas décadas.
A Colômbia é responsável por 70% da distribuição global de cocaína. Mas, enquanto a Europa agora consome quase tanta cocaína quanto os EUA (419 toneladas apreendidas em 2023 – sétimo ano consecutivo de recorde), o Brasil emerge como principal mercado consumidor e ponto de trânsito na região.
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O Porto de Santos é o maior porto do Brasil e da América Latina. É também o ponto crítico da distribuição de cocaína para a Europa. Segundo a Europol (agência europeia de inteligência policial), mais de 90% da cocaína que chega à Europa passa pelas rotas controladas pelo PCC. O Porto de Santos é o principal ponto de saída desse tráfico.
O PCC construiu uma rede de conexões que vai da máfia albanesa à 'Ndrangheta (a principal máfia italiana) para distribuir cocaína no continente europeu. Em troca dessa logística de distribuição, o PCC recebe armamentos provenientes do Paquistão.
Mas há um problema crítico: existe uma "inoperância do governo federal brasileiro" na coordenação de políticas de combate ao tráfico pelo Porto de Santos. A falta de estratégia governamental integrada permite que a droga saia de lá com uma "facilidade extraordinária". O porto "entrou na lupa" das agências europeias e das autoridades americanas, que monitoram de perto o que acontece no local.
A ineficiência do governo brasileiro em implementar políticas públicas efetivas de controle é vista como um problema que não pode mais ser escondido. Tanto que a União Europeia, conforme indicado por agências como a Europol, está em vias de equiparar o PCC e o Comando Vermelho à condição de organizações terroristas, elevando ainda mais a pressão internacional sobre essas facções.
Para facções criminosas de países vizinhos que agora enfrentam governos de direita intensificando o combate ao crime, o Brasil oferece exatamente o que elas precisam: um porto seguro, literalmente. Enquanto Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Peru e Venezuela intensificam suas operações de combate ao narcotráfico, o Brasil permanece como o único grande mercado da região com capacidade logística para distribuir drogas globalmente sem o escrutínio que seus vizinhos agora enfrentam.
Com a posse de Abelardo de la Espriella em 7 de agosto de 2026, a Colômbia adotará confronto direto com o crime organizado, alinhada com a agenda de Trump. Espriella prometeu uma "ofensiva militar" contra grupos narcotraficantes. Essa mudança criará pressões que resultarão na migração de atividades criminosas para o Brasil.
O Brasil enfrenta um cenário sem precedentes: isolado ideologicamente na região, cercado por vizinhos de direita que intensificam o combate ao crime, o país torna-se refúgio natural para facções internacionais. O PCC já opera em 29 países. O Comando Vermelho expandiu sua presença na Amazônia e em outras regiões. O Tren de Aragua já fornece armas. Sebastián Marset já é aliado do PCC. O Brasil não é apenas um destino futuro do crime organizado. É o presente.
Márcio Bueno, advogado, gestor e analista de políticas em segurança pública, palestrante em segurança pública e crime organizado, é professor de pós-graduação em Segurança Pública e presidente do Conselho de Segurança do Município de Chapecó (SC).
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



