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A estratégia da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para lidar com a crise do Supremo Tribunal Federal (STF), após a divulgação das mensagens trocadas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, é clara: distanciar-se até onde for possível e, quando questionado, repetir o discurso de que cada um deve responder por seus atos — a resposta-padrão de Lula diante de escândalos que atingem seu entorno.
Na noite desta quinta-feira (3), Lula publicou um vídeo nas redes sociais no qual tenta chamar para o seu governo o mérito pelas investigações do escândalo do Banco Master. Na publicação, o presidente defendeu as apurações contra quaisquer autoridades e se manteve descolado da figura de Moraes.
Esse também foi o tom de um vídeo publicado pelo presidente do PT e coordenador da campanha de Lula, Edinho Silva, um dia antes. Sem citar diretamente Moraes ou Vorcaro, Edinho afirmou que o “sistema apodreceu” e defendeu mudanças no sistema político e judicial, além de dizer que “ninguém está acima da lei”, incluindo integrantes do Judiciário.
Nos bastidores, no entanto, a ideia é conter a crise. Na terça-feira (1º), Lula recebeu Gilmar Mendes no Palácio do Planalto e, na mesma noite, reuniu-se com o presidente do STF, Edson Fachin, no Palácio da Alvorada. Flávio Dino também participou das conversas.
Na prática, o Planalto tenta administrar o xadrez eleitoral. Vai precisar da Corte e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ao mesmo tempo em que monitora os impactos da crise junto ao eleitorado.
Enquanto isso, o entorno de aliados da campanha petista — que inclui a tropa virtual, parlamentares e lideranças no Congresso — já trabalha com orientações mais específicas, segundo relatos à reportagem da Gazeta do Povo. Elas se concentram basicamente no enfraquecimento, em várias frentes simultâneas, do ministro André Mendonça.
O ministro retirou, na terça-feira (1º), o sigilo do material reunido pela Polícia Federal e tornou públicos mensagens, contratos e registros sobre a relação entre Moraes e o ex-banqueiro. O foco principal do PT é atribuir o movimento de Mendonça a uma estratégia eleitoral em favor de Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Alcolumbre intensifica discurso
No Congresso, o movimento de aliados de Lula vem ganhando tração. Na sessão da quarta-feira (2), pressionado pela oposição a dar andamento ao impeachment de Moraes e após ser alvo de críticas de Flávio Bolsonaro, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), rebateu as “muitas agressões”.
Ele fez uma referência direta ao pedido de recursos para o filme Dark Horse. “Todo mundo esqueceu que pediram R$ 130 milhões para as mesmas pessoas para fazer um filme. E agora o culpado é só o ministro Alexandre de Moraes”, disse.
No dia anterior, Paulo Pimenta (PT-RS) já havia ensaiado o discurso. O líder do governo na Câmara pediu que o ministro retirasse o sigilo de toda a investigação sobre o Banco Master, sob o argumento de que não poderia haver “vazamentos seletivos”.
Pimenta foi explícito ao mencionar o candidato do PL e dizer que “não dá para proteger alguém porque é candidato a presidente da República.” No mesmo sentido, o ex-ministro José Dirceu pediu que Mendonça se declare impedido de atuar no caso envolvendo Vorcaro.
O petista, que tenta retornar à Câmara, referiu-se ao encontro que o ministro do STF teve com o banqueiro em março de 2025. A reunião em pauta ocorreu no Instituto Iter, em São Paulo, instituição fundada por Mendonça, e durou cerca de 20 a 30 minutos.
Segundo o ministro, Vorcaro o procurou por iniciativa própria para tratar da Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, processo que discutia créditos de precatórios de interesse do Banco Master. O processo havia sido interrompido por um pedido de vistas do ministro Moraes. Mendonça afirmou que se limitou a ouvir o empresário e que, no mesmo mês, também recebeu o então advogado de Vorcaro Ciro Rocha Soares.
Apoiadores de Moraes buscam nulidade das ações de Mendonça
No Supremo, apoiadores de Moraes querem obter a nulidade dos procedimentos adotados por Mendonça. O argumento é que o ministro atropelou os trâmites legais ao determinar, sem consultar o plenário da Corte, o aprofundamento de uma investigação envolvendo outro integrante do STF.
Essa também foi a posição apresentada pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, ao se manifestar sobre a consulta de Mendonça a respeito do caso. Gonet é citado nas mensagens extraídas do celular de Vorcaro, assim como o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
Na quinta-feira (3), Moraes pediu a Fachin para investigar Mendonça no inquérito das fake news, com base em um relatório da PF, feito a pedido dele. No documento, um grupo de delegados - ligados a Andrei - critica a atuação de Mendonça à frente dos inquéritos do Master e do INSS.
A expectativa é barrar a investigação na sessão presencial do plenário convocada para a próxima semana. Segundo relatos, Moraes avalia ter votos suficientes para derrubar os atos de Mendonça e conta com o apoio de ministros que consideram que o relator extrapolou suas atribuições.
Gilmar Mendes já havia antecipado esse entendimento. Em junho, classificou como “erro crasso” a participação de Mendonça nas tratativas sobre uma possível delação premiada de Vorcaro, afirmando que a negociação caberia ao Ministério Público ou à Polícia Federal.
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Campanha investe nas redes sociais
Em outra frente, a tropa de choque da campanha de Lula nas redes sociais começou a circular, na última quarta-feira, outro áudio vazado do processo, extraído do celular de Vorcaro. O conteúdo mostra o advogado Ciro Rocha Soares enviando ao banqueiro uma fotografia ao lado do ministro André Mendonça em uma alfaiataria de luxo em Brasília.
Na gravação, ele afirma a Vorcaro: “Trabalhando por você. Levei o André lá no Vasco agora para fazer um terno”. O material não esclarece quem pagou pela peça nem comprova que o ministro tenha recebido o terno como presente.
Na noite desta quinta-feira, o ministro André Mendonça apresentou as notas fiscais da alfaiataria em questão para rebater as suspeitas de que teria recebido ternos de presente de Vorcaro. As notas fiscais estão em nome da esposa do ministro, Janey Nagliatti Mendonça.
Também nesta quinta vieram a público vazamentos na internet envolvendo figuras da direita. Além de desdobramentos de informações já divulgadas sobre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e os recursos relacionados ao filme Dark Horse, o principal episódio foi a divulgação de um áudio de Nikolas Ferreira (PL-MG) para Vorcaro, em que o deputado chama o banqueiro de “Dani” e pede ajuda para destravar um negócio de mineração ligado a seu ex-assessor Thiago Faria.
Em vídeo, o deputado negou proximidade com Vorcaro, negou irregularidades e classificou a divulgação como uma tentativa de criar uma “cortina de fumaça” sobre a crise do STF. Para Leonardo Barreto, da Think Policy, o conjunto de movimentos procura inverter as posições e transformar a atuação de Mendonça no novo foco da crise. “Trata-se de uma dinâmica de guerra política”, diz.
A tentativa de afastamento
Aliados de Lula passaram a evitar uma defesa direta de Moraes. A deputada federal e ex-presidente do PT, Gleisi Hoffmann, afirmou que não vê problema na abertura de um processo de impeachment contra um ministro do STF caso haja crime que o justifique: “Não é possível ter dois pesos e duas medidas. Ninguém está acima da lei. A lei deve ser aplicada a qualquer pessoa, doa a quem doer.”
Para Lula, no entanto, desvincular a imagem própria para a do STF não será fácil. Além do histórico de decisões da Corte favoráveis ao governo, sobretudo em questões fiscais, permanecem na memória do eleitorado episódios que reforçaram a percepção de proximidade entre o presidente e o Supremo.
Entre eles estão as tratativas de Lula e de integrantes do governo em defesa de Moraes após a sanção da Lei Magnitsky pelos Estados Unidos. Outro exemplo é a recente articulação entre os Poderes em um jantar promovido por Moraes que aproximou Lula e Alcolumbre (União-AP), após impasse provocado pela rejeição de Jorge Messias para uma vaga no STF.
Adriano Gianturco, do Ibmec, afirma que percepção de uma ligação ou parceria entre Moraes, Flávio Dino, Toffoli e Lula acaba alimentando o discurso "antissistema" de Flávio. A dificuldade está também, na opinião de Leonardo Barreto, da Think Policy, no fato de que a aproximação com o Supremo foi parte da própria estratégia política de Lula.
“A ideia da defesa da democracia passava muito pela celebração do Supremo”, afirma. Segundo ele, o governo buscava construir uma “unidade institucional de proteção da soberania” em torno do presidente.
Lula pode soltar a mão de Moraes?
Mesmo com o histórico de alinhamento, os especialistas concordam que, a depender dos desdobramentos, Lula pode “largar a mão” de Moraes caso essa vinculação ameace a candidatura. “Se ele sentir que a coisa pega mal para o lado dele, ele vai soltar o barco, vai abandonar e pode pedir para sair, publicamente ou não”, afirma Gianturco.
Barreto, da Think Policy, também acredita na possibilidade. “A tendência dentro do mundo político é quando uma coisa dessa acontece, o cara é abandonado.”
E lembra episódios parecidos. “O Lula já rifou quantos pelo caminho? Rifou José Dirceu, o Genuíno. Rifar o Alexandre de Moraes, por quem ele não tem responsabilidade nenhuma, ele vai sugerir assim: Moraes, melhor para todo mundo, cara, pede uma licença, se defende.”
Para Hilton Fernandes, cientista político da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP), porém, o desfecho pode ampliar a crise para além de Moraes. “É muito provável que essa situação tenha impacto na eleição, em um primeiro momento beneficiando Flávio Bolsonaro", diz.
Ao mesmo tempo, afirma que o vazamento das denúncias deve provocar um embate entre os ministros que tem potencial de resultar em mais acusações e envolver outras investigações, como a do filme Dark Horse e a do INSS. “Isso prejudicaria tanto Lula quanto Flávio".






