Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Artigo

Quais os caminhos para alcançar o Selo Ouro de Alfabetização?

Melhorar os índices de alfabetização de crianças brasileiras potencializa o desenvolvimento econômico do Brasil nos próximos anos. (Foto: Matheus H. Souza/Agência Brasília)

Ouça este conteúdo

Muitas secretarias de educação pelo Brasil compartilham a mesma preocupação: como alcançar o Selo Ouro de Alfabetização, um dos principais reconhecimentos do Ministério da Educação.

Na edição deste ano, o Selo Nacional Compromisso com a Alfabetização teve a adesão de 4.872 redes de ensino, entre as 5.595 participantes do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA), o que representa 87,1% de participação. Desse total, 4.728 redes foram certificadas, sendo 2.285 com o Selo Ouro, concedido àquelas que atingiram os mais altos padrões de qualidade e consistência nos resultados de alfabetização no país.

Este não é fruto de ações isoladas ou soluções rápidas. Trata-se de um reconhecimento que reflete consistência pedagógica, intencionalidade metodológica e, sobretudo, compromisso com a aprendizagem real dos alunos.

Segundo dados do MEC, 66% das crianças brasileiras do 2º ano do ensino fundamental sabem ler e escrever textos simples. Em relação a 2023, houve avanço de 10 pontos percentuais (p.p.), quando o indicador nacional era de 56%. O objetivo é chegar a 100% das crianças alfabetizadas.

Um sistema verdadeiramente eficaz de alfabetização não deixa os alunos para trás, oferecendo suporte adicional para aqueles que apresentam maior dificuldade

Em um país onde os desafios da alfabetização ainda são significativos, atingir esse nível de excelência exige uma mudança estrutural na forma como o ensino da leitura e da escrita é conduzido.

Diante desse contexto, o primeiro caminho fundamental é a adoção de uma abordagem pedagógica estruturada, baseada em evidências científicas sobre como o cérebro aprende. A alfabetização precisa seguir uma lógica clara de progressão, com etapas bem definidas e objetivos específicos, respeitando o desenvolvimento cognitivo da criança. Quando o ensino é organizado de forma sequencial e intencional, reduz-se a aleatoriedade e aumenta-se a previsibilidade dos resultados.

Essa previsibilidade, inclusive, é um dos pontos centrais de sistemas de ensino eficazes. Quando o processo de aprendizagem está alinhado ao funcionamento do cérebro, espera-se que a grande maioria dos alunos avance dentro de um percurso semelhante. Porém, quando isso não acontece, o problema deixa de ser atribuído ao aluno e passa a ser investigado a partir da prática pedagógica, permitindo intervenções mais precisas.

Esse olhar é especialmente relevante quando falamos de crianças e adolescentes neurodivergentes, que fazem parte da realidade escolar. Segundo estimativas do National Institute of Mental Health, nos Estados Unidos, cerca de uma em cada 31 crianças de oito anos está dentro do espectro autista; no Brasil, dados do Censo de 2022 identificaram 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA.

Já o TDAH pode atingir entre 5% e 8% da população mundial infantil, de acordo com a Associação Brasileira do Déficit de Atenção – ABDA. Esses números ajudam a dimensionar o tamanho do desafio e reforçam que pensar a alfabetização sem considerar a diversidade de perfis cognitivos é, na prática, ignorar uma parcela significativa dos alunos.

Um ensino estruturado, com etapas claras, previsibilidade e intencionalidade, tende a beneficiar não apenas esses, mas todos os estudantes. Isso não significa padronização, mas a construção de uma base que permita adaptações conscientes e passe a ser uma prática pedagógica consistente.

VEJA TAMBÉM:

Outro ponto essencial é a formação continuada dos professores, que precisa ir além de encontros pontuais e teóricos, incluindo acompanhamento prático, análise de resultados e apoio constante na sala de aula. Isso evita lacunas acumuladas e garante uma construção mais sólida da aprendizagem.

Além disso, é necessário garantir a equidade no processo de aprendizagem. Um sistema verdadeiramente eficaz de alfabetização não deixa os alunos para trás, oferecendo suporte adicional para aqueles que apresentam maior dificuldade. A gestão escolar também exerce influência decisiva. Escolas que alcançam excelência em alfabetização costumam ter lideranças engajadas, que acompanham indicadores, apoiam os professores e promovem uma cultura de responsabilidade compartilhada.

Outro aspecto relevante é a organização do tempo pedagógico. A alfabetização exige frequência, repetição e sistematização – isso implica garantir tempo adequado e consistência para o desenvolvimento das habilidades fundamentais determinantes para o sucesso. Ainda, não se pode ignorar o papel do ambiente de aprendizagem, pois salas organizadas, materiais adequados e um clima favorável ao aprendizado fazem diferença significativa.

Por fim, alcançar o Selo Ouro de Alfabetização requer persistência e visão de longo prazo, pois, mais do que um reconhecimento, ele deve ser entendido como consequência de um trabalho sério, estruturado e centrado no aluno. A boa notícia é que esse caminho é possível! Cabe somente a decisão de percorrê-lo com rigor e intencionalidade.

Janaina Mourão é especialista em Educação e diretora pedagógica do IntraAct Brasil.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.