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Câmpus-santo

  • Gabriel Ferreira
 
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Às vezes alguém tem de dizer o óbvio. Desta feita foi José Roberto Castilho Piqueira, diretor da Escola Politécnica da USP. Após a morte de um jovem durante uma festa no câmpus da universidade, dias atrás, Piqueira proibiu as festas e declarou que “os alunos têm de estudar, e não fazer festa e encher a cara”. Em realidade, não penso que a morte ocorrida seja a regra nas festas da USP ou de qualquer outra universidade Brasil afora, ou mesmo que as festas estudantis sejam, em si e por si, nocivas e prejudiciais. Mas o problema central também não é esse, e não é meramente isso o que deve ser discutido. O desabafo do diretor da Poli significa mais do que tem consciência de dizer.

Acerca de como lidar com álcool e drogas nas universidades, por que não simplesmente consultar — e seguir — a política geral das grandes universidades pelo mundo? Stanford, Harvard, Chicago e tantas outras simplesmente não permitem o consumo, nem sequer o porte em seus campi e ponto. Porém, essa medida não é a solução total para a situação descrita no desabafo de Piqueira. Ao dizer que os alunos devem “estudar e não encher a cara”, o que o professor acaba por mostrar, não sem certa impaciência, não é apenas um comportamento problemático, mas uma distorção de perspectiva.

Acontece que é o próprio conceito de universidade, e de suas finalidades, que está em jogo. Para uma imensa massa de jovens, a universidade é o lugar, por excelência, para testar ideologias e brincar de revolução. O que deveria ser a entrada no espaço da excelência intelectual e técnica tornou-se a incursão no âmbito da falsa emancipação política – obviamente sem a emancipação financeira em relação aos pais, já que ninguém é de ferro – e do furor contra o “sistema”, essa figura tão onipresente quanto difusa, sobre o qual não é preciso saber muito além de que ele é mau.

Some-se a isso que, para aquela mesma parcela de alunos, a universidade é uma extensão do colégio, na medida em que é um sofrimento necessário para uma qualificação profissional, sem que com ela se crie vínculo intelectual e afetivo algum. Não raro, professores e intelectuais pelo mundo referiam-se às suas universidades de origem como alma mater (mãe que nutre); hoje, no entanto, a mãe tornou-se a madrasta cujo seio só serve para ser freudianamente mordido por alguém que já não quer ser alumnus (o que é alimentado).

O movimento de mutação da visão do ambiente acadêmico em arena ideológica – de fato, uma arena que é mais púlpito de um discurso monotônico – não pode ser ignorado como componente da subversão do sentido e do objetivo da vida estudantil. Não deveria surpreender que, nesse panorama, o estudo, a formação e a excelência deixem de ser identificados a uma vocação íntima e sejam reduzidos às suas utilidades à causa e/ou ao emprego e, naturalmente, hierarquicamente subordinados a quaisquer outras atividades mais convenientes ou prazerosas. Ora, assim nada há de imprevisível que as festas universitárias (bem como os bares ao redor das faculdades) sejam preferidas às bibliotecas. Se o brasileiro já lê, em média, menos de cinco livros por ano, por que há de ser o universitário com o perfil atual a superá-lo?

Sem alguma espécie de combate à corrupção do próprio significado social da universidade, Piqueira infelizmente continuará lutando contra moinhos de vento, e a vida e o futuro do país continuarão perecendo, figurativamente ou não, precisamente ali onde deveriam se nutrir e se desenvolver.

Gabriel Ferreira é mestre em Filosofia pela PUC-SP e doutorando em Filosofia pela Unisinos.

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