Sempre que vou criticar alguma coisa das novas gerações me vem à mente o alerta feito pelo filósofo David Hume: “O hábito de culpar o presente e admirar o passado está profundamente arraigado na natureza humana”. O sujeito começa a ficar mais velho e se torna, além de mais conservador (se tiver juízo), um pouco mais ranzinza e impaciente com a garotada também.
“Toda geração se imagina mais inteligente do que aquela que a precedeu e mais sábia do que aquela que vem em seguida”, disse George Orwell. Não acho que devemos ser saudosistas de um passado idealizado, tampouco pessimistas com o futuro. Mas parece inegável que há traços preocupantes, para dizer o mínimo, nessas gerações mais novas.
São décadas, afinal, de lavagem cerebral por meio da doutrinação ideológica “progressista” nas salas de aula e de cinema. Os “pais helicópteros”, muitas vezes culpados pelo excesso de trabalho e o egoísmo, tentam satisfazer todas as demandas dos filhos e protegê-los de quaisquer perigos. A paranoia, somada ao politicamente correto, produziu esse quadro de mimados ingratos que vemos por aí.
Temos os “espaços seguros”, as “microagressões”, o “lugar de fala”, a “apropriação cultural” e outras bobagens do tipo, tudo isso asfixiando a liberdade individual, criando um ambiente irrespirável para pessoas normais. Todos se sentem ofendidos o tempo todo, a cada momento estão pisando em ovos, controlando a fala, afetando uma virtude inexistente, tentando posar de bonzinhos e descolados.
O sorriso no Instagram mascara o vazio espiritual, enquanto as taxas de suicídios e o uso de antidepressivos só aumentam. A luta pela liberdade virou libertinagem desde os anos 1960, a quebra de todos os tabus deixou um vácuo moral, e o enfraquecimento das famílias tradicionais e das religiões sacudiu os pilares de sustentação da turma, cada vez mais desamparada e angustiada.
Os “adultescentes” mergulham na adolescência cada vez mais cedo, e saem dela cada vez mais tarde. Vemos uma sexualização precoce e, ao mesmo tempo, uma fuga constante das responsabilidades da vida adulta. Todos têm muitos direitos e demandas, mas poucos deveres e obrigações morais.
Na ausência de freio interno aos apetites hedonistas, muitos olham para o Estado como o “papai” que não tiveram. E o Estado assume a missão de cuidar de nós do berço ao túmulo, avançando com seus tentáculos pegajosos, caríssimos e autoritários sobre nossas vidas e bolsos.
Em uma palavra, para tentar resumir ao máximo o fenômeno, estamos diante da completa falta de gratidão. As novas gerações não aprenderam a valorizar o legado que herdaram, não estudam corretamente a história para entender o quão difícil foi chegarmos até aqui. Tal como crianças birrentas, batem o pé no chão e exigem seus “direitos”, ou seja, a realização de seus desejos. E cospem em tudo aquilo que remeta ao real, aos limites da vida.
Impossível não lembrar de Greta Thunberg nesse momento. A pirralha de 16 anos virou ícone dessa geração, paradoxalmente reverenciada por adultos bobões. Ela nasceu numa família rica e em uma das nações mais livres e prósperas do planeta, mas se sente uma vítima, uma pobre coitada. Com os olhos desfigurados pelo ódio, ela aponta dedos aos líderes do mundo e cobra: “como vocês ousam?!” Em inglês, “how dare you?!”, na frase que ficou mundialmente famosa.
Vem daí o nome que Eduardo Affonso, colunista do jornal O Globo, resolveu dar a esta geração: a Raudério. Se já tivemos as gerações Perdida, Baby Boomer, Coca-Cola e depois a sopa de letrinhas (X, Y, Z), eis que agora temos a geração Raudério. Affonso explica: “É a geração que viveu a guerra contra escovar os dentes depois do Nescau. Contra só seis horas de televisão por dia. Contra ter de arrumar a cama e colocar a roupa suja no cesto”.
A geração Coca-Cola passou a exigir tudo, em vez de pedir. Inseridos num meio consumista ao extremo, com a televisão disseminando os encantos materialistas, resolvemos dar aos filhos tudo aquilo que não tivemos. E aí está o resultado: Raudério entrar no meu quarto sem bater na porta? Raudério votar de acordo com as suas convicções, não com as minhas?
Na ausência de guerras devastadoras e de tiranias totalitárias, a grande preocupação da garotada moderna passou a ser com o “aquecimento global”, com a “ideologia de gênero” ou com o “direito dos animais”. O ecoterrorismo, o feminismo radical e o veganismo viraram verdadeiras seitas fanáticas, religiões políticas. É uma geração barulhenta ao extremo, com uma indignação bastante seletiva, com preguiça de estudar, mas que se julga a última Coca-Cola do verão. Basta ver a arrogância de Greta, que pensa falar em nome da ciência, mas se recusa a estudar.
Os “justiceiros sociais” acreditam desafiar nazistas terríveis quando xingam o presidente Trump, e se sentem heróis da resistência quando atacam o “fascismo imaginário”. Não sabem o que é censura de verdade, o que foi o nazismo, qual a essência do socialismo que admiram, nada disso. Affonso conclui: “Não adianta vir nos fuzilar com o olhar: crescemos acompanhando fuzilamentos muito mais concretos, os dos dissidentes cubanos no paredón e dos que tentavam cruzar o Muro de Berlim. O mundo hoje é muito mais seguro, justo e próspero do que era 50 anos atrás”.
E eis o resumo da ópera bufa: essa turma, que nasceu na época mais próspera, livre e pacífica de todos os tempos, insiste em se enxergar como vítima, como oprimida, como coitadinha. O desprezo que sente pelas tradições é diretamente proporcional à sua ignorância histórica. Faltam gratidão, conhecimento, humildade. Sobram arrogância, ódio, vitimização.
Nem tudo está perdido, claro, e há sinais de reação aqui e acolá. O sucesso estrondoso de Jordan Peterson atesta isso. É preciso resgatar a virilidade, abandonar essa afetação histérica, valorizar o bom senso. É preciso ter coragem, a virtude mais importante de todas, pois sem ela as demais se tornam impossíveis.
Temos de desafiar a patrulha do politicamente correto, remar contra a maré vermelha. Um primeiro passo talvez possa ser dado nesse carnaval: não deixe os censores insuportáveis intimidarem sua escolha de fantasia. E, se alguém resolver criticá-lo, apenas diga: Raudério!
Rodrigo Constantino, economista e jornalista, é presidente do Conselho do Instituto Liberal.
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