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A intempestiva entrada na arena reservada aos agentes representativos da sociedade, chefiando reuniões com ministros e parlamentares, pode ser facilmente classificada como inadequada e, por extensão, inconveniente

Assim como na Medicina, há uma gradação vocabular, que vai do mal-estar à enfermidade. No universo ético-político a matização é ainda mais diversificada, já que a política é a arte do relativismo. Do impróprio ao irregular, deste ao ilícito e do ilícito ao ilegal percorre-se uma vasta gama de nuances e dégradés que baralham os padrões estabelecidos pelo senso comum.

A súbita entrada em cena do presidente Lula na primeira grande crise perto do fim do primeiro semestre do governo Dilma não configura qualquer infração nas regras do jogo institucional. Mas foi imprópria. Um político não tem prazo de validade, vale para sempre. Ex-presidentes não se aposentam, ao contrário, têm obrigação de transferir a experiência acumulada não apenas aos sucessores diretos, mas principalmente às sociedades que o elegeram. Pijama é uma peça de vestuário inexistente no armário de um chefe de Estado. Só agora, depois da redemocratização, estamos começando a concretar a figura do Elder Statesman, estadista sênior, prova da estabilidade do sistema.

O presidente Lula avisou em diversos momentos antes de entregar a faixa presidencial que manteria aberto um canal de comunicação com a sua sucessora e, ao longo destes 144 dias, certamente cumpriu a promessa seja em encontros pessoais ou telefônicos. A sua intempestiva entrada na arena reservada aos agentes representativos da sociedade, chefiando reuniões com ministros e parlamentares, pode ser facilmente classificada como inadequada e, por extensão, inconveniente.

Inclusive nas suas hostes, a chamada base aliada. O novo surto de onipotência do ex-presidente escancara duas situações que taticamente jamais deveriam ter sido magnificadas: a fragilidade da chefe da Nação (inclusive em matéria de saúde) e a gravidade das denúncias referentes ao aumento do patrimônio do ex-deputado e agora ministro-Chefe da Casa Civil.

Os 20 milhões que teriam sido faturados pelo projeto, a empresa de consultoria de Antonio Palocci ao longo de quatro anos, de repente, ganharam uma dimensão que transcendem à esfera onde se situavam as revelações da Folha de S. Paulo. Na insensata intervenção, Lula chutou-as para o alto, insuflou-as e converteu o que antes se enquadrava como "conflito de interesses" em transgressão quase delituosa.

O que originalmente estava no âmbito pessoal, deslize, foi dramaticamente ampliado como questão de estado. Tanto a presidente Dilma Rousseff como seu principal auxiliar até então os queridinhos da mídia, dos empresários e surpreendentemente respeitados pela oposição, num passe de mágica, foram colocados na corda bamba pela entrada em cena do Superman, o anjo exterminador do golpismo da mídia.

E isso no exato momento em que a derrota do governo nas mãos dos ruralistas ganhava as manchetes dos principais jornais do mundo e o país dava um exemplo de maturidade produzindo a inédita reunião da presidente Dilma com dez ex-ministros de Meio Ambiente desde os tempos da ditadura.

A informalidade iniciada em 1.º de janeiro aparentemente exacerbou o ego e embotou alguns dos atributos do ex-presidente. A pressa em acabar com o "vazio político" levou-o a aposentar o seu celebrado timing. O seu senso de oportunidade funcionou ao revés, como bumerangue: a sucessora saiu mais frágil da inopinada visita e o habilíssimo ministro que coordenou a sua vitoriosa campanha para chegar ao Planalto assemelha-se a um títere inanimado nas mãos do mago.

Doravante, diante de qualquer sobressalto – real ou virtual – será inevitável acionar o alarme e gritar "chama o Lula!".

Alberto Dines é jornalista.

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