Jamil Nakad pode não ter dado uma contribuição robusta à vida política paranaense, mas deixou registrado seu impagável bordão "Chega dos mesmos", que é um primor de síntese. Os resultados da eleição de domingo passado estão carregados de "chega dos mesmos". A votação consagradora de Beto Richa em Curitiba, um candidato que era à primeira vista um dos "mesmos", expressa paradoxalmente essa vontade de renovação por representar, finalmente, a esperança de algo de novo em um quadro político envelhecido, em que os mesmos artistas se revezam em papéis diferentes, com os mesmos trejeitos, os mesmos tiques e os mesmos truques. A população demonstrou seu cansaço com estilos conflitivos, com tacapes em jogos de peteca, como diz o sábio Luiz Geraldo Mazza, com denúncias bombásticas sacadas em momentos críticos para desestabilizar os adversários e deu um voto de confiança a uma postura de sobriedade e de respeito aos outros candidatos.
Agora, temos de ir além e modificar o bordão para "chega das mesmas". Das mesmas idéias, das mesmas idiossincrasias, da mesma falta de inspiração que domina a política paranaense há muitos anos. Há quanto tempo, paciente leitor, você não vê alguém discutir seriamente o futuro estratégico de nosso estado? Que nos espera daqui a dez, vinte anos? Há quanto tempo você não vê uma verdadeira mobilização dos políticos, dos parlamentares, dos líderes da sociedade civil para defender e promover algum projeto de interesse do Paraná? Refresque minha memória se eu estiver errado, mas, em termos estratégicos, as grandes mobilizações paranaenses se deram há várias décadas. Primeiro, quando Ney Braga lançou a bandeira da industrialização e da substituição da cafeicultura improdutiva; depois, quando, em 1972, foi proposta a Política de Desenvolvimento Urbano, prevendo a consolidação dos três eixos de desenvolvimento (ParanaguáCuritibaPonta Grossa, LondrinaMaringá e CascavelToledoGuaíra), idéia que Jaime Lerner depois retomou com o nome de Anel de Integração; em seguida, quando Jayme Canet Jr. promoveu o grande choque gerencial no governo paranaense, administrando a coisa pública com o mesmo zelo e sucesso com que geriu suas finanças pessoais, levando o governo estadual a investir mais de 36% do que arrecadava e a realizar o maior programa de obras jamais realizado no Paraná; e finalmente, quando Lerner promoveu a vinda das grandes montadoras para consolidar o ciclo de industrialização moderna entre nós. Politicamente, nossas lutas maiores e bem sucedidas também já são antigas: a implantação da Refinaria de Araucária, a atração da Volvo para Curitiba, brigando contra os lobbies das montadoras paulistas, as grandes explorações hidrelétricas do Rio Iguaçu. Quais são as outras?
Enquanto isso, nossos dilemas estratégicos foram se acumulando: o Paraná precisa de idéias frescas para reverter três décadas em que o interior se esvaziou e a Região Metropolitana de Curitiba inchou; para fazer com que mais de duzentas cidades de pequeno porte parem de definhar em termos de economia e de população e recuperem um mínimo de vigor e de vitalidade econômica; para modernizar e expandir nossa infra-estrutura viária e portuária; para fazer com que nossa economia seja capaz de agregar mais valor, transferindo-o à população em termos de bem-estar; para que Curitiba continue minimamente habitável quando tiver mais de 4 milhões de habitantes, daqui a dez ou quinze anos. Chega das mesmas idéias, que cheiram à falta delas. A população exige mais, muito mais do que vem lhe sendo entregue pela classe política.
PS: Quem conhece Carlos Augusto Moreira Junior reconhece seu espírito público e a elevação de seus propósitos políticos. Moreira teve o dissabor de ver até a tripulação de seu barco eleitoral o abandonar quando viu que o mar não lhe era favorável. Mas, se não foi capaz de amealhar votos, já havia amealhado e há muito o respeito geral por sua figura como pessoa, como médico e como educador.
Belmiro Valverde Jobim Castor é professor do doutorado em Administração da PUCPR.







