Essa é uma pergunta cada vez mais frequente, e as respostas, insuficientes. Queria poder respondê-la de forma simples e direta, mas já fico satisfeito em alimentar a curiosidade sobre o tema. Cinco décadas de curso de Arquitetura e Urbanismo forjaram algumas pistas em Curitiba. Sou curitibano e cresci na época do surgimento do Ippuc e da experiência de planejamento urbano que antecipou e moldou a cidade que hoje tanto amamos como questionamos.

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Emerge daí uma constatação: as cidades têm origens históricas e territoriais definidas. Quem as constrói são as pessoas e suas decisões, para o bem e para o mal. Desde sempre viver em cidades significa lidar com o embate de opiniões, de perspectivas diversas e conflitantes (quando não antagônicas). Aprender a negociar e convergir nas ideias talvez seja o grande desafio e legado para as gerações futuras. Diante disso, é preciso reconhecer que as cidades são a invenção mais complexa da humanidade. Mas, como seus construtores, são imperfeitas. Elas ampliam os problemas sociais e ambientais, bem como representam outro patamar de resposta e criatividade.

A presença dos arquitetos e urbanistas contribuiu muito para tornar Curitiba um modelo a ser estudado e discutido mundo afora. Porém, é necessário popularizar o tema, educando e apostando na inclusão dos personagens no enredo dessa história. Só ampliando os espaços de discussão e participação das pessoas nos destinos de suas próprias vidas é que teremos mais claras as causas e efeitos que tornam as ruas, bairros e regiões melhores para serem usufruidos. Quando isso acontecer, e se ocorrer, o problema já não será mais do governante ou do representante, mas de quem efetivamente pode resolvê-lo: a coletividade.

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Habitamos o mesmo território de nossos ancestrais, cujas potencialidades e oportunidades são ora respeitadas, ora negligenciadas. O diferente é quem somos agora e como seremos no futuro. Nesse sentido, o mundo é outro. Curitiba pulsa cada vez mais à escala metropolitana. Complexidade e diversidade são expressões do tamanho da população que se reconhece habitando o primeiro planalto. O traço multicultural de nossa gente é inegável, e parece ser sua identidade. Por que não aproveitar essa fortaleza e rever nossa "autofagia esquizofrênica"? Afinal, ainda que não haja uma cidade ideal, é possível sonhá-la ou imaginá-la.

Nesse sentido, o que faremos no futuro depende de quanto somos capazes de, juntos, dialogar com o passado e com o presente através da arte e da cultura. É imensa a responsabilidade dos professores e profissionais a respeito do assunto. Quanto mais inovadores forem os cursos, currículos e disciplinas sobre o tema, melhores serão os cidadãos e sua influência sobre essas questões. Nesses tempos movidos pela moral do mercado, é preciso apostar nos indivíduos com ética e pretensão a fazer pouco, mas na contramão dessa corrente.

Planejar e gerir cidades é tão difícil e desafiador quanto discutir e criar soluções para questões como habitar com qualidade e justiça social. Cidades serão mais sustentáveis se aprenderem a ouvir e incluir nas suas decisões as imperfeições dos seus artífices. Não há resposta simples e direta. Curitiba, entretanto, parece nos desafiar a reconhecê-la e desvelá-la. Ler Italo Calvino e suas Cidades Invisíveis parece ser, como sempre, uma boa sugestão. Assim como pensar mais e fazer menos. É preciso ser paciente com o tempo, e amadurecer as ideias antes de empreender soluções fáceis e imediatistas. Cada ação revestida com cautela é importante para ampliar o leque de opções sustentáveis no tempo.

Paulo Chiesa, arquiteto, é coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPR.