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Em maio de 2026, faremos uma viagem diferente, daquelas que não servem apenas para conhecer novos lugares, mas para reencontrar um pedaço essencial da nossa história familiar. Vamos atravessar o oceano seguindo as pegadas de cerca de 25 mil pracinhas que cruzaram o Atlântico para enfrentar o nazifascismo. Nosso pai estava entre eles.
Voltaremos aos mesmos vales, montanhas e estradas onde os pracinhas caminharam, temeram, sofreram e perseveraram. Ali, onde tantos viram a face mais dura e cruel da humanidade, queremos revelar também o outro lado, pois, em meio à dor e à crueldade da guerra, havia gestos de solidariedade e irmandade. No frio gélido das montanhas italianas, havia um calor humano que salvava vidas e sustentava esperanças.
É essa história, dura, mas profundamente humana, que queremos resgatar, ainda que parcial e modestamente, por meio de uma série de quatro artigos sobre a trajetória dos nossos pracinhas, desde a partida, em 2 de julho de 1944, no Rio de Janeiro, até 8 de maio de 1945, o Dia da Vitória. Uma jornada que merece ser lembrada e jamais esquecida.
Em dezembro de 1941, o ataque japonês a Pearl Harbor, talvez um dos maiores erros de cálculo estratégico daquele conflito, precipitou a entrada oficial dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. A ofensiva, concebida para neutralizar a frota norte-americana no Pacífico, produziu o efeito inverso: unificou a opinião pública do país, mobilizou a capacidade industrial dos Estados Unidos e consolidou a adesão do governo ao bloco dos Aliados, ao lado do Reino Unido e da União Soviética, contra o Eixo, liderado por Alemanha, Itália e Japão.
Enquanto isso, no Brasil, assim como em muitos outros países, o governo de Getúlio Vargas mantinha, naquele momento, uma posição calculadamente ambígua. Parte do alto escalão do Estado Novo e de setores das comunidades de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul (com forte presença de imigrantes alemães e italianos) demonstravam simpatia pelo nazismo e pelo fascismo.
Tomar partido na guerra, no início do conflito, implicava escolhas difíceis, pois, no plano ideológico, a imagem de um Estado forte, coeso e próspero, como defendia o nazifascismo, encontrava eco em diferentes sociedades. Além disso, a indústria alemã era bastante robusta, e o Brasil, eternamente em desenvolvimento, importava da Alemanha uma grande quantidade de ferramentas e máquinas.
Rubem Braga, correspondente de guerra, descreveu os pracinhas como soldados que, embora não tivessem recebido treinamento adequado, revelaram-se corajosos e resilientes
Ademais, pouco se sabia, naquele momento, sobre a real extensão das barbáries nazistas, muitas das quais só viriam à tona anos depois. A circulação de informações praticamente restringia-se ao jornal impresso e ao rádio, frequentemente submetidos ao controle estatal, como evidenciava a poderosa máquina de propaganda conduzida por Joseph Goebbels. Somava-se a isso um cálculo pragmático: alinhar-se ao lado posteriormente derrotado poderia significar um futuro incerto para qualquer nação. A cautela, portanto, impunha-se.
Todavia, a ditadura varguista passou a enfrentar crescente pressão diplomática dos Estados Unidos e do Reino Unido, que chegaram a bloquear navios alemães em portos brasileiros. Os norte-americanos foram além: restringiram o fornecimento de petróleo e condicionaram o financiamento da Companhia Siderúrgica Nacional à cooperação militar do Brasil.
Ao mesmo tempo, o Itamaraty, sob a liderança firme de Osvaldo Aranha, atuava internamente em favor da aproximação com os Aliados, sustentando que o Brasil não poderia permanecer neutro diante da escalada do conflito. Circulavam rumores de que, caso Vargas insistisse na neutralidade, os Estados Unidos cogitariam ocupar áreas do Norte e Nordeste para garantir acesso à borracha e instalar uma base militar em Natal.
A Segunda Guerra também se caracterizou pela disputa por recursos estratégicos indispensáveis à sustentação da voraz máquina de guerra. O ataque japonês a Pearl Harbor esteve diretamente ligado ao estrangulamento econômico imposto pelos EUA, sobretudo após o embargo de petróleo de 1941. Privado de cerca de 80% de seu suprimento energético, o Japão encontrava-se diante de uma escolha dramática: recuar em sua política expansionista ou avançar, pela força, sobre o Sudeste asiático, região rica em petróleo e matérias-primas.
Para viabilizar essa expansão, o alto comando japonês buscava neutralizar a Frota do Pacífico, que poderia interferir decisivamente na conquista das colônias britânicas, holandesas e espanholas. Nesse contexto, o ataque de 7 de dezembro de 1941 surgiu, na lógica estratégica japonesa, como uma arriscada ação preventiva destinada a ganhar tempo, embora, na prática, tenha se revelado um ponto de inflexão desfavorável aos japoneses.
Entre 1941 e 1943, a costa brasileira passou, de maneira crescente, a integrar uma guerra que até então parecia distante. Submarinos alemães e italianos começaram a torpedear embarcações nacionais, inclusive em mares distantes, resultando no afundamento de cerca de 32 navios mercantes e de passageiros, com a morte de aproximadamente 971 pessoas.
À época, circularam versões alternativas, algumas alimentadas por desinformação e por disputas políticas internas, sugerindo que submarinos norte-americanos poderiam ser os verdadeiros responsáveis pelos afundamentos, numa manobra destinada a precipitar a entrada do Brasil na guerra. Para corroborar essa tese, suscitava-se uma questão: não seriam contraproducentes ações diretas do Eixo, uma vez que tenderiam a provocar uma reação brasileira? Entretanto, a documentação atualmente disponível, à luz da historiografia contemporânea, tanto brasileira quanto alemã, indica de maneira consistente que os torpedeamentos foram, ao menos majoritariamente, se não na totalidade, perpetrados por submarinos do Eixo.
De todo modo, pressionado pelas manifestações populares que se seguiram e pela crescente assertividade da diplomacia norte-americana, Getúlio Vargas declarou, em 22 de agosto de 1942, o “estado de beligerância” contra a Alemanha e a Itália, marcando o abandono definitivo da neutralidade.
Aquele era também um momento em que o curso da guerra começava a dar sinais de inflexão. O mito da invencibilidade nazista revelava as primeiras fraturas: às portas de Moscou, no rigoroso inverno de 1941–1942, o Exército alemão sofrera sua primeira grande derrota diante do implacável contra-ataque soviético.
Em janeiro de 1943, Vargas e Franklin D. Roosevelt se encontraram em Natal (RN), na Conferência do Potengi, realizada a bordo de um encouraçado norte-americano ancorado na capital potiguar. Ali se consolidou o entendimento de que o Brasil enviaria um contingente para integrar o 5º Exército dos EUA na campanha da Itália. O país também garantiu o fornecimento de borracha e cedeu aos Estados Unidos uma área estratégica em Natal para a instalação de bases aérea e naval, que chegaram a abrigar cerca de 10 mil militares norte-americanos.
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Roosevelt chegava diretamente da Conferência de Casablanca, no Marrocos, onde estivera com Winston Churchill, chefes militares britânicos e norte-americanos. Na ocasião, os Aliados definiram a estratégia para a invasão da Sicília e da Itália continental e anunciaram ao mundo que só aceitariam a rendição incondicional do Eixo. Enquanto isso, no Norte da África, as tropas ítalo-alemãs recuavam, e o equilíbrio estratégico da guerra passava a se alterar decisivamente.
O comando da Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi confiado ao general João Baptista Mascarenhas de Moraes, que passou por capacitação em centros militares norte-americanos. Oficiais brasileiros foram enviados para treinamentos especializados em Fort Benning (infantaria) e Fort Sill (artilharia).
A preparação abrangia logística, guerra de montanha e coordenação com artilharia, blindados e aviação, com o objetivo de padronizar procedimentos e integrar a FEB ao sistema operacional do Exército dos EUA. Após o treinamento em Fort Sill, a artilharia brasileira tornou-se notavelmente eficiente, com uma precisão elogiada pelo comandante do 5º Exército, general Mark Clark, que chegou a classificá-la como “first class”.
Vargas obteve de Roosevelt o compromisso de fornecer armamentos às Forças Armadas brasileiras e empréstimos para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional. Ainda assim, havia ceticismo quanto à capacidade brasileira de atuar no conflito europeu. Daí o dito: “seria mais fácil uma cobra fumar do que a FEB embarcar”. A resposta veio em forma de ironia: a FEB adotou como símbolo uma cobra fumando um cachimbo.
Criado em 1943, o 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAvCa), da Força Aérea Brasileira (FAB), levou à Itália um contingente de 374 militares, entre eles 48 pilotos encarregados de operar os robustos caças P-47 Thunderbolt. Ao longo da campanha, o grupo perdeu 16 das 28 aeronaves que utilizou no teatro de operações, um índice que revela a intensidade e o risco das missões de ataque ao solo que desempenhou em apoio direto às tropas aliadas. A atuação dos pilotos brasileiros, que adotaram o dístico “Senta a Pua!”, foi decisiva em ações que contribuíram para o avanço aliado na Itália, consolidando o 1º GAvCa como um dos símbolos mais marcantes da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial.
Na primeira vez em que visitei o Museu do Expedicionário em Curitiba, nos anos 1980, fui acompanhado por nosso pai, que raramente falava da guerra. Caminhamos pelas salas, observando armas que ele conhecia não como objetos de exposição, mas como instrumentos de combate. Ele permaneceu em silêncio e apenas murmurou: “passamos muito medo e muito frio”. Hoje entendo que talvez eu tenha cometido um equívoco ao levá-lo lá, pois o que eu via como heroísmo ele sentia como peso que, talvez, desejasse deixar no passado.
Rubem Braga, correspondente de guerra, descreveu os pracinhas como soldados que, embora não tivessem recebido treinamento adequado, revelaram-se corajosos e resilientes. Enfrentaram um inimigo experiente, nevascas de –15 °C, terrenos minados e artilharia pesada. Ainda assim, adaptaram-se rapidamente e conquistaram respeito.
Porém, durante décadas, a FEB foi injustamente retratada como tendo lutado em áreas “sem importância”, mas pesquisas recentes demonstram o contrário. Monte Castelo (1944–1945): após quatro ataques, os pracinhas foram decisivos na ofensiva final. Montese (abril de 1945): batalha urbana sangrenta, com 426 baixas brasileiras (entre mortos e feridos/incapacitados); ruptura da Linha Gótica. Collecchio–Fornovo: rendição da 148ª Divisão Alemã, com mais de 14 mil prisioneiros capturados.
A participação brasileira na Itália teve proporcionalmente um custo significativo: 457 soldados e oficiais da FEB morreram em combate, além de 8 pilotos da FAB, enquanto cerca de 3 mil feridos passaram pelos hospitais aliados. Em contrapartida, a FEB obteve um dos resultados mais expressivos entre os países que suplementaram as forças aliadas, capturando 20.573 prisioneiros, entre eles 2 generais e cerca de 900 oficiais, um feito que impressionou até os comandos norte-americanos.
Custo alto teve também a Itália, que estava muito ferida: cidades em ruínas, fome generalizada, frio extremo. Nesse cenário, nasceu um vínculo comovente entre brasileiros e italianos. Os pracinhas (chamados pelos locais de “I brasiliani buoni” e “Liberatori”, isto é, “bons brasileiros” e “libertadores”) dividiam suas rações: pão, chocolate, café, cigarros.
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Por determinação de Vargas, a FEB foi desmobilizada em setembro de 1945, ainda na Itália, uma decisão recebida com perplexidade, pois a tropa não era apenas uma força militar, mas um grupo de homens unidos por vínculos de companheirismo e identidade coletiva, forjados sob fogo inimigo. Talvez essas mesmas características e o medo de suas consequências tenham motivado essa desmobilização, mas o tiro, porém, saiu pela culatra: a medida desgastou ainda mais o governo e alimentou o clima que culminaria na deposição de Vargas em outubro de 1945.
O retorno foi marcado por entusiasmo popular, mas indiferença institucional. Não houve suporte psicológico, profissional ou previdenciário adequado. Muitos voltaram sem perspectivas e carregando traumas. Ainda assim, os ex-combatentes formaram comunidades coesas, verdadeiras “irmandades das trincheiras”. Nosso pai carregava o pesar das perdas do amigo Mario Nardelli (Monte Castelo, 12/12/44) e do primo Alessio Venturi (Montese, 15/04/45). Em fevereiro de 2026, ainda havia 24 pracinhas vivos no país, todos centenários.
Apenas em 1988 a Constituição reconheceu direitos especiais aos veteranos, posteriormente regulamentados em 1990, garantindo pensão vitalícia equivalente ao soldo de 2º tenente. Para nossa família, foi providencial: naquele mesmo ano, nosso pai sofreu um AVC que o incapacitou em seus últimos cinco anos de vida.
Nosso tronco familiar na guerra: o sobrenome “Venturi” foi um dos que mais contribuíram com soldados para a FEB, considerando a particularidade de todos serem parentes próximos (quatro primos entre si). Nosso pai serviu por quatro anos no Exército, integrou a artilharia do 11º Regimento e embarcou para a Itália em 22 de setembro de 1944.
No front italiano, atuou como um dos operadores de metralhadoras pesadas Browning .50, fornecidas pelo Exército norte-americano, que exigiam equipes de quatro a cinco homens para operá-las. Trouxe muitas fotografias da guerra, que permaneceram expostas nas paredes de nossa casa, em Agronômica (SC), mas se perderam numa das mais inclementes enchentes, em 1983.
Retornou ao Brasil em 17 de setembro de 1945 e voltou para a roça, iniciando, mais tarde, como sócio, uma pequena serraria e fábrica de esquadrias de madeira. Nos anos 1960, passou a trabalhar nos Correios, em Rio do Sul.
E, num daqueles caprichos da vida, acabou se casando justamente com uma descendente de alemães, então com apenas 15 anos, que, até os sete, mal arranhava o português (em sua casa só se falava a língua da terra natal), aprendendo o idioma apenas na escola, aos sete anos. Na região, a vida tornou-se difícil para os descendentes de alemães durante e após a guerra, com nossa mãe, hoje com 93 anos, ainda recordando-se de que evitavam sequer sair à rua.
A história, por vezes, é impiedosa, mas também é pródiga em ironias que só o tempo consegue transformar: de episódio épico em narrativa insólita e, acima de tudo, pitoresca, para os sete filhos agradecidos de uma descendente alemã e de um pracinha que lutou justamente contra os alemães na Segunda Guerra Mundial.
No dia 13 de maio de 2026, embarcaremos para a Itália e, ao longo de 19 dias, percorreremos a trajetória dos pracinhas brasileiros: Pisa, Pistoia, Monte Castelo, Montese, Collecchio, Fornovo di Taro e outros locais marcantes, acompanhados de um guia especialista e igualmente filho de um veterano da FEB. Visitaremos também Roma, Florença e Milão. A comitiva, composta de nove pessoas, reúne filhos, o sobrinho, netos, além da nora do expedicionário. Uma viagem de memória e gratidão.
Jacir J. Venturi é formado em Engenharia e Matemática pela UFPR. Foi professor e diretor de escolas públicas e privadas, além de docente da UFPR, PUCPR e Universidade Positivo.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







