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Convergência e pancadaria

  • PorAlberto Dines
  • 10/10/2014 21:02

Nas manchetes, a drástica divisão do país com o empate técnico entre os candidatos majoritários. Nos palanques, uma fúria da qual não escapa a chefe da nação (teoricamente a presidente, ou "presidenta", de todos os brasileiros, correligionários ou não). Quase escondida – sem holofotes, órfã de entusiasmos –, a distante quimera que se converte em realidade: a possível convergência entre antagonistas.

Símbolo dessa quimera, o governador eleito do Maranhão, o comunista Flávio Dino (PCdoB), promete um "choque de capitalismo". Com 64% dos votos válidos, seu vice é do PSDB (Carlos Brandão), seu senador é do PSB (Roberto Rocha), todos apoiados pelo PPS e todos da oposição. Registre-se que o PPS, um dos herdeiros do PCB, o velho "partidão", raramente está do lado do PCdoB; e que o principal opositor do eleito, Lobão Filho, do PMDB, foi apoiado pelo PT. A base aliada do governo não poderia alinhar-se com aquele que encarnava a oposição à confraria dos clãs Sarney-Lobão-Murad, símbolo das alianças espúrias do PT para conservar-se no poder.

Flávio Dino pode falar tranquilamente em "choque de capitalismo" porque o coronelismo maranhense é feudal, pré e anticapitalista, oligárquico, patrimonialista, nepotista e visceralmente reacionário. Representante de um partido comprometido com o Estado laico e o secularismo, Flávio Dino pode convocar as diferentes confissões religiosas para ajudá-lo na recuperação do sistema penitenciário local – fábrica de criminosos, bastião da barbárie – sem parecer cruzado ou missionário.

Encarapitada no carro-chefe do atraso, a trinca de caciques combatidos pelo novo governador maranhense esteve e está presente em todos os escândalos políticos e financeiros – dos atos secretos na mesa do Senado Federal à censura prévia imposta por juízes amigos aos jornais que os combatem; da apropriação de verbas para obras jamais iniciadas às informações privilegiadas antes da liquidação do Banco Santos. O dedo podre do caciquismo maranhense não perdeu uma única oportunidade para acumpliciar-se com malfeitorias e maracutaias – do mensalão às propinas na Petrobras.

À primeira vista, pode parecer fácil a montagem de coligação tão abrangente de ex-adversários contra o inimigo comum. Não foi. Prova é a longevidade do nefasto conluio em operação há mais de meio século. Estas convergências podem multiplicar-se, basta que a consciência e a decência não sejam represadas por amarras partidárias.

A Frente Ampla, constituída em 1966 por três ex-inimigos figadais (Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart) para combater a ditadura militar, foi fruto de igual impulso convergente e unificador. Não deu certo: o AI-5, dois anos depois, a impediu de prosperar. Se bem sucedida, a Frente Ampla poderia ter abreviado os tempos de chumbo em pelo menos 17 anos.

O mineiro Fernando Pimentel, amigo de Dilma Rousseff e seu ministro do Desenvolvimento por três anos, prefeito de Belo Horizonte quando Aécio Neves era governador do estado, com ele montou uma inédita experiência política ao patrocinarem juntos o candidato Marcelo Lisboa, do PSB, à prefeitura da capital mineira, derrotando o candidato do PT, Patrus Ananias. E do mesmo Fernando Pimentel partiu agora o apelo mais veemente e mais patético para um segundo turno menos exaltado: "Campanha de pancada e agressão não leva a lugar nenhum". Só leva ao terceiro, quarto e quinto turnos.

Alberto Dines é jornalista.

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