A verdadeira polarização, aliás, não é entre dois homens, mas entre o estamento progressista jurídico-midiático, por um lado, a cada dia mais rígido e determinado, e os vastos bolsões conservadores sem sólidas lideranças ou direção, por outro.| Foto: Imagem criada utilizando ChatGPT/Gazeta do Povo
Ouça este conteúdo

Napoleão Bonaparte teria dito que o poder é uma montanha alta e íngreme, cujo topo só é alcançado por dois tipos de animais: ou pelo réptil, arrastando-se rente à sujeira do chão, ou pelo voo da águia, planando incólume, livre, até pousar no cume. Talvez o que ele realmente quisesse dizer é que as duas habilidades são necessárias àquele que deseje inscrever o nome na História: jogar o jogo pequeno na poeira do dia a dia, mesquinho, venal e cansativo, e, ao mesmo tempo, saber voar no imponderável das grandes possibilidades que só a política oferece, sem se perder. Das duas habilidades, nenhuma tem demonstrado Eduardo Bolsonaro em sua recente cruzada.

CARREGANDO :)

Sem base social decisiva dentro ou fora das estruturas de poder brasileiras, Eduardo Bolsonaro tenta dinamitar a montanha do “sistema” com mísseis estrangeiros, apostando em implodir sua altura e dureza até aplainá-la para a volta triunfal de sua família. Ignora o deputado o fenômeno, conhecido da ciência política, da “resiliência autoritária”: raramente regimes autoritários caem por ataques ou pressões externas, por mais fraquezas que acumulem; agressões externas, via de regra, fortalecem-nos internamente.

Há algumas semanas, ingênuos caíram em erro análogo esperando que os mísseis – esses, literais – dos EUA contra o Irã desmantelariam o regime dos aiatolás: o regime está hoje mais fechado, longe de cair. A presente juristocracia brasileira, já bem consolidada, somente será superada por uma mobilização gradual dentro e fora das estruturas de poder nacionais, envolvendo uma heterogeneidade de grupos de dissidentes, sem precipitações ou apelos desesperados.

Publicidade

A 14 meses da eleição, o cansaço com a polarização Lula-Bolsonaro reflete o fim geracional da turbulência que vem desde 2013: a ideia de que manifestações de rua “contra o sistema” seriam fonte direta de poder, pela direita, ou a crença de que um pai (ou mãe) dos pobres seria eternamente popular distribuindo “bondades”, pela esquerda, ambas as convicções não mostram mais efetividade. Desde o começo da crise do PT, a única constante foi o crescimento e fortalecimento do centrão, do poder dos cacifes donos de partido, e, agora, chega o momento em que esse poder concentrado está às portas de assumir a presidência diretamente, superando a polarização, as ruas e o barulho distrativo das redes sociais.

Lula virou um político encastelado em palácios, no ar-condicionado, em Brasília ou no estrangeiro. É o crepúsculo, talvez até mais melancólico, do outro sol da política brasileira

Gilberto Kassab, dono do partido com 887 prefeituras, vê três opções na mesa e estou convencido de que ele elege qualquer uma: Ratinho Jr, Eduardo Leite ou Tarcísio. Há meses o governador de São Paulo é tietado como favoritíssimo pela imprensa e o mercado, porém tudo fica incerto se lembramos que não há Tarcísio sem Bolsonaro, o próprio governador quer que seja assim, e a prisão (ou autoexílio) do ex-presidente, agora em monitoramento 24 horas, parecem mesmo ser questão de meses. Imaginemos, então, como Bolsonaro influiria no jogo eleitoral desde a Papuda (ou Miami) e certamente sua prioridade será um habeas corpus – muito improvável antes da eleição – ou indulto de um presidente amigo.

Mais que nas estratégias racionais, pensemos na dinâmica de autocomiseração e autoexposição da vulnerabilidade do ex-presidente: Bolsonaro não se mostra afeito a sofrer calado, lobo ferido na toca – como fez Lula na cela fria em Curitiba –, robustecendo ira e energia para a volta-por-cima vingativa, mas Jair sente a necessidade de vir logo a público, expor as entranhas das feridas, sofrer abraçado a seus fiéis condoídos. Jair, arrastado pela fome de protagonismo de sua família, não vai se conformar em apenas manobrar pelos bastidores para que o eleito em 2026 dê-lhe o indulto: o ex-presidente quererá forçar o compromisso em público, sem entrelinhas, e a forma mais incisiva de fazê-lo seria constranger Tarcísio a acatar como vice um sobrenome Bolsonaro. E é claro que estamos falando de Eduardo ou, mais factivelmente, Michelle Bolsonaro.

Tarcísio aceitará concorrer com um vice Bolsonaro? Eu duvido. Mais ainda duvido que Kassab queira embarcar nessa companhia: a quem interessa aproximar ainda mais uma Michelle da presidência senão, apenas, à família Bolsonaro? Aliás, a primeiríssima função do vice é não atrapalhar o presidente, não aparecer demais e jamais ofuscá-lo: Michelle ou Eduardo Bolsonaro têm esse perfil? Entre alçar alguém imprevisível à vice-presidência e ter um presidente todo seu, a escolha de Kassab parece-me natural.

Publicidade

Sobram Eduardo Leite e Ratinho Jr. Pela afinidade com o bolsonarismo, perfil mais conciliador e alta popularidade no Paraná, apostaria em Ratinho Jr como o mais presidenciável, mesmo no cenário em que Tarcísio também concorra, mas sem apoio de Kassab. Ratinho Jr tem mais facilidade de se conectar com o povo simples do que Eduardo Leite, além de estar engajado na única verdadeira pauta hoje do bolsonarismo, a anistia, ao passo que é improvabilíssimo que Eduardo Leite faça qualquer aceno de que daria indulto ao ex-presidente.

Acredito que muitos apoiadores de Tarcísio na mídia e na centro-direita migrarão rapidamente suas preferências quando Bolsonaro for, afinal, detido. Depois que chamou seus fiéis de “malucos” enquanto sorria e afagava Alexandre de Moraes, não é de se esperar que sua prisão reviva a base verde-e-amarela. Não haverá grandes comoções, grandes acampamentos, fechamento de estradas ou trancamento da pauta no Congresso. Será um crepúsculo, adiado e inevitável, entre gritos impotentes de seus fiéis mais fiéis.

Sem Bolsonaro, Lula não terá o “golpista fascista” para chamar de seu. Suas falas abstrusas, falta de resultados, a longa sombra de corrupção e desconfiança, a perda de interesse em andar no meio do povo, o peculiar protagonismo da primeira-dama escarvam as bases da popularidade do petista. Lula virou um político encastelado em palácios, no ar-condicionado, em Brasília ou no estrangeiro. É o crepúsculo, talvez até mais melancólico, do outro sol da política brasileira.

A provável imposição de tarifas e sanções contra o Brasil não será capaz de reviver a polarização. Lula e a família Bolsonaro, cada um a seu modo, trouxeram-nos esse fardo e não têm credibilidade para liderarem qualquer resolução. No plano político, o mais prejudicado será Tarcísio, queimando-o dentro e fora do campo bolsonarista – o antagonismo com Eduardo Bolsonaro custará a candidatura presidencial ao governador. Trump quer tanto salvar Bolsonaro quanto queria, há poucos meses, anexar o Panamá, Canadá e Groenlândia. Deveria ser desnecessário dizê-lo, pois é notório: Trump, amigo de ninguém, negociador lábil, criativo e obcecado pelo próprio sucesso medido nos índices da Bolsa de Nova York, não é um “militante conservador judaico-cristão” disposto a sacrifícios reais para salvar aliados do terceiro mundo. Na mesa de negociação cabem todos os tipos de cartas, incluindo as causas abstratas e ideológicas, mas, no fim do dia, o objetivo é só um: mais dinheiro entrando, menos dinheiro saindo.

Parece irreal que Trump mantenha a máxima pressão até que Bolsonaro seja, de alguma forma, reabilitado a concorrer em 2026. Mesmo nessa hipótese extrema, improvabilíssima, tal cenário só arruinaria ainda mais Jair, Tarcísio e Lula, favorecendo nomes mais “moderados” e “razoáveis”, como Ratinho Jr.

Publicidade

Na noite de lideranças populares em que já vivemos, um Ratinho Jr, Leite ou Tarcísio não conquistará os corações dos mais de 25% de eleitores que não votaram em Lula ou Bolsonaro em 2022. No entanto, apenas políticos cobiçam ser amados – para os donos do tabuleiro, para Kassab, para Valdemar, basta que seu candidato seja o mais votado e sirva aos arranjos de cúpula costurados. Voltamos à política de gabinetes, corredores e bastidores – política muito mais de répteis do que para águias – e sinto que passará o tempo de uma geração de decepcionados com o bolsolulismo até que novas lideranças populares alcancem êxito em nosso país. Ou, talvez, se o trumpismo se manter forte nos EUA, quando Nikolas completar 35 anos algo da chama de 2018 pode reacender com a perspectiva, há décadas esperada, de um terrivelmente evangélico na presidência, um jovem Davi sucedendo ao esgotado Saul bolsonarista.

O fator de fundo mais notável em tudo isso é a incapacidade espantosa da esquerda de produzir novas lideranças. O projeto de tornar Erika Hilton a Ocasio-Cortez mineira parece já estar a passos largos para o fim da passarela. Boulos, Janones, Tábata, então, nem se fala. Ainda que Trump bombardeie o país por causa do BRICS e do STF, nem os estrondos reuniriam o povo de volta em torno de uma esquerda palaciana que já se afastou demais das suas raízes.

Enquanto isso, à direita, surge um novo partido tão antipetista quanto antibolsonarista, antijuristocracia e desalinhado ao orbán-trumpismo, o partido Missão do MBL, que despontará nos debates de 2026 precisamente no momento em que a polarização Lula-Bolsonaro vem sendo superada por uma – discreta, mas irreversível – desbolsonarização da direita e a exaustão da esquerda abraçada ao lulo-identidarismo. Um debate entre Ciro Gomes e Renan Santos, no horário nobre da Rede Globo, em 2026, seria um sopro de novas perspectivas na superficialidade e repetição que massacram tais debates desde 1998.

A verdadeira polarização, aliás, não é entre dois homens, mas entre o estamento progressista jurídico-midiático, por um lado, a cada dia mais rígido e determinado, e os vastos bolsões conservadores sem sólidas lideranças ou direção, por outro. A surpreendente conversão da esquerda em partido do Judiciário enfraqueceu muito seu poder de mobilização e até de eleger seus candidatos. A facilidade com que Kassabs, Valdemares e outros tiram da cartola e elegem “patriotas conservadores” garante um fluxo incessante de novos Nikolas, delegado X, sargento Y, pastor Z, bombeiro W etc. A República do Judiciário exacerba a demanda, subterrânea e sufocada até 2018, por lideranças populistas à direita e tem sido – e continuará sendo – imenso prazer para os donos de partido suprir a essa demanda de milhões que vale bilhões.

Abraham Weintraub certa vez definiu o bolsonarismo como um esquema de pirâmide: uma meia-dúzia de dirigentes partidários vivem como magnatas às custas de um eterno “combate ao comunismo” que jamais chega a vitórias decisivas contra a esquerda ou o STF, apesar dos milhares de políticos eleitos em todo o país pelas siglas desse campo. A falta de consistência individual, de efetiva formação política, e a constante prioridade dada a defender os interesses da família Bolsonaro esterilizam toda tentativa de articulação em prol de conquistas conservadoras reais. Nem sequer conseguiram formar um partido próprio ou aprovar leis como o Estatuto do Nascituro ou do direito às armas.

Publicidade

Enquanto não chegar ao Poder Executivo um projeto muito bem capilarizado de nova hegemonia que destrone o Judiciário como – autoconstituído – Poder Moderador, Brasília continuará esse picadeiro colorido onde Nikolas, Erikas, Eduardos, Boulos, Lulas gritam para distrair e aborrecer o público, enquanto as decisões com efeito real fazem-se em um outro ambiente. É na penumbra de gabinetes e jantares reservados, em Brasília ou em Lisboa, onde juízes constrangem políticos sujos e enrolados e onde fazem valer um regime que se vê como legalista e progressista, mas não se encontra prescrito na Constituição e, como autodefesa de privilégios e poderes excepcionais, já vigora no Brasil há mais de 500 anos.

Guilherme Hobbs é desenvolvedor, escritor e tradutor.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]