Quando engravidei do meu primeiro filho – que está prestes a completar 4 anos –, ouvi bastante a expressão de que, ao nascer uma mãe, nasce também “uma culpa”. O mais estranho é que, de tanto ler e ouvir que essa culpa existia, esse modo – digamos – opressor de se lidar com as questões relativas à maternidade, eu realmente fui assumindo, de forma equivocada, que tudo dependia de mim: vitórias e fracassos. Não sei se é assim para todas as mulheres, mas o discurso da culpa chegou com um pacote imenso embutido.
Com o primogênito, normalmente, é assim: você pega um facão cego pra desbravar uma selva. Tudo é novo. Eu ouvia que tinha de recusar ajuda, mandar xispar os “palpiteiros” e provar para-não-sei-quem que eu era boa naquilo. A parte feliz de todo esse início é que também pude trilhar um caminho de busca constante de liberdade, aprendendo a precisar dos outros, sem delegar o que, para nós, era inegociável. Passados cinco meses do primeiro, mesmo com todos os desafios, eu engravidei do nosso segundo filho. Uma menina.
Quando ela nasceu, o mais velho tinha um ano e três meses. Pronto. Tínhamos dois bebês em casa. “Pobre menino… vai perder o colo”. Em muitos momentos, sentia que aquele ente chamado “culpa” ficava me espreitando.
A maternidade chegará, evidentemente, de um modo diferente para cada mulher, mas submergir na culpa não é saudável para ninguém
As crianças caem, quebram dentes, adoecem. Os pais e as mães erram, fracassam, entendem errado, mas assumem, com boas intuições, humildade e dedicação, a nobre tarefa da educação dos filhos. E há uma beleza na vida com os filhos. Não é um caminho de perdas. É um descanso diferente, um lazer diferente, uma nova qualidade de sono.
A maternidade chegará, evidentemente, de um modo diferente para cada mulher, mas submergir na culpa não é saudável para ninguém. Como mãe – de três crianças, o terceiro nasceu há três meses –, tenho aprendido a assumir culpas reais, daquelas situações em que lá no fundo nós reconhecemos que poderíamos ter feito melhor, sem fantasiar, sem aumentar ou diminuir nada. E feito a descoberta de que, mais do que culpas, é preciso assumir responsabilidades.
Talvez pareça haver tanta dor porque, em algum ponto do caminho, deixou de ser natural fazer o que precisa ser feito. Não é mais inerente à criação dos filhos assumir nossas responsabilidades. Parece extraordinário que a vida mude depois que eles chegam. Parece que estamos, constantemente, querendo voltar para aquela vida que tínhamos quando não éramos mães e pais.
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Calma lá! Não é trágico, mas encantador! É maravilhoso educar uma pessoa, vê-la [ou apenas saber!] se desenvolver desde as primeiras semanas na barriga, depois acompanhar seus primeiros passos, crescimento, contemplar a potencial autonomia e liberdade próprias das crianças.
Viver enfurnado na culpa e no pessimismo, no medo de errar, tira pais e mães da realidade, do papel intransferível de amar e cuidar de sua prole. E esse enredo pode minar aquela força e certeza sobre fazer o que é necessário para cada instante. Uns chamam de instinto, outros de graça de estado, outros de intuição... Há quem pense que veio dos cursos dos 5-passos-para-saber-trocar-uma-fralda. Não importa.
No fim das contas, é preciso se permitir entusiasmar e deslumbrar pela vida nova. É preciso encarar o fato de que filhos são para a vida toda e não haverá nada mais importante do que dedicar esforço para bem educá-los. Isso inclui que nós, pais e mães, tenhamos uma mente oxigenada, livre, pensante. Eles não são nossa razão de existir, evidentemente, e nada nos devem: são dádiva, são livres. Nós os educamos porque amamos. Só isso. E amamos porque somos amados.
Se for preciso, rasguemos os manuais. Façamos o possível, o impossível, façamos a coisa funcionar. Que eles não sejam nossos senhores, mas filhos. E, no futuro, bons cidadãos, pessoas felizes.
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