Ao referir-se ao dinheiro, Cristo não deu margem a ambiguidades. “Ninguém”, disse Ele, “pode servir a dois senhores. Pois vai odiar um e amar o outro, ou se apegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16,13). Essa declaração pode ser interpretada em pelo menos dois sentidos. O trecho acima parece indicar, em primeiro lugar, que temos sempre um senhor. Mesmo sem perceber, acabamos por escolher um lado. Por ação ou omissão, aderimos inevitavelmente a um projeto que nos transcende. A liberdade, nesse contexto, pode ser considerada ilusória. Somos livres apenas na medida em que escolhemos a qual senhor servir. O segundo sentido da declaração acima destacada é o seguinte: Cristo refuta a possibilidade de mantermos um pé em cada canoa. Na contramão do cálculo e da prudência, exorta-nos a pôr todos os ovos na mesma cesta, com plena confiança numa única aposta.

À luz desse duplo significado, parece difícil arcar com as exigências do seguimento. De fato, a uma pessoa que desejava acompanhá-lo Cristo disse: “as raposas têm tocas e os pássaros do céu têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9,58). O que vale para o mais vale para o menos: se Cristo não tem onde reclinar a cabeça, seus seguidores não podem esperar melhor sorte. Seria enganoso, no entanto, associar a adesão ao cristianismo com a simples defesa do sacrifício: Cristo nos pede para abrir mão de coisas secundárias; em troca, oferece-nos bens realmente valiosos. A renúncia, nesse contexto, assume caráter, por assim dizer, estratégico, como os seguintes versículos o revelam: “quem quiser salvar sua vida a perderá, e quem perder sua vida por causa de mim a salvará. Com efeito, de que adianta alguém ganhar o mundo inteiro se vier a perder-se e arruinar a si mesmo?” (Lc 10,23-25).

Acostumados a dar valor ao que tem preço, esquecemos que as coisas mais importantes estão à nossa disposição gratuitamente

“Abrir mão de tudo”, nesse contexto, significa, na verdade, desvencilhar-se do que é inútil ou prejudicial. Não se trata de renúncia, mas de libertação. Daí que a cruz tenha no cristianismo um sentido positivo. Por meio dela, provamos, muitas vezes de forma dolorosa, nossa fidelidade; ao mesmo tempo, por ela sustentados, vislumbramos, despidos de ilusões mundanas, a terra prometida. Não é difícil compreender o convite ao desprendimento. Basta notar, conforme o ensinamento de São Francisco, que os pássaros conseguem desprender-se do chão justamente porque nada carregam.

A diferença entre renunciar às coisas e libertar-se delas, que separa duas formas de religiosidade, tende a revelar-se de forma gradual. Falar em renúncia é falar em sacrifício: trata-se de algo que fazemos por Deus, naturalmente de forma limitada e quase sempre com alguma relutância. Libertação, ao contrário, é algo que Deus faz por nós. É uma graça que recebemos: a graça de aprender a diferenciar o principal do secundário, o trigo do joio, a vida da morte. Sobre isso falou com perfeita clareza a madre carmelita Maria José, durante muitos anos priora do Convento de Santa Tereza, no Rio de Janeiro: “a cruz é pesada no início do caminho; amada, ela torna-se leve e fonte de paz interior”. Expressou-se de forma similar Iehudá Halevi, sábio judeu do século 12, referindo-se a Deus: “Seu serviço é liberdade e humildade perante Ele é honra verdadeira”. Nessa perspectiva, passam a fazer pleno sentido, não obstante Lc 9,58, as seguintes palavras de Cristo: “meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mt 11,30). A cruz, em outras palavras, não pesa; ela tira peso. Em favor da cruz, podemos evocar, portanto, o alerta de Isaías: “ai dos que se amarram ao pecado com as cordas da ilusão e vão arrastando suas culpas, como se puxassem uma carroça!” (Is 5,18).

A fim de aprofundarmos a reflexão em torno da diferença entre o importante e o secundário, escutemos, ainda, as seguintes palavras do profeta: “Oh! Todos que estais com sede, vinde buscar água! Quem não tem dinheiro venha também! Comprar para comer, vinde, comprar sem dinheiro vinho e mel, sem pagar! Para que gastar dinheiro com coisas que não alimentam? Para que trabalhar tanto pelo que não mata a fome? Escutai, ouvi bem o que eu digo e comereis o que há de melhor, o vosso paladar se deliciará com o que há de mais saboroso. Atenção! Vinde procurar-me, ouvi-me e tereis vida nova” (Is 55, 1-3).

Esse trecho pode causar alguma perplexidade. Acostumados a dar valor ao que tem preço, esquecemos, com frequência, que as coisas mais importantes estão à nossa disposição gratuitamente. A luz do sol é um exemplo. O ar que respiramos é outro. Também poder-se-ia mencionar a amizade e o amor. Em tais coisas, Deus está presente. Diante delas, podemos dizer: “provai e vede como o Senhor é bom” (Sl 34,8). O desafio, então, é permanecer em Deus, evitando que a mercadoria ganhe prioridade sobre a dádiva, isto é, que a lógica mercantil, calculista, prevaleça sobre a lógica da abundância e da generosidade, por meio da qual Deus atua. Também nesse sentido, talvez promissor no contexto de uma “teologia da história” ainda por fazer, pode-se compreender a objeção cristã ao dinheiro.

Felipe Dittrich Ferreira é sociólogo.
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