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Objection AI: a nova censura digital contra o jornalismo

Sob o discurso da transparência, o Objection AI pode transformar a inteligência artificial em instrumento de intimidação ao jornalismo. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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A ambição mais antiga dos detentores de poder, conforme Aristóteles já observara em sua Política, jamais consistiu propriamente em vencer o debate público, mas em impedir que o debate sequer se inaugurasse. Os tiranos clássicos compreendiam o ponto com uma franqueza estética quase admirável e tratavam a operação como matéria de rotina administrativa. Fechavam jornais, queimavam manuscritos, exilavam escritores, decapitavam editores e encaravam a censura com a mesma naturalidade burocrática com que hoje se trata da renovação de um IPVA.

O século XXI, sempre mais refinado em sua estética do que em sua ética, soube aperfeiçoar o procedimento. A operação contemporânea vem acompanhada de investidores bilionários, sotaque californiano e uma interface minimalista que sugere serenidade quase monástica.

O empreendimento atende pelo nome sugestivo de Objection AI e foi criado por Aron D’Souza, advogado que atuou nos bastidores da longa campanha jurídica responsável por demolir o Gawker. Surge financiado por Peter Thiel, Balaji Srinivasan e demais figurões do ecossistema libertário de luxo do Vale do Silício, aquele curioso ambiente moral em que se proclama devoção irrestrita à liberdade enquanto se trabalha freneticamente para neutralizar qualquer pergunta inconveniente. Grosso modo, o velho sonho oligárquico finalmente encontrou sua forma escalável e, melhor ainda, sua plataforma assinável.

Por dois mil dólares, qualquer cidadão zeloso da própria reputação pode contestar uma reportagem jornalística, e o mesmo vale, naturalmente, para fundos bilionários, bancos, conglomerados financeiros e toda sorte de figura poderosa atormentada por aquilo que as democracias ainda insistem em chamar de accountability.

O procedimento foi desenhado com a elegância funcional de um aplicativo de transporte por motorista privado, bastando submeter o trabalho de um jornalista a um conjunto de modelos de inteligência artificial que produzirá um veredito sintético acompanhado de uma espécie de placar moral denominado Honor Index, criado para mensurar a credibilidade de profissionais da imprensa, como se a reputação humana pudesse ser reduzida à lógica das avaliações por estrelinha ou, pior, a um sistema de crédito social chinês revestido de design escandinavo.

Aquilo que antes exigia escritórios de advocacia, anos de litígio, equipes de investigadores e custos proibitivos agora pode ser automatizado, terceirizado e distribuído por assinatura mensal. A SLAPP suit levou décadas para consolidar-se como mecanismo preferencial de intimidação contra o jornalismo investigativo, mas o Objection AI comprimiu toda aquela engenharia jurídica em um modelo de negócios escalonável. Há, é forçoso reconhecer, certa ironia perversa nesse arranjo, pois o expediente democratiza a destruição reputacional, distribui-a em prestações cômodas e libera, enfim, a clientela do incômodo elitista dos honorários advocatícios.

O Honor Index, em particular, merece atenção porque revela, melhor do que qualquer outro elemento, a arquitetura moral do empreendimento. Sua premissa central afirma que a credibilidade jornalística pode ser medida, quantificada e arbitrada por uma máquina treinada justamente pelos indivíduos financeiramente interessados em desacreditar o jornalismo investigativo.

Perceba, caro leitor, que Aristóteles identificaria o equívoco ainda no primeiro parágrafo da Ética a Nicômaco, onde se estabelece que o juiz não pode ser parte interessada, que o árbitro não pode participar da disputa e que o sistema não pode reivindicar neutralidade enquanto carrega as impressões digitais de seus financiadores. Aquilo que o Objection AI construiu foi, estruturalmente, uma lavanderia reputacional revestida de aparência científica, na qual a inteligência artificial concede verniz de neutralidade técnica àquilo que, no fundo, permanece sendo apenas uma denúncia paga.

Os fundadores certamente responderão apontando metodologias rigorosas, diversidade de modelos algorítmicos e procedimentos auditáveis, e tudo isso possivelmente existe, embora o problema jamais tenha estado aí.

A questão verdadeira reside, como sempre residiu, na estrutura de incentivos, que segue sendo a única pergunta relevante diante de qualquer instituição que reivindique para si o monopólio moral da verdade

Os fundadores do Objection AI, sendo homens inteligentes, sabem disso melhor do que seus críticos, mesmo porque construíram cuidadosamente sua plataforma justamente para que ninguém formulasse a pergunta em voz alta.

A presença de Peter Thiel nesse processo tampouco se reduz a um detalhe secundário. Convém recordar que foi o mesmo Thiel quem financiou silenciosamente a ação judicial conduzida por Hulk Hogan contra o Gawker, ocultou sua participação durante anos e, posteriormente, descreveu a destruição do veículo como um dos atos mais filantrópicos de sua vida.

A lógica permanecia brutalmente coerente, posto que um conglomerado de mídia o atacou, ele possuía recursos suficientes para destruí-lo, utilizou esses recursos sem economia e o conglomerado simplesmente desapareceu. Aquilo que o bilionário descreveu como filantropia talvez possa ser definido com maior precisão como a privatização da vingança jurídica, e agora a operação ganhou forma de plataforma. Em lugar de um único bilionário financiando uma única ação contra um único veículo, qualquer interessado pode adquirir assédio investigativo sob demanda, com planos diferenciados e suporte ao cliente.

O problema mais profundo, contudo, sequer reside no fato de poderosos utilizarem a ferramenta contra jornalistas. Alguns profissionais da imprensa cometem abusos reais, alguns merecem escrutínio severo, e nada disso possui qualquer relevância para o que está verdadeiramente em jogo. O efeito corrosivo aparece muito antes da publicação.

O repórter que decide investigar interesses sensíveis passa a lidar não somente com os obstáculos tradicionais da profissão, como cautela editorial, revisão jurídica, proteção de fontes e pressão econômica, mas também com a perspectiva concreta de ser submetido a uma máquina algorítmica de descredibilização operada precisamente pelos indivíduos que pretende investigar.

O Honor Index nem sequer precisa estar correto, bastando que pareça ameaçador, e nisso reside seu gênio cínico. Foi assim que mecanismos de destruição reputacional sempre funcionaram, desde a damnatio memoriae romana, passando pela infâmia inquisitorial e chegando, enfim, à delação algorítmica, posto que jamais foi necessário refutar o argumento, sendo suficiente tornar o autor incapaz de concluí-lo.

Nelson Rodrigues sustentava, com a clareza implacável que somente os grandes dramaturgos cultivam, que o brasileiro cultivava a covardia com alguma elegância, talento herdado da condição colonial e exportável a qualquer regime que dependa de intermediários para esmagar adversários sem sujar as próprias mãos. A versão californiana do expediente apenas substitui o capanga humano pela máquina algorítmica e preserva intacto o princípio.

A velha censura, ao menos, possuía honestidade estética, traduzida em prisões, fogueiras e exílios. A nova vem acompanhada de um dashboard, assinatura mensal e termos de uso que ninguém efetivamente lê

O Vale do Silício descobriu, enfim, aquele segredo que os tiranos antigos pressentiram, mas jamais lograram codificar. A forma mais perfeita de censura é aquela que o próprio censurado adquire por dois mil dólares e ainda agradece, ao final do processo, pela cortesia da automação.

Marcos Paulo Candeloro é graduado em história (USP), pós-graduado em Ciências Políticas (Columbia University – EUA) e especialista em Gestão Pública Inovativa (UFSCar)

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