A frase de Lula dizendo que gostaria de ser economista deve ter origem nas centenas de problemas econômicos com os quais ele se deparou e sobre os quais ele teve difi­­culdades de compreensão

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Em entrevista depois do Natal, Lula disse que queria ser economista. Creio entender o presidente. As ciências que não conhecemos nos parecem misteriosas e seus enigmas despertam nossa curiosidade, nossa admiração. Como dizia padre Antônio Vieira, "a admiração é filha da ignorância". Quando era adolescente, eu tinha obsessão por entender os mistérios do universo, saber como tudo começou, do que era feito o sol e como é possível que a Terra não se desgoverne e saia pelo espaço sem rumo. Estudei um pouco a física de Einstein e, quanto mais eu lia, mais eu descobria que minha ignorância era enciclopédica.

Com apenas 12 anos de idade, eu trabalhava no comércio e já lidava com finanças e tributos. Aos 16, eu era capaz de fazer os lançamentos contábeis de um pequeno comércio, levantar a Demonstração de Lucros e Perdas (receitas menos despesas) e apurar o Balanço Patrimonial (ativos e passivos). Minha curiosidade era grande e eu vivia fazendo perguntas. De onde vem o dinheiro? Como funciona um banco? Por que o Brasil precisa de dólar? Por que o governo não fabrica dinheiro e distribui às pessoas? Por que o salário mínimo não é fixado em US$ 2 mil por mês? Essas e outras questões me intrigavam profundamente.

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A minha ignorância sobre o mundo da produção e das finanças me deixava ansioso. Enquanto eu cursava Técnico em Contabilidade, no 2.º grau (hoje chamado de Ensino Médio), descobri que as teorias e os conhecimentos do mundo da economia (o sistema) eram ensinados por uma ciência (a Economia), em um curso, denominado de Ciências Econômicas, durante cinco anos. Ali resolvi que isso era o que eu queria estudar. Fiquei em dúvida entre fazer Direito ou Economia, pois as questões legais envolvendo tributos e finanças, com as quais eu já lidava, também me encantavam. Sugiro sempre aos alunos e aos profissionais do mundo dos negócios que estudem Direito, se não em um curso regular, pelo menos em cursos curtos focados em tópicos.

Imagino que Lula, na sua vida de sindicalista e na sua passagem pela presidência da República, tenha se encantado com o universo da economia e seu intrincado funcionamento. Lula pode não ter diploma, mas é inteligente, aprende rápido e tem enorme bom senso. Claro, seria melhor que ele tivesse estudado. Tempo ele teve, o que lhe faltou foi determinação. A frase de Lula, dizendo que gostaria de ser economista deve ter origem nas centenas de problemas econômicos com os quais ele se deparou na sua dupla gestão e sobre os quais ele certamente teve dificuldades de compreensão.

Fico imaginando Lula tendo de analisar e digerir assuntos complexos de política monetária, política cambial, política de crédito, política tributária, emissão de dinheiro, trocas internacionais, regulação bancária e centenas de outros. Diante de muitas opções e tendo de tomar decisões estratégicas cruciais, certamente Lula recebeu aulas, palestras, relatórios e explicações sobre esses e outros temas que passaram por sua mesa. Por essa razão, o presidente declarou que seus 8 anos no governo foram mais do que uma faculdade e que, portanto, ele não voltaria a estudar. Nisso eu discordo. Enquanto houver vida, deve haver motivação. Desmotivar-se em função da idade é morrer um pouco. O que pode desmotivar é a ausência de saúde, não a proximidade da morte (mesmo porque ninguém sabe em que dia irá morrer). Tendo saúde, acho a vida uma alegria e uma aventura.

Não foram poucas as vezes em que vozes importantes desdenharam a educação dizendo que Lula não estudou e virou presidente da República. É verdade; mas quantos exemplos equivalentes existem? A regra é que quem estuda mais e se qualifica melhor tem mais chance de êxito, além do que a educação não é apenas para conquistar cargos e amealhar fortuna. A educação é o melhor caminho para o ser humano elevar-se acima dos animais e se distanciar o máximo da imbecilidade. Portanto, eu diria a Lula: "Você poderia dar outro exemplo único e ser o primeiro ex-presidente a, com grandeza e humildade, sentar-se em um banco de faculdade e estudar economia, que você tanto gosta".

José Pio Martins, economista, é reitor da Universidade Positivo.

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