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Entregar aos partidos aliados ministérios inteiros, de porteira-fechada, como acontece há nove anos com o PCdoB e a pasta do desporto, é uma acintosa aberração funcional

Eis o Homem, teria dito Pôncio Pilatus ao indicar à turba, o nazareno Jesus Cristo antes da sentença final. A mesma expressão foi usada pelo ateu Friedrich Nietzsche ao apresentar a sua autobiografia literária. Entre a última terça (quando o STF aceitou a denúncia contra o ex-ministro Orlando Silva), e a quinta-feira (quando a presidente Dilma Rousseff indicou o seu substituto), o País do Futebol pôs-se à caça do homem (ou mulher) capaz de resgatar a sua credibilidade perante a plateia esportiva planetária.

O homem é Aldo Rabelo. Seus dados pessoais, políticos, psicológicos, patrimoniais, suas manias e devoções foram instantaneamente divulgadas. Faltaram nuances: nosso convívio com a arte biográfica é recente, nos contentamos com pouco, preferimos o anedótico. A pandemia da corrupção nos empurra para o estreito curso do pêndulo ficha-limpa/ficha-suja, o resto perde-se no mar das irrelevâncias.

Enquanto foi ministro das Relações Institucionais, Aldo Rabelo infernizou a vida do então chefe da Casa Civil, José Dirceu. Eleito para a presidência da Câmara, manobrou intensamente para evitar que o mensalão respingasse no presidente Lula da Silva, mas não despendeu a menor dose de energia para salvar o mandato do adversário Dirceu. Em compensação, salvou da degola todos os parlamentares envolvidos no escândalo, inclusive os acusados de flagrantes quebras de decoro. Exceto Roberto Jefferson, o denunciador.

O que menos conta é o sujeito, o que está sub judice neste momento é o nosso sistema republicano feudalista, não apenas antidemocrático mas grosseiramente ineficaz e degradador. Entregar aos partidos aliados ministérios inteiros, de porteira-fechada, como acontece há nove anos com o PCdoB e a pasta do desporto, é uma acintosa aberração funcional. Aldo Rabelo pode jurar que punirá todos os responsáveis pelos desvios de recursos, nepotismo, prevaricação e favorecimentos, porém, por mais frio, implacável e pragmático que seja, jamais irá além das mudanças cosméticas.

A administração do Estado moderno é técnica. Um ministério relativamente novo, com um acervo de vivências restrito, rodeado e infiltrado por insaciáveis interesses econômicos e eleitorais, se deseja alcançar um mínimo de competência, não pode ficar prisioneiro de um monólito doutrinário. Mesmo porque nem o PCdoB nem qualquer outra agremiação política brasileira – excetuado o PSOL – podem ostentar uma homogeneidade ideológica. Em nosso horizonte político só existem projetos de poder. E esses são a ruína de nossas instituições.

Aldo Rabelo pretende acabar com a ligação direta entre as ONG e o governo federal transferindo o relacionamento para a esfera estadual e municipal. Isso não impedirá que estados e municípios da base aliada se beneficiem abusivamente. Mais distantes dos grandes centros ficarão imunes à fiscalização e livres para continuar operando no mesmo paradigma da Era Orlando Silva.

O sistema de ministérios-bunkers, autárquicos, sequestra poderes do Estado equitativo e isonômico, impede-o de pensar federativamente e barra a imperiosa e inadiável reestruturação administrativa. Os ministérios-currais jamais admitirão uma diminuição no seu número, mesmo com o aumento das sinergias e das áreas de atuação.

O saneamento empreendido pela presidente Dilma corre o risco de tornar-se ilusório se não for devidamente amparado por avanços estruturais consistentes.

Retirado do seu nicho espiritual, messiânico, Ecce Homo é uma busca de nomes e pessoas. Neste momento o mundo está sedento de ideias.

Alberto Dines é jornalista.

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