Santos Dumont merecia céus de brigadeiro neste ano do centenário do vôo no 14-Bis. No lugar de homenagens, ofereceram-lhe a maior crise da história da aviação no Brasil.

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O presidente Lula também é merecedor de grandes distinções pelo placar que obteve nas eleições e pela formidável avaliação do seu desempenho. Antes mesmo de envergar pela segunda vez a faixa presidencial, o presidente assistiu inerte ao apedrejamento de seus principais apoiadores na esfera parlamentar, Aldo Rebelo e Renan Calheiros.

Devidamente batizados com aumentativos como soe acontecer num país de dimensões continentais, tanto o apagão (aéreo) como o dobradão (os 91% pretendidos pelos parlamentares), além da reverberação habitual, exigiriam reflexões mais demoradas já que devem balizar os primeiros meses do novo mandato.

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As manchetes, por sua natureza sintética, só conseguem retratar as conseqüências. O exame das causas exige mais palavras e, certamente, menos percussão. Os pecados de qualquer natureza ou intensidade não podem ser desconectados dos pecados originais, fonte e causa das perdições.

A idéia de um mega-aumento nos vencimentos dos legisladores federais não foi produto apenas da vocação para pilhagem que dominou a legislatura que agora se encerra. Não foi iniciativa dos "300 picaretas" da Câmara, complô do baixo clero ou assalto à mão armada no lusco-fusco da madrugada.

O clero que participou desta operação foi do mais alto coturno, padrão cardinalício. Gente galardoada que, desde os primeiros momentos do primeiro mandato, tenta assegurar uma maioria governista no Legislativo. De janeiro de 2003 a maio de 2005, Aldo Rebelo e José Dirceu duelaram abertamente pela posse da "coordenação política" do governo e o resultado pode ser resumido num outro aumentativo, o mensalão.

Para garantir um mandato mais sossegado e uma parceria legislativa menos atribulada, o Sacro Colégio então engendrou uma manobra inovadora: ao invés de distribuir cargos e pastas ministeriais antes da posse do presidente da República, decidiu-se que a fidelidade dos aliados será testada em fevereiro, durante o processo de escolha dos presidentes da Câmara e do Senado indicados pelo governo. Só então é que haveria a farta distribuição de brindes e botins.

Para evitar surpresas e severinadas, surgiu a idéia daquele aumento imediato de 91% nos vencimentos dos representantes do povo decidido num conchavo tutelado pela macabra entidade que leva o nome de Mesa Diretora.

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Deu no que deu. O pecado capital está na forma e no valor do aumento que os parlamentares se concederam. Mas o pecado original situa-se além dos cifrões: é luxúria política, incapacidade de conquistar alianças através de idéias e programas, vocação para um bolchevismo grisalho, oportunista, nada ideológico.

Já o apagão aéreo transferiu-se dos atulhados saguões para as pistas dos aeroportos. Protestos violentos nos balcões de check-in começam a ser substituídos por passeatas nas pistas. A classe média não costuma recorrer à baderna, mas parece que aprendeu a manifestar a sua indignação. O sonho harmonioso do Natal em família vendido com tanta eficácia pela aviação comercial acabou produzindo um efeito perverso: a desarmonia, a raiva, a reação violenta.

O pecado capital que tanto ofende a memória de Santos Dumont no centenário do seu feito maior é a mentira. As autoridades assumiram um desprezo ostensivo pela verdade em seguida ao 29 de setembro quando o Boeing da Gol colidiu com um jato Legacy.

A maior tragédia aérea brasileira, quase três meses depois, continua mal explicada e visivelmente manipulada. E nos reluzentes aeroportos desaparelhados em matéria de equipamento e recursos humanos o governo introduziu um novo vilão: as empresas aéreas representadas pela maior delas, a TAM. Ela seria a responsável pelo caos nos céus.

O pecado original foi acreditar apenas nas forças do mercado. Antes da implacável miniaturização da Varig nossos estadistas tiveram vergonha de optar por uma intervenção estatal, limitada, de médio prazo, capaz de impedir o gigantismo da TAM e a sua hegemonia.

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Deu no que deu. Nesta trepidante temporada de balanços e retrospectivas, confundem-se todos os pecados – capitais, mortais ou veniais. Ninguém quer saber onde tudo começa.