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| Foto: Richard Huber/Wikimedia Commons

Na última quinta-feira, dia 22, fez 75 anos que um grupo de jovens idealistas alemães que denunciou o nazismo foi executado pelo regime que ousou desafiar. Como uma chama tênue na escuridão, o Rosa Branca, como seus integrantes o chamavam, foi um movimento inspirador de gente que nunca perdeu a coragem, e um lembrete assustador da raridade desse tipo de heroísmo.

Seu fundador, Hans Scholl, e a irmã, Sophie, cresceram na periferia de Munique, criados por um pai que lhes incutiu fortes valores morais e uma visão de mundo caridosa. Como muitos outros da mesma idade, Hans entrou para a Juventude Hitlerista, mas começou a ter sérias dúvidas quase imediatamente, pois os nazistas não permitiam que cantasse determinadas músicas, levantasse determinadas questões ou lesse Stefan Zweig, seu autor favorito. Conquistou a posição de porta-bandeira na Reunião Anual de Nuremberg e voltou perturbado com o que viu.

Hans queria ser médico e foi convocado na posição de clínico na França. Depois de uma missão, voltou à Universidade de Munique para continuar os estudos. Não demorou muito e Sophie entrou no mesmo curso. Hans lia muito – Platão, Sócrates, Santo Agostinho e Pascal – e decorou o quarto do dormitório com cópias do Modernismo francês. Atraiu um círculo de amigos com a mesma linha de pensamento: Alexander Schmorell, filho de médico; Christoph Probst, pai de duas crianças pequenas; Willi Graf, introvertido e pensativo. E em pouco tempo já tinham em Kurt Huber, professor de Filosofia e defensor apaixonado da democracia liberal, seu mentor intelectual.

No verão de 1942, Hans e seus amigos, inspirados pelos sermões do bispo antinazista de Münster, Clemens von Galen, começaram a distribuir folhetos datilografados que denunciavam o regime. A linguagem era mais que apaixonada. “Todo alemão honesto hoje tem vergonha de seu governo, envolvido com os crimes mais hediondos, que ultrapassam qualquer medida humana”, Hans escreveu. Os membros do Rosa Branca declararam que quem o apoiava era conivente e imploraram que todos se engajassem em uma “resistência passiva” ao Estado nazista.

A história do grupo chegou à frente de batalha, mas a esperança que seus membros tinham de inspirar os cidadãos alemães não se concretizou

Eles também denunciaram as atrocidades contra os judeus. Schmorell e Hans compuseram o segundo folheto: “Estamos vendo um crime medonho contra a dignidade humana, sem paralelo na história do homem. Afinal, os judeus também são seres humanos”. E não pouparam palavras nem quando se tratava do Führer: “Toda palavra que sai da boca de Hitler é mentirosa”. Com referências eruditas a Goethe, Aristóteles, Schiller, Eclesiastes, Lao Tzu e outros, os panfletos eram concluídos com um pedido de apoio em forma da circulação do documento. “Não nos calaremos. Somos sua consciência. O Rosa Branca não os deixará em paz”, concluía a quarta edição.

Os impressos apareceram em caixas de correio e cabines telefônicas entre o fim de junho e meados de julho de 1942 e angariaram a simpatia de estudantes em Frankfurt, Hamburgo, Berlim e Viena. Porém, sumiram depois que Hans, Schmorell, Graf e Probst foram mandados, de repente, para o leste, onde os alemães se encontravam empacados. Ainda assim, Hans reagia aos nazistas com atos simples de humanidade, inclusive a caminho da frente de batalha. No trem para a Rússia, viu uma menina judia fazendo trabalhos forçados, a Estrela de Davi amarela no peito, exigida pelos nazistas. Em uma escapada rápida, Hans lhe deu o chocolate que vinha em sua ração – e uma margarida para enfeitar seu cabelo.

Depois de voltarem da frente, Hans e seus companheiros distribuíram mais dois panfletos para avisar que, com a derrota em Stalingrado, a queda alemã era inevitável. Declarando a importância dos direitos individuais, o impresso questiona: “Estamos condenados a ser uma nação odiada e rejeitada pela raça humana para sempre?” Hans, Schmorell e Graf saíam de fininho no meio da noite e pintavam nas paredes slogans tipo “Abaixo Hitler”, “Liberdade” e outros dizeres na avenida principal de Munique.

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Em 18 de fevereiro de 1943, Hans e Sophie decidiram distribuir os papéis na universidade, deixando várias pilhas nos corredores. Ao se afastar, Sophie percebeu que havia mais cópias na sacola e se dirigiu para o topo da escadaria, que dava para o átrio; dali, jogou um punhado de folhetos para cima e ficou observando enquanto eles se espalhavam pelos degraus.

Jakob Schmid, o responsável pela limpeza, nazista ferrenho, ficou só olhando; em seguida, trancou todas as portas e notificou as autoridades. Os irmãos foram mandados para o Palácio Wittelsbach, quartel-general da Gestapo. Logo depois, Probst, cuja mulher tinha dado à luz o terceiro filho do casal havia questão de semanas, também foi detido. Os três foram interrogados durante vários dias, mas se recusaram a implicar os outros.

Foram considerados culpados de alta traição e condenados à morte. Em questão de horas, foram executados na guilhotina. Antes que Hans pusesse a cabeça no bloco, porém, suas últimas palavras ecoaram pela prisão: “Viva a liberdade!” Em questão de semanas, os outros membros principais do Rosa Branca foram presos e executados.

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A história do grupo chegou à frente de batalha, servindo de motivação aos soldados que se opunham ao regime – mas a esperança que seus membros tinham de inspirar os cidadãos alemães não se concretizou. Seu apelo foi ignorado.

“Eles não buscaram o martírio em nome de uma ideia extraordinária; queriam apenas tornar possível a vida em uma sociedade humana para gente como eu e você”, Inge Scholl escreve em seu livro de memórias sobre os irmãos e seus companheiros do Rosa Branca. Estamos longe da escuridão do fascismo, mas fazemos um favor a nós mesmos relembrando a história triste, mas nobre, dessas almas tão belas no aniversário de seu trágico sacrifício.

Richard Hurowitz é investidor, escritor e editor da revista trimestral “The Octavian Report”.
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