É proibido recorrer à parábola bíblica do Vale de Lágrimas diante da choradeira que sacode todos os cantos e recantos da Praça dos Três Poderes em Brasília. Situada num planalto, nossa capital não reúne as condições topográficas para reter coisa alguma. Além disso, o baixíssimo nível de umidade seca em segundos qualquer líquido porventura derramado. Desta dupla condição, digamos geofísica, pode-se dizer que em Brasília é fácil verter, impossível acumular. Inevitável escorrer e transbordar.

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Sobretudo a hipocrisia. Difícil detalhar o quadro sem mencionar seus protagonistas, impossível recortá-los sem recorrer a adjetivos imperiosamente depreciativos. Restam alguns substantivos ou qualificações amenas. Por exemplo, Márcio Thomás Bastos tem o melhor guarda-roupas do país, é uma pena que vai nos privar daqueles ternos e camisas impecáveis, gravatas intensas porém apropriadas. Deixará de lustrar as páginas de política, mas certamente continuará brilhando nos tribunais ou circos forenses defendendo ilícitos indefensáveis.

Aldo Rebelo tem tudo para ganhar o Oscar de melhor ator do planeta: domina todos os músculos do rosto, sua voz é inalterável, seus olhos não se mexem, a alma parece feita de aço, custa crer que nossos produtores de cinema ainda não o descobriram para interpretar o papel de sacristão num filme ambientado em Moscou nos tempos de Rasputin (não confundir com Putin).

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O panteão brasiliense é imenso, sugestivo, generoso. Tal como os depósitos lacrimais de seus ilustres freqüentadores. Para comunicar-se com todos os rincões do país, a saída é o choro. Apesar do carnaval e da aparência de festeiro, o brasileiro tende à melancolia como constatou Paulo Prado no seu ensaio sobre a tristeza brasileira, "Retrato do Brasil" (1928).

O presidente Lula também desfilou na passarela brasiliense das emoções fáceis com uma choradinha protocolar na cerimônia de diplomação no TSE nesta quinta-feira. Mas o homem é rijo: não se emocionou com o flagrante do formidável assalto ao erário comandado pelo Legislativo. Não mostrou remorsos com o indiciamento dos companheiros que xingara de "aloprados". Resistiu bravamente à constatação de que o crescimento de 5% em 2007 já está descartado.

A voz só embargou, o rosto só pareceu mais vermelho e o improviso se interrompeu quando agradeceu ao povo humilde que sem intermediários (a ênfase é do articulista) disse que queria mantê-lo na Presidência.

Quem deveria chorar são os detalhistas, aqueles que se apegam às palavras casuais e, por vício, não esquecem frases antigas. Ao reeleger-se, o presidente Lula declarou que derrotara os "formadores de opinião". Queria dizer que venceu sozinho, inclusive sem o seu partido. Agora, chuta para escanteio os intermediários e apresenta-se como interlocutor único da vontade popular.

Não falou em democracia direta, nem nas deficiências do sistema representativo – seria maçante, esfriaria as emoções –, mas deixou registrado e com bastante precisão o novo dado a respeito das suas doutrinas políticas e, evidentemente, do tamanho do seu ego.

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Com um Legislativo auto-avacalhado pelo aumento de 92% nos seus vencimentos, com os partidos autoimolados na corrida pelas vantagens, com a esquerda publicamente desqualificada como retrógrada e a mídia tímida ou intimidada, Lula antecipa de forma sutil, porém coerente, alguns "hits" do seu próximo repertório.

A duas semanas da posse, a atual maratona de lágrimas e cinismo tem o dom de tranqüilizar os intranqüilos: vamos sentir saudades dos intermediários.