A força da opinião católica garantiu, por anos, que o governo federal evitasse a introdução do divórcio, assim como o fim dos cassinos foi ação da esposa do presidente Gaspar Dutra

Nas análises das eleições presidenciais deste ano, houve todo tipo de assertivas descompromissadas com a história. Até as que garantiam que a religião e tema morais teriam agora estreado em campanhas eleitorais. O que não é verdade. Uma memória recente nos remete às eleições de 1989, quando Lula foi vetado por poderosos grupos neopentecostais, capitaneados pela Igreja Universal, pois teria pacto "com Satanás". Nas de agora, a Universal de Edir Macedo fez forte campanha aberta pró Dilma Rousseff, enquanto seu concorrente e ex-companheiro de igreja, Waldomiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, ficou com José Serra, assim como outro desafeto de Macedo, o pastor Silas Malafaia, da Assembléia de Deus.

A poderosa Liga Eleitoral Católica nos anos 1940/50 foi um bastião em defesa da fé católica. Na eleições de 1950, Café Filho sofreu muitos vetos católicos por ser calvinista e divorcista. Getúlio Vargas, ídolo das multidões, positivista apesar de fortes ligações com a hieraquia católica – da qual retirava apoio para seus projetos –, soube contornar os vetos no nascedouro. Com a morte de Getúlio, Café Filho assumiu a Presidência (foi o primeiro presidente protestante do país, o segundo foi Ernesto Geisel, luterano).

A força da opinião católica também garantiu, por anos, que o governo federal evitasse a introdução do divórcio, assim como o fim dos cassinos foi ação da devota católica dona Santinha, a esposa do presidente Gaspar Dutra.

O que aconteceu agora, com Dilma e Serra tomados de fervor religioso-eleitoral? Eles ouviram a voz da religião, grande peso nas urnas. O catolicismo manifestou-se, acredito, pela necessidade de fortalecer-se diante de seus fiéis e não silenciar na defesa de princípios que estariam sob ameaça, como uma hipotética descriminalização do aborto, por exemplo. Os temores multiplicaram-se com acústica Brasil afora, sobretudo pelas rádios e televisões católicas. Nesse ponto, foi capital a ação da TV Canção Nova, do movimento conservador do mesmo nome, fundado por monsenhor Jonas Abib, e que se mantém no ar com dezenas de rádio e televisão sem anúncios comerciais. Só com doações dos fiéis, o que demonstra o apoio que encontra.

Dilma e Serra, sentindo a pressão religiosa em torno da defesa da vida no nascedouro, chegaram a saturar suas pregações em apoio às teses católicas e pentecostais sobre o aborto, casamento de homossexuais, eutanásia. Na verdade, as pesquisas de opinião indicaram uma área muito sensível à opinião pública (73% da população são contra o aborto).

Há quem vá além dessas posições autoexplicáveis. São os que acham que setores pentecostais, fortemente dependentes dos meios eletrônicos de comunicação, estariam agindo preventivamente, diante de possíveis limitações explicitadas por anteprojeto de regulação da mídia eletrônica. Uma das limitações estabeleceria o mínimo de tempo para programas religiosos.

De qualquer forma é interessante registrar que dois religiosos podem ser classificados como detonadores da guinada religiosa da campanha, na medida que suas palavras em defesa da vida foram ouvidas pelo país: o pastor Piragine, da Primeira Igreja Batista de Curitiba, e o padre José Augusto, da Canção Nova. Suas falas ecoaram muito além das televisões, foram para o You Tube, multiplicaram-se ad infinitum. Inauguraram a grande influência da web numa eleição presidencial brasileira. Bispos católicos mostraram suas posições às claras: dom Bergozinni, de Guarulhos, contra Dilma dom Demétrio, a favor da recém eleita presidenta.

A CNBB, tão louvada outrora pelo papel de resistência democrática na ditadura, não recomendou nomes, proclamando que os grandes temas da moral católica deveriam contar para o eleitor.

Quanto à fala do Papa a bispos brasileiros que o visitavam no final de outubro, ele falou sobre o que fala todos os dias. Talvez tenha surpreendido por que Serra e Dilma já haviam proclamado promessa de jamais agir contra "os valores da religião". Mas foi claríssimo: proclamar valores cristãos é direito e dever do episcopado, em qualquer tempo. Como fez a Igreja, por exemplo em situações duríssimas, como a do confronto com Henrique VIII, da Inglaterra. O que a ela custou o cisma gerador da Igreja Anglicana, revelando ao mundo o mártir Thomas Morus, o da utopia.

Aroldo Murá G.Haygert é jornalista, presidente do Instituto Ciência e Fé e coordenador do Projeto Memória Paranaense do Grupo Uninter.

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