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Nos últimos anos, o ensino bilíngue ganhou força no Brasil e passou a fazer parte do projeto pedagógico de muitas escolas. A promessa é sedutora: formar alunos capazes de transitar entre dois idiomas com naturalidade desde cedo. Ainda assim, na prática, muitos pais seguem investindo em cursos de inglês fora do ambiente escolar. Afinal, se a escola já oferece o idioma, por que essa busca paralela continua tão presente?
A resposta passa, antes de tudo, pela diferença entre proposta e execução. Nem todo ensino considerado bilíngue entrega, de fato, uma imersão consistente no idioma. Em alguns casos, o modelo é mais estruturado, com o inglês presente em parte relevante da grade curricular ou até na maior parte das disciplinas, conduzidas por professores qualificados tanto no conteúdo quanto na fluência do idioma.
No entanto, essa ainda é a exceção. Na maioria das escolas, o chamado ensino bilíngue se traduz, na prática, em um aumento da carga horária de inglês – o que antes eram duas aulas semanais passa a ser quatro ou cinco – ou, em alguns casos, em atividades no contraturno ou disciplinas específicas. Modelos realmente imersivos, com uso consistente do idioma em diferentes áreas do conhecimento, ainda estão concentrados em poucas instituições, geralmente associadas a um público de maior poder aquisitivo e localizadas nos grandes centros do país.
Esse cenário ajuda a explicar um dado que chama atenção: segundo o British Council, apenas cerca de 5% da população brasileira afirma ter algum conhecimento em inglês, e menos de 1% é considerada fluente. Ou seja, mesmo com avanços no acesso ao idioma, o domínio efetivo ainda é um desafio no país.
Outro movimento recente também ajuda a entender esse cenário: muitos alunos passaram por uma transição do ensino regular tradicional para o modelo bilíngue. Em grande parte dos casos, essa mudança não ocorreu por uma troca de escola, mas porque um número relevante de instituições passou a incorporar programas bilíngues em sua grade, exigindo adaptação dos alunos que já faziam parte dessas escolas.
Nesse processo, é comum que enfrentem dificuldades, tanto na compreensão quanto na segurança para se comunicar. Isso evidencia um ponto importante: embora a exposição ao idioma contribua para o aprendizado, quando ocorre de forma limitada, como em períodos curtos ao longo do dia, pode não ser suficiente para garantir um desenvolvimento consistente, especialmente quando comparada a contextos de maior imersão, como morar ou estudar no exterior.
Cada vez mais famílias entendem que, para quem busca fluência de fato, é necessário um ambiente estruturado exclusivamente para o ensino do idioma. Na prática, o ganho de eficiência é significativo
Também já é possível observar um movimento de retorno de alunos aos cursos de inglês. Após um período inicial de empolgação com a proposta bilíngue, muitas famílias retomam esse investimento ao perceber que o aprendizado não evoluiu como esperado. Esse cenário, inclusive, tem levado escolas a adotarem o termo “programa bilíngue”, em vez de “escola bilíngue”, para alinhar melhor as expectativas.
Soma-se a isso o fato de que não é incomum encontrar profissionais desses programas buscando formação complementar em cursos de idiomas, o que reforça o desafio de qualificação na área, ainda que existam bons professores.
É nesse contexto que o curso de inglês tradicional se consolida como o principal ambiente de desenvolvimento da fluência. Diferentemente de muitos modelos escolares, ele é estruturado com foco exclusivo no aprendizado do idioma, com metodologias próprias, progressão clara de níveis e ferramentas que estimulam o uso prático no dia a dia, como simulações de situações reais, desenvolvimento da escuta ativa e incentivo à conversação desde os primeiros estágios.
Isso se torna ainda mais relevante diante dos desafios enfrentados por grande parte das escolas que se apresentam como bilíngues: turmas numerosas e, na maioria das vezes – ou quase na totalidade –, desniveladas, com alunos em diferentes estágios de conhecimento.
Nesse contexto, o principal impacto não está necessariamente no tempo de aula, mas no baixo aproveitamento desse período, já que a exposição à prática é limitada. Com muitos alunos e níveis distintos, torna-se difícil estimular a conversação de forma efetiva e, considerando que o aprendizado do idioma acontece, sobretudo, por meio da prática – especialmente da fala –, esse é um ponto crítico.
Soma-se a isso a dificuldade de encontrar profissionais com fluência e qualificação adequadas para conduzir o ensino do idioma. Nesse cenário, não há personalização do aprendizado e a prática praticamente não acontece, o que compromete significativamente a evolução, que tende a ser não apenas mais lenta, mas também limitada.
Além disso, o ambiente do curso costuma oferecer algo essencial para a fluência: intencionalidade. O aluno está ali com um único objetivo – aprender inglês –, o que permite uma abordagem mais direcionada, com acompanhamento individualizado e métricas claras de evolução.
Isso não significa desmerecer o ensino bilíngue. Pelo contrário. Quando bem estruturado, ele pode contribuir para a familiaridade com o idioma e ampliar o repertório dos alunos.
No entanto, é importante reconhecer que, na maioria dos casos, ele não tem sido suficiente, por si só, para garantir sequer um nível intermediário de fluência. Outro ponto que merece atenção são os riscos de uma expectativa desalinhada. Ao acreditar que apenas a escola dará conta de todo o processo, os pais podem postergar intervenções importantes.
Em alguns casos, inclusive, o problema vai além da fluência: em escolas que oferecem algumas disciplinas regulares em inglês, há alunos que passam a ter dificuldade para compreender os conteúdos ministrados no idioma, o que impacta diretamente o aprendizado das próprias disciplinas.
Com isso, a criança pode não avançar nem no idioma nem no conteúdo acadêmico, acumulando lacunas que se tornam mais difíceis de corrigir no futuro – um cenário que já tem levado famílias a reavaliarem esse modelo de ensino. Há ainda o risco de uma falsa sensação de domínio.
É importante reconhecer que, mesmo quando o ensino se resume a mais aulas de inglês na rotina escolar, isso traz algum benefício. Afinal, aumenta o tempo de contato da criança com o idioma. No entanto, esse avanço está longe de ser suficiente para garantir fluência.
Em muitos casos, os alunos até desenvolvem certa compreensão, mas continuam com dificuldades na fala e na escrita, justamente as competências mais exigidas no mercado de trabalho e em experiências internacionais.
O problema, portanto, não está apenas na exposição, aplicação, metodologias ou modelos de aula, mas na expectativa criada. Quando esse modelo é vendido como bilíngue pleno, pode gerar nos pais uma percepção equivocada sobre o real nível de domínio do idioma.
Por isso, cada vez mais famílias entendem que, para quem busca fluência de fato, é necessário um ambiente estruturado exclusivamente para o ensino do idioma. Na prática, o ganho de eficiência é significativo: conteúdos que, no ambiente escolar, são apenas apresentados ao longo de semanas ou até meses, em cursos de idiomas são efetivamente trabalhados e assimilados em um período muito mais curto, com foco real na prática do idioma e na conversação.
Isso acontece porque há metodologia, abordagens mais apropriadas, intencionalidade e, principalmente, profissionais preparados para ensinar o idioma com profundidade – algo que ainda é um desafio em grande parte das escolas regulares.
No fim do dia, a pergunta talvez não seja apenas sobre ter ou não acesso ao inglês na escola, mas sobre onde, de fato, esse aprendizado acontece de maneira consistente. E hoje, na maioria dos casos, esse desenvolvimento ainda depende de ambientes em que o idioma é o foco central do processo de ensino.
André Belz é especialista em idiomas e CEO da Rockfeller Language Center.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







