
Ouça este conteúdo
Durante décadas, consolidou-se no imaginário coletivo a ideia de que o Brasil é “o país do futebol”. Essa narrativa foi amplamente difundida pela mídia e reforçada por conquistas históricas da seleção brasileira. No entanto, insistir que o Brasil é exclusivamente o país do futebol pode significar ignorar um universo muito mais amplo de possibilidades esportivas, econômicas, sociais e educacionais.
O esporte moderno tornou-se uma poderosa indústria global de entretenimento. Movimenta bilhões de dólares anualmente, gera empregos, estimula inovação tecnológica, fortalece identidades nacionais e promove inclusão social. Nesse cenário, os esportes olímpicos representam um campo estratégico que o Brasil ainda explora de forma insuficiente.
Hoje, o esporte deixou de ser apenas uma atividade recreativa ou competitiva. Ele integra um complexo ecossistema econômico que envolve eventos esportivos, patrocínios, direitos de transmissão, turismo esportivo, produção de equipamentos, formação de atletas e desenvolvimento tecnológico.
Os Jogos Olímpicos são um dos maiores espetáculos esportivos do planeta e demonstram claramente que existe público, interesse e mercado para diversas modalidades. Durante algumas semanas, bilhões de pessoas acompanham provas de atletismo, ginástica, natação, judô, ciclismo, remo, entre muitas outras.
Diversos países compreenderam esse potencial há décadas e estruturaram políticas públicas consistentes para o desenvolvimento esportivo. Investiram em centros de treinamento, programas de base, identificação de talentos e integração entre esporte e educação.
No Brasil, entretanto, o investimento em esportes olímpicos ainda é irregular e frequentemente concentrado nos períodos próximos às grandes competições internacionais.
Persistir na ideia de que o futebol é o único eixo do esporte nacional é limitar o próprio potencial do país. Talvez seja o momento de o Brasil superar definitivamente esse mito
O esporte também possui profundo impacto social. Programas esportivos bem estruturados promovem inclusão, ampliam oportunidades para jovens e contribuem para a formação de valores fundamentais, como disciplina, cooperação, respeito às regras e superação de desafios. Em muitos países, projetos esportivos são utilizados como instrumentos de transformação social, oferecendo alternativas positivas para crianças e adolescentes em contextos de vulnerabilidade.
Quando um país investe em esporte, ele não está apenas formando atletas de alto rendimento, mas também formando cidadãos.
Uma das principais lições observadas em nações com forte tradição olímpica é a integração entre esporte e educação. Escolas e universidades desempenham papel fundamental na formação esportiva, criando ambientes nos quais o desenvolvimento físico, intelectual e social caminham juntos. Competições escolares, programas universitários e centros de treinamento vinculados às instituições de ensino ampliam a base de praticantes e fortalecem a cultura esportiva.
Investir na formação esportiva desde a infância é fundamental e essencial. A literatura acadêmica e inúmeras experiências internacionais já demonstraram que programas esportivos de base bem estruturados geram benefícios duradouros, tanto para o desempenho esportivo quanto para o desenvolvimento educacional e social.
Um episódio recente ilustra bem o potencial mobilizador do esporte: a enorme repercussão positiva da conquista da primeira medalha olímpica brasileira em Jogos Olímpicos de Inverno. Mesmo em um país tropical, sem tradição em esportes de neve, a conquista gerou entusiasmo nacional, ampla cobertura da imprensa e grande engajamento nas redes sociais.
Esse fato demonstra algo importante: quando surgem histórias inspiradoras e conquistas relevantes, o interesse do público aparece. O brasileiro valoriza o talento, a superação e o espírito esportivo, independentemente da modalidade.
Isso revela que o potencial de popularização dos esportes olímpicos é muito maior do que normalmente se imagina. Estamos a poucos anos dos Jogos Olímpicos de Los Angeles. Esse período deveria ser encarado como uma oportunidade estratégica para ampliar investimentos na formação esportiva, fortalecer programas de base e estruturar políticas públicas permanentes para o esporte.
Grandes resultados esportivos não surgem de improviso. Eles são fruto de planejamento de longo prazo, investimento contínuo e integração entre escolas, universidades, clubes e centros de treinamento. Países que hoje dominam diversas modalidades olímpicas começaram seus projetos esportivos décadas atrás.
Nesse contexto, é inevitável discutir também as prioridades do gasto público. O Brasil frequentemente destina bilhões de reais a privilégios e benefícios adicionais de determinadas estruturas administrativas do Estado - os chamados “penduricalhos” - que pouco contribuem para o desenvolvimento social do país.
Se uma fração desses recursos fosse direcionada para programas nacionais de formação esportiva nas escolas públicas, centros de treinamento regionais e projetos esportivos comunitários, o impacto social poderia ser extraordinário.
Investir no esporte de base significa investir em saúde pública, educação, prevenção à violência e oportunidades para a juventude. Significa também construir um país com maior autoestima coletiva e maior capacidade de competir internacionalmente.
O Brasil possui talento esportivo abundante. Mesmo com limitações estruturais, atletas brasileiros frequentemente alcançam resultados expressivos em diversas modalidades olímpicas. Isso mostra que o potencial existe.
O que falta é transformar esse potencial em política pública permanente. É necessário ampliar centros de treinamento, fortalecer o esporte escolar, integrar universidades ao sistema esportivo e garantir financiamento estável para programas de formação.
Persistir na ideia de que o futebol é o único eixo do esporte nacional é limitar o próprio potencial do país. Talvez seja o momento de o Brasil superar definitivamente esse mito e reconhecer que pode ser também uma grande potência esportiva em diversas modalidades.
O esporte olímpico não é apenas competição ou espetáculo. Ele é educação, inclusão social, economia e desenvolvimento. Investir nele é investir no futuro do país.
Renato de Sá Teles é professor universitário na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e doutor em Matemática Aplicada.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos







