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Durante gerações, os Estados Unidos apresentaram-se ao mundo como uma terra de promessas. Milhões de imigrantes atravessaram oceanos atraídos por uma ideia simples e poderosa: a possibilidade de construir uma vida nova. A promessa de segurança, propriedade privada, liberdade religiosa, oportunidade econômica e ascensão pelo esforço pessoal tornou-se parte indissociável da identidade americana. Os Estados Unidos da América não formavam apenas um país; constituíram-se como a esperança de uma vida melhor, um destino manifesto.
Poucas nações fizeram da liberdade de expressão um princípio tão central de sua autocompreensão. A convicção de que homens livres deveriam poder defender suas ideias sem medo da perseguição estatal ou da violência tornou-se um dos pilares morais sobre os quais a República americana foi edificada. Ao longo dos séculos, judeus, irlandeses, menonitas, mórmons e diversos outros povos cruzaram o Atlântico em busca do sonho americano.
Entretanto, essa estrutura foi duramente abalada em dois episódios recentes: o assassinato da imigrante ucraniana Iryna Zarutska no metrô de Charlotte, na Carolina do Norte, morta depois de uma extenuante jornada de trabalho por um facínora que permanecia em liberdade devido aos erros sistemáticos do sistema de justiça norte-americano; e o trágico assassinato do ativista cristão Charlie Kirk, baleado dentro do campus da Utah Valley University enquanto palestrava. O que une esses dois episódios aparentemente distintos?
No primeiro caso, uma jovem imigrante fugiu da guerra, atravessou o oceano em busca de segurança e termina assassinada dentro de um transporte público. No segundo, um ativista político é morto enquanto exercia aquilo que os próprios americanos sempre consideraram um direito fundamental: falar livremente em praça pública.
Há, na sociedade americana e no Ocidente como um todo, um fantasma que paira, transformando homens e mulheres comuns em inimigos a serem calados ou eliminados
À primeira vista, tratam-se de crimes sem relação entre si. Mas, observados em conjunto, revelam algo mais profundo. Ambos representam ataques a promessas constitutivas da essência americana. Iryna Zarutska encarnava o velho sonho do imigrante; sua trajetória reproduzia uma narrativa que se repetiu milhões de vezes desde o século XIX: abandonar uma terra marcada pela insegurança e pela escassez para construir uma vida melhor em uma sociedade ordenada, protegida por leis estáveis e instituições confiáveis.
Quando uma refugiada que escapou da guerra encontra a morte em razão de falhas acumuladas do próprio sistema que deveria protegê-la, não se trata apenas de uma fatalidade. Trata-se de um cancro aberto na promessa civilizacional americana. Há quanto tempo a vida de imigrantes e americanos não é mais protegida por um sistema de justiça que se preocupa mais com a reinserção social do criminoso do que com as vítimas?
Charlie Kirk, por sua vez, representava outra tradição igualmente central para a identidade americana. Sua morte simboliza a substituição perigosa do debate pelo ataque físico ao adversário. Há, na sociedade americana e no Ocidente como um todo, um fantasma que paira, transformando homens e mulheres comuns em inimigos a serem calados ou eliminados.
Esses dois acontecimentos apontam para um fenômeno mais amplo: a crescente dificuldade das instituições ocidentais em preservar os bens fundamentais que justificaram sua legitimidade histórica. Segurança pública, confiança na justiça, liberdade de expressão e respeito ao dissenso deixaram de ser realidades presumidas para se tornarem temas de permanente disputa e desumanização.
Toda civilização repousa sobre pilares invisíveis. Eles permanecem despercebidos enquanto funcionam, parecem até mesmo direitos naturais. Somente quando começam a rachar percebemos que sustentavam todo o edifício. Talvez o aspecto mais inquietante desses episódios não seja a brutalidade dos crimes, mas o fato de revelarem fissuras justamente nos fundamentos que fizeram os Estados Unidos, durante gerações, uma referência para milhões de pessoas ao redor do mundo.
A questão que permanece é simples e perturbadora: estamos diante de rachaduras reparáveis nos pilares da civilização ocidental ou estes são os primeiros sinais de um processo de deterioração mais profundo? A mera possibilidade de formular uma pergunta como essa demonstra uma inquietação preocupante.
Civilizações não desabam de uma só vez. Elas se esvaziam por dentro, enquanto suas fachadas continuam de pé. As instituições americanas aparentemente ainda funcionam, eleições ocorrem, os tribunais ainda julgam, mas a confiança que antes parecia natural agora precisa ser reconquistada e reparada para uma parcela da população cada vez maior e mais desconfiada.
As fissuras talvez ainda possam ser reparadas. A história registra exemplos de sociedades que encontraram forças para corrigir seus rumos. Mas também registra outras que ignoraram os sinais de desgaste até descobrirem, tarde demais, que os pilares que sustentavam sua ordem já haviam sido corroídos. Resta saber de que lado dessa história os Estados Unidos, e o Ocidente que neles se espelhou, escolherão ficar.
Igor Guedes de Carvalho é mestre em história pela Universidade Federal de Juiz de Fora.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



