| Foto: SS/SS

Perguntam com frequência o que eu acho da reforma do ensino médio e similares. Seria um avanço ou um atraso? Reforma na educação depende do burocrata de plantão.

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Suspeito de que a educação seja uma das áreas de conhecimento mais perdidas no mundo atual. De um lado, acumulam-se teorias de que a educação deveria contemplar apenas disciplinas técnicas. De outro, que a educação teria como principal papel a formação do cidadão.

Outros pensam que a educação deveria ser revolucionária em tudo, e mais outros, que a educação deveria formar valores morais sólidos. A lista vai longe, chegando mesmo ao caso daqueles que pensam que a educação deveria ser uma assembleia aberta em que bebês votariam na estrutura curricular do jardim da infância para evitar a opressão patriarcal.

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Alguns, mais semiletrados, inovam a cada dia a educação a partir do palestrante mais na moda e da última teoria politicamente correta no mercado. Uma ideia continuamente na moda entre os teóricos é que a educação deveria educar para a democracia e o bem público. Platão concordaria com a segunda parte, mas não com a primeira.

Alguns acham que a educação deveria ser construída apenas a partir dos oprimidos. Este último caso é tão delirante que alguns chegam a afirmar que falar errado, sem levar em conta as regras da gramática, é uma forma de combate à opressão. “É nóis” deixa de ser uma licença poética e passa a ser um grito de liberdade.

As teorias da educação são tão precisas quanto o tarô ou a leitura do futuro na borra de café

Alguns professores por aí chegam mesmo a “caçar a pauladas” (leia-se “reprovar”) alunos que falem corretamente na aula sob acusação de reproduzirem padrões de dominação da elite.

Jacques Derrida (1930-2004), filósofo francês criador do conceito de “desconstrução”, segundo o qual a gramática é uma forma de teologia porque unifica modos de expressão, nunca imaginaria que sua teoria (ele falava francês correto) um dia seria usada como argumento para reprovação de alunos que usam a gramática como manda o figurino.

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Portanto, as teorias da educação são tão precisas quanto o tarô ou a leitura do futuro na borra de café. A tentativa de unificá-las é pior ainda, porque esta unificação virá sempre pelas mãos de duas ou três pessoas que acreditam fielmente no que defenderam em seu doutorado. Levar seu doutorado muito a sério é signo de baixa formação intelectual.

Há alguns meses o “mundo da cultura” entrou em êxtase crítico quando o atual governo resolveu extinguir o Ministério da Cultura. Pelo que afirmavam, os artistas e similares, sem o Ministério da Cultura ninguém mais teria uma ideia sequer que prestasse nem ninguém conseguiria mais realizar nenhuma obra “cultural”.

Claro, nossa elite cultural foi criada às custas de editais do Estado, sem eles, a criatividade da elite cultural vai a zero em 24 horas.

Na época, não dei muita atenção ao tema porque penso que o Ministério da Educação (MEC) é que deveria ser extinto, muito mais nocivo ao país do que o Ministério da Cultura –apesar de este servir para todo tipo de manipulação ideológica para qualquer lado da mesa de pingue-pongue político e de cultivar uma certa preguiça moral e estética nos agentes culturais nacionais.

Proponho que fechem o MEC. Não por razões de contabilidade. Coitado, o MEC deve gastar pouca grana. Mas por razões culturais e pedagógicas. Acabar com o MEC nos livraria de todo tipo de burocrata que constrói sua vida e seu orçamento atormentando quem, de fato, se ocupa com a educação, essa arte inexata que deveria ajudar os seres humanos a serem mais humanos e menos bobos.

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Sem o MEC acabariam essas reformas intermináveis, esse “centralismo democrático do blá-blá-blá” e esse mercado paralelo de “aferição de qualidade” do tipo Anade, Enade, Inade, Onade, Unade e similares –varia-se a vogal, permanece a aleatoriedade dos critérios. Quem decide é quem estiver no comando burocrático da hora.

A educação deveria estar na mão dos municípios. Melhor ainda: das próprias escolas. A regra é: quanto menos burocrata, melhor qualidade na educação e na vida. Fechem o MEC. Invistam a grana em ferrovias.

Luiz Felipe Pondé, escritor, filósofo e ensaísta, é doutor em Filosofia pela USP e professor do Departamento de Teologia da PUC-SP e da Faculdade de Comunicação da Faap.