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Que o uso da inteligência artificial facilita e otimiza a rotina do dia a dia não é novidade. Um levantamento global da Freshworks mostrou que o uso dessas ferramentas pode economizar cerca de 3 horas e 47 minutos por semana no trabalho. Já, segundo o relatório PwC 2025 Global AI Jobs Barometer, os setores com maior exposição à IA apresentaram crescimento três vezes maior na receita por funcionário do que os setores menos expostos à tecnologia.
A verdade é que a inteligência artificial é frequentemente apresentada como uma tecnologia capaz de democratizar o acesso à informação, ampliar a produtividade, impulsionar negócios e reduzir desigualdades. Em um cenário em que a IA se torna cada vez mais presente na sociedade, o verdadeiro diferencial competitivo deixa de ser o acesso à tecnologia e passa a ser a capacidade de quem está do outro lado da tela, ou seja, de quem consegue pensar, estruturar problemas, formular perguntas e interpretar respostas.
Mas até que ponto essa suposta democratização beneficia efetivamente a todos? Segundo o Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional), cerca de 10% a 12% da população adulta do país atinge o nível proficiente de alfabetismo funcional, o mais elevado. Isso significa que a maioria das pessoas tem dificuldade para interpretar textos e analisar informações. Em um ambiente mediado pela IA, essa limitação pode se tornar ainda mais grave. Embora seja uma ferramenta facilitadora, a inteligência artificial exige letramento funcional, capacidade analítica e domínio da linguagem. Quem não possui essas habilidades tende a usar a tecnologia de forma superficial, acrítica e pouco produtiva.
De fato, a inteligência artificial reduz barreiras de acesso à informação e oferece benefícios, pois conteúdos e incentivos ao conhecimento podem ser acessados de forma facilitada e gratuita, em uma linguagem mais acessível e inclusiva. Mas esse não é o único ponto a ser considerado. Na atualidade, a desigualdade deixa de ser apenas de acesso e passa a ser também de interpretação. Os modelos generativos não produzem inteligência humana; eles amplificam o repertório e o conhecimento de quem os utiliza.
A verdade é que a IA não reduz as desigualdades de forma automática, como muitas vezes se interpreta. A reflexão que deve ser feita é que, a depender do contexto, ela pode ampliá-las
Em outras palavras, a inteligência artificial não corrige assimetrias de competência; ela as amplia. Duas pessoas podem acessar exatamente o mesmo modelo, mas quem domina linguagem, contexto e pensamento crítico extrai um valor exponencialmente maior.
Esse efeito não é abstrato. Ele se manifesta em situações cotidianas. Um profissional de marketing que compreende estratégia, comportamento do consumidor e métricas de negócio consegue usar a inteligência artificial para criar campanhas altamente segmentadas, testar hipóteses e otimizar resultados em escala. Em contrapartida, o profissional que utiliza a mesma ferramenta apenas para gerar conteúdos genéricos dificilmente alcançará resultados de grande impacto.
O Fórum Econômico Mundial mostrou que a competência mais valorizada pelas empresas é o pensamento analítico: cerca de sete em cada dez organizações consideram essa habilidade altamente relevante. Entre as demais competências destacadas estão a resolução de problemas complexos, a criatividade e a capacidade de adaptação em ambientes de intensa transformação digital.
Na educação, estudantes que utilizam a inteligência artificial apenas para copiar respostas tendem a aprender menos, enquanto aqueles que a empregam para expandir o raciocínio, aprender novos conteúdos, explorar diferentes perspectivas e validar argumentos acabam desenvolvendo competências mais profundas. A tecnologia é a mesma; o resultado depende da qualidade cognitiva do usuário.
A própria dinâmica dos modelos generativos reforça esse efeito. Sistemas como o ChatGPT respondem a comandos em linguagem natural, mas a qualidade das respostas depende diretamente da clareza, da precisão e do contexto fornecidos pelo usuário.
Pessoas que sabem estruturar perguntas, delimitar problemas e conectar áreas do conhecimento obtêm resultados mais relevantes, criativos e estratégicos. Quem faz pedidos vagos recebe respostas genéricas. Isso transforma a linguagem em uma infraestrutura de poder. Saber perguntar passa a valer mais do que memorizar respostas. A capacidade de síntese, abstração e validação ganha valor econômico e social. Isso significa que a próxima grande desigualdade não será apenas financeira ou tecnológica, mas cognitiva.
Esse movimento também impacta a formação de elites cognitivas. Historicamente, o acesso à informação sempre foi um fator de concentração de poder. Agora, essa vantagem passa a estar associada à capacidade de navegação cognitiva em ambientes cada vez mais complexos.
Empresas que possuem contexto, estratégia e capacidade analítica conseguem transformar a IA em vantagem competitiva real. Elas não apenas automatizam tarefas, mas ampliam a inteligência organizacional, aceleram decisões e criam soluções inovadoras. Já organizações que tratam a inteligência artificial como uma ferramenta genérica tendem a capturar pouco valor. O diferencial não está na tecnologia, mas na maturidade intelectual de quem a utiliza.
Esse cenário exige uma mudança profunda na forma como pensamos educação, trabalho e tecnologia. Se a inteligência artificial amplifica a inteligência humana, o que acontece em uma sociedade cujas capacidades cognitivas já são profundamente desiguais?
A verdade é que a inteligência artificial não reduz as desigualdades de forma automática, como muitas vezes se interpreta. A reflexão que deve ser feita é que, a depender do contexto, ela pode ampliá-las. Se a sociedade não investir em pensamento crítico, repertório interdisciplinar e letramento digital, corre-se o risco de criar um ambiente em que as mesmas ferramentas que prometem democratização acabem reforçando assimetrias cognitivas já existentes. A inteligência artificial amplifica a inteligência humana. Em uma sociedade em que as capacidades cognitivas são profundamente desiguais, esse efeito precisa ser encarado com seriedade.
Por isso, a discussão sobre inteligência artificial não pode ficar restrita à automação ou à substituição de empregos. Ela precisa envolver educação, cultura, linguagem e desenvolvimento intelectual. Caso contrário, a sociedade entrará em uma era em que formular boas perguntas será mais valioso do que saber todas as respostas, mas nem todos terão as ferramentas cognitivas necessárias para fazer as perguntas certas e obter resultados mais eficazes.
Esse conceito fragilizado de democracia associado ao uso da inteligência artificial precisa ser repensado de maneira mais profunda, pois a IA não cria pensamento crítico nem capacidade analítica; ela potencializa aquilo que já existe. E, justamente por isso, a desigualdade cognitiva pode se tornar um dos desafios mais relevantes de um mundo cada vez mais digitalizado e interconectado.
Sofia Marshallowitz é cientista de dados, pesquisadora e consultora em inteligência artificial, governança de dados e impacto econômico da fenotipagem digital.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



