Dizem que o segredo de um bom ilusionista é atrair a atenção da plateia para uma mão, enquanto realiza a verdadeira magia com a outra. Talvez esse seja o segredo de muitos políticos, e talvez algumas pessoas até prefiram ser enganadas a descobrir o que realmente está acontecendo.
Nos últimos dias, a Venezuela voltou a estar em destaque, pois os EUA suspenderam várias de suas sanções em troca de um compromisso de Nicolás Maduro de realizar eleições “justas” (resta saber quem define o que é justo). Muitas pessoas caíram na “mágica” e não compreenderam por que o presidente Biden optou por essa aproximação com Maduro. Mágica não se faz com improviso; ela requer treinamento, prática e preparação prévia. Sem entender como tudo começou, torna-se difícil compreender o ilusionismo na América do Sul.
O acordo que marcou o início das mudanças diplomáticas entre a Venezuela e os EUA foi assinado em Barbados, com a presença inusitada de Celso Amorim, que confidenciou ao jornalista Igor Gadelha que sua participação “foi um pedido um pedido expresso do governo venezuelano”. Em termos gerais, o acordo estipulava a libertação de oposicionistas venezuelanos, permitindo que disputassem eleições que poderiam ser monitoradas por observadores internacionais até 2024. Não demorou muito para que setores da imprensa apontassem que o acordo não atendeu às expectativas, uma vez que não abordou a proibição imposta à líder da oposição, Maria Corina Machado, de concorrer a cargos públicos por 15 anos.
Se em março o Brazil Institute já havia afirmado que Lula poderia desempenhar um papel importante, em julho, a influente Subsecretária de Estado dos EUA afirmou com todas as letras ao Globo que o importante é que os EUA e o Brasil estejam alinhados na pressão por uma eleição livre e justa.
Isso dava a impressão de que o acordo tinha como objetivo criar uma “oposição permitida”, que, de certa forma, não se distinguia do regime de Maduro. Para compreender melhor o truque desses exímios ilusionistas, é necessário retroceder no tempo. Para entender um pouco mais sobre o truque dos ilusionistas é preciso voltar no tempo. Em março, Lula enviou Celso Amorim numa missão secreta para a Venezuela. Ao chegar, Amorim se predispôs a ser uma ponte entre Maduro e a oposição, e saiu de lá descrevendo um “cenário inédito de ‘incentivo à democracia’. Esses fatos foram noticiados pela imprensa no dia 10 de março, mesmo dia que o Brazil Institute, ligado a fundação Americana Wilson Center, replicou um vídeo do ex-embaixador dos EUA no Brasil, Anthony Harrington, onde o mesmo disse que Lula “poderia desempenhar um papel de estadista internacional em... [encontrar] uma forma de fazer avançar as coisas em prol dos venezuelanos e da região”.
Em maio, Maduro visitou o Brasil, e Lula tratou de colocar em prática o plano para melhorar a imagem do regime venezuelano, abrindo caminho para os interesses de Biden. Lula chegou a dizer que a Venezuela era vítima de “narrativa de antidemocracia e autoritarismo”, e que cabia a Maduro mostrar sua narrativa para fazer as pessoas mudarem de opinião. Nesse mesmo período a Globo informou, sem a menor cerimônia, que os EUA estavam se reaproximando da Venezuela para garantir petróleo devido aos conflitos no leste europeu entre Rússia e Ucrânia.
Se em março o Brazil Institute, ligado à Fundação Americana Wilson Center, já havia afirmado que Lula poderia desempenhar um papel importante, em julho, a influente Subsecretária de Estado dos EUA, Victoria Nuland, afirmou com todas as letras ao Globo que: “Obviamente não vou falar pelo presidente Lula ou entrar na cabeça dele. Acho que o importante é que os EUA e o Brasil estejam alinhados na pressão por uma eleição livre e justa. E é isso que queremos ver daqui para frente e que permitirá, esperamos, relações muito mais normais” (ênfase minha). Ora, quem celebrou o fim das sanções dos EUA diante do acordo para realizar eleições “justas”? O Lula num tweet do dia 19 de outubro.
Em agosto, mais uma vez a discussão sobre alívio das sanções em troca de “eleições justas” dominou as manchetes. O Globo mais uma vez relatou que: “Washington tem cogitado a ideia de aliviar as sanções para persuadir o regime do presidente Nicolás Maduro a realizar uma votação presidencial competitiva em 2024 e libertar os presos políticos. As sanções agravaram a crise econômica e humanitária da Venezuela ao impedir as vendas de petróleo”.
Enquanto a mágica perde a graça quando se entende o truque, descobrir as motivações por trás de algumas ações política podem fazer com que as pessoas percam a fé em seus representantes. Descobrir a verdadeira mão que esses “ilusionistas da política” estão usando para realizar sua mágica é compreender que, no frigir dos ovos, muitas das decisões são tomadas sem qualquer traço de altruísmo e sem preocupação com a “demogracinha”. No fim das contas, a política se assemelha a um espetáculo de mágica. A diferença parece residir no fato de que o artista ganha dinheiro proporcionando entretenimento, enquanto os políticos buscam obter poder e recursos sem se preocupar com a plateia.
Kim Paim é jornalista.
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