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Lições sobre amizade de uma introvertida

O introvertido oferece o melhor tipo de amizade, geralmente a mais leal, quase sempre como o melhor ouvinte

  • PorSarah Ruhl
  • The New York Times
  • 09/12/2018 23:01
 | Carien van Hest/Free Images
| Foto: Carien van Hest/Free Images

Nossa sociedade se move ao som de uma melodia incessante de amor romântico, sempre de olho em quem está se casando, ou se separando. Fazemos isso na capa da revista People, nas canções mais populares, e até nas impopulares. Já a amizade não é exaltada na mesma proporção; resiste à contação de histórias. Uma amizade longeva não é escandalosa, mas sim gentil, ao contrário de nossa cultura atual. A amizade sobrevive ou não. O início dela, e o amigo novo, não são marcados por um ritual, como seu fim também não. Esse geralmente é lamentado em silêncio.

Percebi que até os mais introvertidos precisam de amigos; eu mesma marquei 20 pontos dos 21 de um questionário que mede o nível de introversão na internet. E algumas das minhas amizades mais sólidas tiveram início em verdadeiras ilhas.

Pode ser um obstáculo para o introvertido o fato de que, para fazer amigos, seja preciso falar com as pessoas, às vezes até no famigerado “grupinho”. E, no entanto, o introvertido oferece o melhor tipo de amizade, geralmente a mais leal, quase sempre como o melhor ouvinte. Algumas das minhas amizades mais profundas foram seladas em espaços confinados, como salões de ensaio ou salas de aula, onde é preciso permanecer durante um determinado período antes de sair correndo.

Ao lado da família e do amor romântico, a amizade também não é essencial para a sobrevivência emocional?

Até meu marido eu conheci primeiro dividindo o apartamento, depois me tornando sua amiga e, vários bacanais depois, acabamos nos apaixonando. Tenho sorte porque as amizades acabam me encontrando, apesar da minha timidez. Se tivesse de dar um conselho a outros introvertidos no quesito amizade, seria algo bem simples, resumido a uma frase: não se mexa. Também fiz vários amigos graças ao papel, escrevendo e recebendo cartas.

Perdi um desses amigos queridos, um poeta brilhante chamado Max Ritvo, há dois anos, quando ele tinha 25. Trocamos mais ou menos umas 500 cartas antes de sua morte e, a certa altura, decidimos transformá-las em livro. Max tinha um dom raro para fazer amizades e poesia. Nossa amizade, que eu acreditava que ia durar a vida toda, teve de se resumir aos quatro anos desde que nos conhecemos.

Isso foi quando ele entrou na minha aula de Dramaturgia em Yale. Em sua inscrição para o curso, ele justificou apenas com um “Só quero escrever”. A impressão que passava era a de ter uma dessas lâmpadas antigas sobre a cabeça. Lia de tudo, e era muito engraçado. Adorava fazer piadas; muito parecido com Mike Nichols quando jovem, ele erguia o olhar sobre os óculos para ver se sua gracinha acertara o alvo.

Leia também: Amizade em tempos de polarização (artigo de Caio Morau, publicado em 21 de outubro de 2018)

Paulo Cruz: O dom da amizade (30 de agosto de 2018)

Ao fim do semestre, Max contou para a classe que tivera uma recorrência do sarcoma de Ewing, câncer pediátrico raro que já tinha superado durante o colégio. Meu pai morrera de câncer quando eu tinha 20 anos, e eu sabia por experiência própria que a maioria dos amigos e colegas de Max nem pensava na questão da mortalidade. Disse a ele que poderia me falar de seus medos se quisesse. Ele quis. A intensidade de nossa amizade foi acelerada pela urgência de suas dúvidas.

Max deu duro para se formar por Yale enquanto fazia quimioterapia e passava por cirurgias. Consciente do tempo que tinha, fez mestrado em Poesia na Universidade Columbia, escreveu um livro extraordinário de poemas chamado Four Reincarnations, se apaixonou por uma moça, casou-se com ela, escreveu mais poemas e se deu, como sempre, a seu enorme círculo de amigos.

Ao contrário de mim, Max era um escritor extrovertido, o que é uma espécie de anomalia. Quando lia seus poemas em voz alta, gritava para a sala lotada, andando em círculos, geralmente usando um quimono rosa. Colecionava amigos de uma maneira imediata, intensa e objetiva; sabia que não teria tempo para revelações graduais. Uma vez recitou-me um poema com voz retumbante, de pé, em um café no Brooklyn. Quando sinalizei meu constrangimento, Max ficou horrorizado, pedindo desculpas e agitando os braços. Não, não, eu lhe garanti, estava tudo bem. Eu encabulara da mesma forma que Elizabeth Bishop ficava quando lia um poema que a emocionava, ou seja, não queria encará-lo.

Uma amizade longeva não é escandalosa, mas sim gentil, ao contrário de nossa cultura atual

Max e eu raramente estávamos na mesma cidade. Ele se dividia entre Los Angeles, para ver a família e cumprir tratamento, e Washington, para se submeter a triagens clínicas. Para distraí-lo da quimioterapia, trocávamos poemas, peças, reclamações, piadas, questões espirituais e sonhos do pós-vida. Escrevíamos sobre tópicos tão díspares como metafísica, a essência da sopa, vingança literária, meditação, o vagão mais tranquilo da Amtrak, gritos de guerra de infância e nosso carinho mútuo por Mel Brooks.

Como a natureza da conversa em si, a amizade não cabe em categorias; em parte, é definida por aquilo de que se fala. Com alguns amigos dá para falar de trabalho; com outros, sobre família, pesca, livros, política; há também aqueles com quem não se fala quase nada, mas com quem é bom ficar em silêncio, fazendo tortas ou caminhando. O talento de Max para as amizades era, em parte, o dom da conversa – ele podia discorrer com a mesma facilidade sobre a alma humana e Cyndi Lauper. Tentamos organizar nosso livro por assunto, mas ele insistia em resistir às nossas tentativas. Foi quando percebemos que as questões tão diferentes desafiavam qualquer categorização. E, depois de sua morte, percebi que organizar a obra cronologicamente era deixar implícito um final.

Leia também: Introvertidos e oprimidos (artigo de Ronaldo Mota, publicado em 10 de janeiro de 2015)

Leia também: Férias: educar a afetividade (artigo de João Malheiro, publicado em 16 de janeiro de 2011)

O final aconteceu em agosto de 2016, quando Max tinha 25 anos. Muita gente comentou que ele tinha a mesma idade de Keats quando morreu. Eu nem sei se Max gostava de Keats; adoraria poder lhe perguntar isso hoje. Durante muito tempo depois de sua morte, fiquei sem nem poder ver poesia. Ler poemas me dava vontade de falar com Max de novo, e isso me deixava triste.

Como lamentar a partida de um aluno, um amigo, um professor? Sim, porque Max foi primeiro meu aluno, depois virou meu amigo e, por fim, se tornou meu professor. Em nossa cultura, às vezes a impressão é a de que os laços sociais se resumem ao núcleo familiar e ao amor romântico. Talvez nossa obsessão com esse último seja pelo fato de que ajuda a propagar nossa espécie – mas a amizade também não é essencial para a sobrevivência emocional?

Quando encontramos o amigo certo na hora certa – ou o professor certo, ou o aluno certo –, nossa vida muda para sempre. Max foi a voz que me respondeu. E ainda é.

Sarah Ruhl é dramaturga, professora da Faculdade de Teatro de Yale e autora, com Max Ritvo, de “Letters From Max: A Book of Friendship”.
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