“Made in Brazil”: onde está a competitividade da indústria nacional?
| Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo

Base de boa parte do setor industrial, e um dos principais termômetros da economia, o segmento da fundição dá o ar da graça em meio a um cenário de incertezas que ronda o país nos últimos anos, mais precisamente desde 2015. A maior prova de que o mercado de fundidos dá sinais de recuperação são os índices positivos que marcam o setor desde 2017, como aponta a Associação Brasileira da Indústria de Fundição (Abifa). De lá para cá, ele cresceu 16% e projeta otimismo para voltar a produzir seu ápice em 2023. Neste ano, a produção deve chegar a 2,44 milhões de toneladas, 7% mais que 2018. Contabilizando em valores, isso dá cerca de US$ 9 bilhões.

O Brasil está na lista dos "top 10" do ranking mundial de fundição. Mas temos capacidade de produzir, anualmente, 4 milhões de toneladas, o que nos elevaria para o G7 dos produtores mundiais. Então, o que nos falta? Simples: não somos competitivos por uma série de aspectos que impactam os custos da indústria. A começar com a mão de obra, uma das mais caras do mundo. E isso não é porque nossos trabalhadores ganham bem – muito pelo contrário. O fato ocorre porque a carga de impostos e taxas sobre a folha de pagamento mais que dobra o custo do salário para o empregador.

É preciso que nossas autoridades agilizem as reformas da Previdência e tributária e ampliem investimentos em infraestrutura

Há ainda a baixa produtividade oriunda da falta de mão de obra capacitada. No caso da fundição, não existem praticamente mais cursos de Metalurgia nem na área técnica, nem na graduação para formar profissionais para o mercado, que hoje emprega mais de 55 mil pessoas pelo país. Cabe às empresas prepararem o seu próprio capital humano, encarecendo o custo do mesmo, além de aumentar o tempo entre a necessidade e a disponibilidade dele na linha de produção.

Também não podemos esquecer o custo da energia elétrica como fator fundamental para a nossa baixa competitividade. Nossas tarifas estão entre as mais altas do mundo, mesmo que ela seja gerada basicamente por fontes renováveis. Não bastasse isso, apesar de ser um grande produtor de matérias-primas, no Brasil os impostos, taxas, fretes e perdas durante o processo acabam por igualar seus custos aos pagos por nossos concorrentes externos, como chineses, indianos e norte-americanos.

Diante dos pontos abordados, é preciso que nossas autoridades agilizem as reformas da Previdência e tributária, ampliem investimentos em infraestrutura e na desburocratização dos processos, e possam banir a corrupção e os desvios com medidas factíveis na prática. Por outro lado, mas não menos impactante, trata-se do processo de equalização forçada dos mercados posto em prática por grandes grupos ou setores. São regras e normas a serem seguidas num determinado mercado nos âmbitos comercial, de qualidade, logístico, de processos e garantias, entre outros.

Dessa forma, os fornecedores devem cumprir essas regras e procedimentos que acabam por igualar, onde quer que estejam geograficamente instalados, esquecendo-se das desigualdades regionais que muitas vezes fazem a diferença do ponto de vista de competitividade. Como exigir, por exemplo, que um fornecedor brasileiro de uma multinacional com unidade no Brasil entregue um componente nas mesmas condições de preços em que um fabricante na Alemanha vende esse componente para a unidade naquele país, lembrando que, apesar de o item atender o mesmo projeto, os volumes de produção serão muito diferentes, os equipamentos empregados e toda a cadeia de custos e tributos serão bem peculiares?

Isso acaba por minar a livre concorrência e impede que novos (e talvez bem competitivos) empreendedores surjam, pois, para uma empresa se habilitar, se certificar e fornecer a uma multinacional, por exemplo, exige-se um nível de investimento inicial proibitivo para um negócio em seu começo. E essas certificações são mandatórias.

Para reverter esse quadro, precisamos que as medidas de governo sejam implementadas rapidamente para que o mercado saia do ostracismo e volte a crescer de forma sólida e sustentável. E que as empresas parem de aceitar imposições absurdas e entendam que o lucro faz parte de qualquer negócio e que todos na cadeia devem ser remunerados adequadamente. Enfim, teremos um longo caminho para alcançar a tão querida competitividade. Mas é preciso acreditar.

Wilson de Francisco Júnior é diretor comercial da Lepe Indústria e Comércio.

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