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Sínteses – o governo federal e as fintechs

Medidas que inviabilizam as fintechs

As empresas menores seriam as mais prejudicadas por não terem a capacidade de financiamento dos grandes bancos

  • PorFrançoise Iatski de Lima
  • 26/12/2016 23:02
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Diante da crise econômica atual e tentativas de retomada do crescimento, o governo federal propõe mudanças nos cartões de crédito e meios de pagamentos e, como parte do pacote de estímulo, almeja provocar a redução dos juros ao consumidor final, por meio da redução do prazo que as administradoras de cartão de crédito têm para pagar o lojista. Hoje em dia, o comerciante leva em torno de 30 dias para receber o dinheiro após a aquisição do cliente.

Para o mercado brasileiro, acredita-se que uma mudança como essa trará benefícios aos varejistas, que terão custos menores, dada a formação de capital de giro em menor tempo e extinção da necessidade da antecipação de recebíveis e suas taxas. Por outro lado, os prazos dificultariam a continuidade das fintechs, dado seu pequeno aporte de capital e a diferença entre os prazos de pagamentos e recebimentos. O termo fintech surgiu da junção de duas palavras em inglês: financial (finanças) e technology (tecnologia). No Brasil, esse segmento é representado por startups como a conhecida Nubank.

O atual prazo de 30 dias funciona porque os consumidores pagam uma compra feita no cartão de crédito, em média, 26 dias depois

Boas medidas quebram empresas. Que bom!

Em um livre mercado, a inovação inevitavelmente leva novos produtos a destruírem empresas velhas

Leia o artigo de Leonardo de Siqueira Lima, mestre em Economia

Empresas como essas são caracteristicamente aquelas que usam tecnologia de forma intensiva para oferecer produtos na área de serviços financeiros de uma forma inovadora. Essas empresas crescem fortemente no Brasil, dado o amadurecimento do sistema de inovação e investimento que ampara a chegada de startups ao sistema financeiro. Outro motivo é a própria regulamentação do sistema de pagamento pelo Banco Central, que teve início em 2013 e facilitou pagamentos por meio de celular e serviços como cartões pré-pagos, tudo sem a intermediação de instituições financeiras e taxas bancárias.

Analisando economicamente, o fator mais relevante é que nessa operação não há cobrança de anuidade e nenhuma outra taxa, possibilidade gerada pelo modelo de negócio totalmente digital, que permite cortar custos com agências e estruturas caras, além da papelada, dada a menor burocracia – um fator essencial em momentos de crises econômicas. As fintechs ganham dinheiro de duas maneiras: em cada compra que o cliente faz usando o cartão, recebem uma pequena porcentagem do estabelecimento comercial; e, quando o usuário opta por financiar o valor da fatura, cobram juros sobre o valor da compra (crédito rotativo).

O atual prazo de 30 dias funciona porque os consumidores pagam uma compra feita no cartão de crédito, em média, 26 dias depois. Em um mês, essas empresas recebem os pagamentos das faturas e repassam o dinheiro para as máquinas de cartões, como Cielo e Rede, que, então, pagam ao lojista. Em um mês, as firmas tecnológicas conseguem formar caixa e repassar aos cartões. Se o governo brasileiro seguir em frente com a medida de redução do prazo de pagamento para lojistas, as fintechs teriam de buscar recursos para os repasses no mercado financeiro, antes de receber os pagamentos das faturas dos usuários de seu sistema.

Todos os emissores de cartão de crédito sofreriam algum impacto com a medida, mas as empresas menores seriam as mais prejudicadas por não terem a capacidade de financiamento dos grandes bancos – que, aliás, trabalham com diversos outros produtos. Resta saber se essa mudança agradaria o consumidor final.

Françoise Iatski de Lima é mestre em Desenvolvimento Econômico e professora da Universidade Positivo.
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