Em qualquer debate, o importante é manter o foco no que está sendo discutido. Na complexidade de uma metrópole, coexistem vários modais a fim de atender à demanda daquilo que realmente importa: a mobilidade urbana. Opta-se por aquele modal que seja mais eficaz (resolva o problema) e mais eficiente (menor custo para o mesmo grau de solução do problema) para a mobilidade urbana, seja bicicleta ou helicóptero. No entanto, o modal determinante está associado ao transporte público, que em Curitiba todos desejamos que venha a ser o metrô.

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Até aqui acredito que estejamos todos de acordo. A discordância aparece nas características desse metrô. Essas características são importantes porque diferente do empresário que opta por arcar com a maioria dos custos de um helicóptero, ao usuário do transporte público é imposto um custo sobre o qual ele não tem controle nem opção. É por esse motivo que insisto que se discuta com maior profundidade a opção de um metrô de superfície, particularmente seus custos e benefícios em relação às demais opções.

O presidente do Ippuc contra-argumenta que o problema de um metrô de superfície reside nos cruzamentos, no impacto na paisagem urbana e na qualidade de vida. Tudo isso é verdade e a literatura, teórica e empírica, confirma. Também acrescentou que o metrô de superfície traria pouca vantagem sobre o atual sistema do Expresso, o que já dá margem a divergências. Mas a realidade também nos mostra que em metrópoles bem gerenciadas, há soluções criativas para superar esses problemas.

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Para quem como eu, vive a realidade dessas situações parte do ano no Porto e a outra em Curitiba, esses argumentos não me convencem mudar de opinião. No Porto, os cruzamentos são na superfície e não há elevados, como os do Expresso em Curitiba, com a diferença que não há interrupção do trajeto porque a prioridade é sempre do metrô. A segmentação nas vias em que ele passa é menor do que a existente entre os dois lados da Avenida Iguaçu em Curitiba. A capacidade de transporte é muito maior que a do Expresso, particularmente porque a frequência dos trens é alta e confiável, são mais silenciosos, confortáveis e não lançam no ar os resíduos do diesel. Por essas razões, é o modal preferido pela maioria da população. O sistema é complementado por ônibus, cuja principal diferença é a existência de uma tabuleta com os horários de passagem das linhas em cada ponto de parada. Seria impossível fazer isso em Curitiba?

As diferentes alternativas para o metrô de Curitiba apresentam benefícios semelhantes, porém, custos muito diferentes. Seria como escolher entre uma Lamborghini, uma Ferrari e um Logan. Os três permitem a mobilidade urbana.

A diferença é que na compra de um carro os indivíduos podem escolher o quanto estão dispostos a pagar para ter certo nível de benefícios. Eu escolheria um Logan. No caso do metrô, o indivíduo não tem escolha, o custo lhe é imposto e nem sempre é claro o quanto de beneficio ele terá. São situações semelhantes a essa que tornam as políticas públicas muito caras e contribuem para que o Brasil tenha uma das cargas tributárias mais elevadas no mundo. Seria bom se o contribuinte pudesse ter a opção de escolher em que seu dinheiro vai ser gasto.

Cássio Rolim, doutor em Economia pela USP, é professor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Econômico da UFPR.