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O que dois mosteiros nos ensinam sobre a reconstrução da civilização ocidental

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A abadia beneditina de Quarr, na Ilha de Wight, no sul da Inglaterra. (Foto: Anthony McCallum/Wikimedia Commons/Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported license)

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Eu era vigário da Igreja da Inglaterra quando um sacerdote com deficiência me pediu que o ajudasse a manejar sua cadeira de rodas durante uma visita à Ilha de Wight. É uma ilha de uns 22 quilômetros de comprimento por 11 de largura, situada logo ao sul da costa da Inglaterra; esse é um recanto idílico e muito pouco conhecido do país. Eu ajudava o padre a entrar no carro, colocava a cadeira de rodas no porta-malas e repetia esse processo continuamente enquanto viajávamos de um lugar para outro pela ilha. Um dos locais que visitamos foi a abadia beneditina de Quarr.

Quarr é uma comunidade monástica singular; é um dos únicos dois mosteiros de língua inglesa pertencentes à congregação francesa de Solesmes. Para quem não está familiarizado com o assunto, a ordem beneditina é composta por diversas congregações independentes, cada uma com suas próprias tradições nacionais, históricas, litúrgicas, e seus ministérios. Os beneditinos ingleses, por exemplo, são conhecidos por manter internatos ligados aos seus mosteiros, pois, durante os tempos das perseguições penais na Inglaterra, as famílias católicas recusantes (que tinham esse nome porque se recusavam a participar das celebrações da Igreja da Inglaterra, anglicana) enviavam seus filhos para serem educados pelos beneditinos ingleses estabelecidos na França.

A congregação de Solesmes foi fundada por Dom Prosper Guéranger na década de 1830, como uma restauração da vida beneditina após a Revolução Francesa. Guéranger não apenas restaurou a vida monástica beneditina, mas também reviveu o canto gregoriano, que havia sofrido séculos de abandono e decadência.

As violentas vicissitudes da política francesa continuaram a provocar conflitos. Desde sua restauração, Solesmes foi dissolvida pelo governo francês nada menos que quatro vezes. Em 1880, 1882 e 1883, os monges foram expulsos à força, mas, protegidos pela população local, conseguiram retornar à abadia. Mais tarde, durante a Terceira República, os demais membros das ordens religiosas também foram expulsos da França.

Quarr parece um pequeno Betel, um limiar do céu, onde o véu que separa este mundo do outro é extraordinariamente tênue

Assim como os beneditinos haviam fugido da perseguição inglesa para a França durante a Reforma Protestante, nos primeiros anos do século 20 foi a vez de os monges franceses partirem para o exílio na Inglaterra. Inicialmente, instalaram-se na casa de campo de Appeldurcombe, na Ilha de Wight. Depois, mudaram-se para a costa norte da ilha, onde existiam as ruínas de uma antiga abadia cisterciense medieval. Foi ali que construíram Quarr – assim chamada por causa das pedreiras de calcário existentes nas proximidades –, e permaneceram ali até receberem autorização para retornar à França, após a Primeira Guerra Mundial.

Os edifícios de Quarr foram projetados por um dos próprios monges, que também era arquiteto. Dom Paul Bellot foi o pioneiro de um estilo extraordinário e único, que só pode ser descrito como uma combinação de elementos bizantinos e góticos, enriquecida por um toque art déco. O calor suave dos tijolos flamengos e o jogo dos desenhos formados pela alvenaria conferem ao conjunto um exotismo quase mourisco. Ainda assim, essa descrição é incapaz de transmitir a qualidade numinosa que Bellot (juntamente com décadas de culto monástico) imprimiu ao lugar. Quarr parece um pequeno Betel, um limiar do céu, onde o véu que separa este mundo do outro é extraordinariamente tênue.

Encantado com aquele lugar, voltei alguns meses depois para fazer meu retiro anual. Levei comigo um terço que uma paroquiana preocupada havia me dado, mas o jovem protestante que eu era via aquela devoção católica com certo desconforto. A veneração de Maria era, afinal, uma heresia católica! Será que eu realmente deveria experimentar aquela prática? Lembrando-me da máxima de F. D. Maurice segundo a qual “um homem está quase sempre certo naquilo que afirma e errado naquilo que nega”, decidi tentar.

Nossa Senhora de Quarr abriu para mim a porta de um novo ambiente de oração e espiritualidade; sem entrar em detalhes, posso dizer que aquele lugar e as orações que aprendi lá mudaram minha vida. Cinco anos depois, quando procurava uma paróquia, candidatei-me ao cargo de vigário de Brading, na Ilha de Wight, motivado em parte pelo desejo de permanecer próximo de Quarr. Foi ali que dei os passos finais para deixar a Igreja Anglicana; foi também em Quarr, em 1995, que fomos recebidos em plena comunhão com a Igreja Católica.

Foi, portanto, com certa curiosidade que, no início deste verão, percebi um forte impulso interior para voltar a Quarr e passar ali uma semana dedicada à escrita e ao retiro espiritual. Eu estava trabalhando em um livro sobre liturgia, de modo que a biblioteca monástica de Quarr exercia um grande fascínio sobre mim. Mas havia também outra voz me chamando. Eu poderia fazer minha pesquisa em praticamente qualquer mosteiro. Então, por que enfrentar todo o trabalho e as despesas de viajar até a Inglaterra? Ainda assim, depois de mais de 20 anos de ausência, aquela voz interior me chamava de volta para Quarr. Assim, fui e passei uma semana serena e, ao mesmo tempo, desafiadora com os monges (agora apenas oito) da Abadia de Quarr.

Quis o calendário que apenas uma semana depois de retornar aos Estados Unidos eu já tivesse programada uma visita à outra abadia de língua inglesa pertencente à congregação de Solesmes: Clear Creek. Sua história é tão extraordinária quanto a tradicional igreja abacial e o mosteiro que se erguem entre as colinas escarpadas do leste de Oklahoma.

Na Universidade do Kansas, na década de 1970, John Senior e outros dois professores criaram um programa de estudos baseado nos Grandes Livros da tradição ocidental. Por meio desse estudo integrado da civilização ocidental, vários estudantes passaram a interessar-se pela vida monástica, e 31 desses jovens foram parar na abadia de Nossa Senhora de Fontgombault, na França, outro mosteiro pertencente à congregação de Solesmes. Alguns ingressaram no noviciado, alimentando a esperança de um dia participarem da fundação de um novo mosteiro na América.

Quando os jovens americanos chegaram, Fontgombault vivia um período de grande florescimento; havia tantos monges jovens que foi preciso fundar novos mosteiros. Contudo, como os noviços americanos ainda precisavam receber uma sólida formação monástica, o projeto de construir um mosteiro tradicionalista nos Estados Unidos foi adiado.

Os beneditinos sempre renascem graças a uma vida obediente à sabedoria acumulada ao longo dos séculos, profundamente enraizada na civilização ocidental e, ao mesmo tempo, intensamente viva

Então, em 1991, Dom Antoine Forgeot, abade de Nossa Senhora de Fontgombault, começou a realizar viagens exploratórias aos Estados Unidos, acompanhado por um dos americanos do grupo original, Dom Francis Bethel. Por fim, encontraram uma propriedade na diocese de Tulsa, em Oklahoma. Era um rancho localizado às margens do riacho Clear Creek. Em 15 de setembro de 1999, o grupo principal de fundadores chegou da França, e foi estabelecido o pequeno Priorado de Nossa Senhora de Clear Creek.

Nos primeiros tempos, os monges viviam em uma grande cabana feita de toras, além de utilizarem um celeiro e um estábulo já existentes. As baias dos cavalos foram transformadas em celas monásticas, e o celeiro tornou-se a primeira capela. Um arquiteto da Universidade de Notre Dame foi encarregado de projetar o novo mosteiro e, agora, cerca de 20 anos após sua fundação, Clear Creek conta com 50 monges, a maioria deles com menos de 40 anos; a igreja abacial, em estilo românico, continua a erguer-se lentamente entre as colinas dos Ozarks.

Assim como em Fontgombault, a liturgia em Clear Creek é celebrada em latim, com as missas seguindo o rito tridentino. A vida é adequadamente austera: o primeiro Ofício do dia começa às 5h15. Os monges trabalham não apenas na construção da abadia, mas também na manutenção de uma extensa criação de ovelhas, na acolhida dos hóspedes e na preservação da tradicional combinação beneditina de oração, trabalho e leitura.

Certa vez, comentei com um monge beneditino sobre a extraordinária perseverança da Ordem de São Bento. Observava que, repetidas vezes ao longo da história, os beneditinos haviam sido desenraizados por perseguições, revoluções políticas, desastres naturais e guerras religiosas; contudo, continuavam reaparecendo, voltando às antigas ruínas para reconstruir e restaurar aquele antigo modo de vida. Ele sorriu e respondeu: “Somos como ervas daninhas. Sempre voltamos”.

A Abadia de Quarr é um exemplo disso. Perseguidos pelo próprio governo francês a ponto de serem obrigados ao exílio, os monges mudaram-se para outro país, adquiriram terras, reconstruíram seu mosteiro e, quando a tempestade finalmente passou, regressaram à França. A história recente de Quarr também tem suas dificuldades. Problemas internos enfraqueceram a comunidade, mas, agora, com a eleição de um novo abade vindo de Kergonan – outra comunidade da congregação de Solesmes –, os monges de Quarr começaram a recuperar o vigor. Dom Luke Bell, OSB, iniciou um programa de estágio destinado a jovens que desejam passar dois meses conhecendo a vida beneditina. Espera-se que, em pouco tempo, Quarr também experimente um novo florescimento, à medida que novos jovens continuem sendo atraídos pelo antigo desafio de seguir Jesus Cristo segundo a Regra de São Bento.

Assim como Clear Creek, a Abadia de Quarr tem a vantagem das belas tradições litúrgicas da congregação de Solesmes, com sua ênfase no canto gregoriano, cultivado segundo o espírito da tradição francesa. Mas, para aqueles cuja língua é o inglês e que talvez nutram uma especial afeição pela cultura inglesa, Quarr oferece a possibilidade de viver essa forma de vida em meio à bela paisagem rural e à rica herança histórica da Inglaterra.

T. S. Eliot foi um dos primeiros a prever que a civilização ocidental seria resgatada por um retorno ao monaquismo. Mais recentemente, e de forma muito mais desenvolvida, Rod Dreher defendeu essa possibilidade em A Opção Beneditina. O que há em Clear Creek, em Quarr e nos demais mosteiros beneditinos que faz com que eles sempre renasçam?

A resposta é muito simples: trata-se de uma vida obediente à sabedoria acumulada ao longo dos séculos, profundamente enraizada na civilização ocidental e, ao mesmo tempo, intensamente viva. Os três votos do monge beneditino – obediência, estabilidade e conversão de vida – são colocados em prática por meio de três instrumentos fundamentais: leitura, oração e trabalho. Assim, os monges não apenas estudam a tradição; eles a vivem.

Nas famílias, nas escolas, nas paróquias, nas dioceses, cada um à sua maneira, podemos seguir Cristo na obediência, na estabilidade e na conversão de vida

No século 6.º, quando o Império Romano se desintegrava em meio à violência, à imoralidade e à anarquia, São Bento e seus irmãos lançaram sementes de culto, estudo e trabalho perseverante em um solo que parecia estéril. Essas sementes, porém, cresceram lentamente e, com o passar do tempo, floresceram na cristandade medieval.

A proposta de Rod Dreher é que outros sigam esse mesmo caminho, não apenas em mosteiros como Quarr e Clear Creek, mas também nas famílias, nas escolas, nas paróquias e nas dioceses. Em todas essas comunidades, cada um à sua maneira, podemos seguir Cristo na obediência, na estabilidade e na conversão de vida, tornando esses ideais concretos por meio da atenção constante à oração, do estudo sério e disciplinado e do trabalho honesto e perseverante de reconstruir aquilo que caiu no abandono, no desânimo e na ruína.

Dwight Longenecker é padre católico na Carolina do Sul (EUA), formado pela Universidade de Oxford, e autor de 20 livros. Este artigo foi publicado originalmente em The Imaginative Conservative em julho de 2018 e republicado em julho de 2026.

©2026 The Imaginative Conservative. Publicado com permissão. Original em inglês: Rebuilding Western Civilization: A Tale of Two Monasteries

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