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Compliance Zero

Vorcaro cooptou cerca de 50 influenciadores e planejou produzir filme sobre o caso Master

Investigadores alertam que Daniel Vorcaro o ex-banqueiro corre risco de morrer devido às informações que possui
Da prisão, Vorcaro assinou contrato para filme que contaria sua versão do Caso Master. (Foto: SAP-SP/EFE)

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O ex-banqueiro Daniel Vorcaro planejou uma última cartada para contar sua própria versão dos fatos sobre o Banco Master ao perceber que suas propostas de delação premiada não avançariam: tentar fazer um filme. Documentos encontrados pela Polícia Federal na 10ª fase da operação Compliance Zero, que mirou o publicitário Thiago Miranda, indicam que Vorcaro assinou, de dentro da sede da Superintendência da Polícia Federal no fim de março deste ano, um contrato para a produção de um documentário sobre o caso, prevendo entrevistas exclusivas, informações internas e sua versão sobre o escândalo bilionário.

O material também reforçou outra frente da investigação, a contratação de 40 a 50 perfis de influenciadores, jornalistas e sites para atacar o Banco Central, defender o ex-banqueiro e os interesses do Master, no momento em que o banco amargava a liquidação decretada pelo BC.

Em nota, a defesa de Thiago Miranda afirmou que refuta qualquer acusação de ilegalidade atribuída ao publicitário.

Vorcaro vem sustentando que não cometeu crimes e que seria uma vítima de bancos maiores que desejariam o fim do Banco Master para controlar o mercado financeiro sem concorrência. O filme seria uma forma de sustentar essa tese diante da opinião pública. Já a rede de influenciadores era uma tentativa de impedir que o Master fosse liquidado.

Ao menos um dos perfis recrutados teria recebido R$ 2 milhões, mas os valores variavam de acordo com o alcance e engajamentos dos contratados. Essa frente de investigação ficou conhecida como “Operação DV”, como os envolvidos a descreviam em conversas por aplicativos de trocas de mensagens.

Para a PF, o cruzamento de informações obtidas nessa última fase da operação com documentos apreendidos em diferentes frentes também acabou reforçando outro aspecto do caso: que Vorcaro iria fugir quando foi preso pela primeira vez em novembro de 2025, rumo aos Emirados Árabes Unidos.

Contrato do filme foi assinado na sede da PF

A minuta do documento que resultaria em um filme foi encontrada durante buscas da PF em endereços ligados ao publicitário em 9 de julho. Segundo a corporação, o contrato teria sido assinado em 31 de março, na Superintendência da PF em Brasília, onde Vorcaro ficou detido até junho, antes de ser transferido para uma cela no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, no Complexo da Papuda, a Papudinha. Vorcaro teve acesso a diversos advogados no período, quando negociava propostas de delação premiada.

A descoberta do documento e a data de sua assinatura foram reveladas na decisão que determinou a apreensão do passaporte de Miranda, em 11 de julho. Na decisão, o ministro relator do caso no STF André Mendonça destacou a descoberta da minuta supostamente celebrada entre Miranda e Vorcaro.

O publicitário seria o responsável pela produção do filme. Miranda também teve papel central na relação de Vorcaro com Flávio Bolsonaro por intermediar o patrocínio do filme Dark Horse, sobre a via do ex-presidente Jair Bolsonaro. A relação entre os dois em torno do filme foi revelada em maio pelo site The Intercept Brasil, que publicou mensagens e áudio em que o senador pedia ao banqueiro, em outubro e novembro de 2025, recursos para bancar a produção.

Em apuração preliminar, o contrato entre Miranda e Vorcaro tinha como objeto a produção de um documentário audiovisual, provisoriamente batizado de Caso Banco Master. O contrato tinha duração de seis meses, indicando que ele poderia ser produzido ainda em 2026.

Vorcaro teria assumido o compromisso de colaborar com a produção, compartilhando informações, concedendo entrevistas exclusivas e fornecendo acesso a documentos que ajudassem na elaboração da obra. O documento teria firma reconhecida em cartório por Miranda, Vorcaro além de outros envolvidos. Além de propaganda, o filme teria objetivos comerciais.

Vale destacar que o fato de assinar contratos mesmo preso não configuraria um crime, mas o que chamou a atenção de investigadores foi o objetivo do documento. A produção de uma obra audiovisual também não configura prática ilegal, mas as circunstâncias e a abrangência do conteúdo podem dar ao caso contornos penais.

A PF apontou ao STF que a apreensão do suposto contrato precisa de aprofundamento instrutório para sua adequada compreensão, e que a análise do celular de Thiago Miranda pode ajudar a delimitar a extensão de eventuais vantagens e negociações.

O material apreendido também mencionaria um grande número de garrafas de vinho e espumante destinadas a um dos alvos de outra operação policial, a Sem Desconto, que apura fraudes bilionárias contra aposentados e pensionistas do INSS.

Os contratos milionários e os perfis contratados para atacar o BC

O mesmo conjunto de provas apreendido com Thiago Miranda revelou indícios, segundo investigadores a par das apurações, que o publicitário teria sido contratado para coordenar entre 40 e 50 perfis de jornalistas, sites e influenciadores digitais com o objetivo de defender o Banco Master, atacar o Banco Central e autoridades de entidades de fiscalização e controle regulatório.

A PF abriu, no início deste ano, um inquérito para apurar a atuação de Miranda no chamado Projeto DV, cujas iniciais fariam referência a Daniel Vorcaro. Teriam sido contratados perfis de fofoca, páginas diversas e canais sem relação com o mercado financeiro para atacar adversários de Vorcaro e tentar desacreditar o BC. A PF teria chegado a essas informações após encontrar mensagens trocadas entre Vorcaro e Miranda no celular do próprio ex-banqueiro.

Em depoimento, Miranda teria confirmado ter contratado os perfis, mas afirmou que a iniciativa fazia parte de um plano de gestão de crise após a liquidação do Master e a prisão de Vorcaro. Segundo ele, o plano foi apresentado ao ex-banqueiro depois de ele ser solto em novembro, e os valores das contratações chegariam a R$ 8 milhões.

De dezembro do ano passado a janeiro deste ano a PF identificou dezenas de páginas que compartilhavam discursos similares e tinham as mesmas narrativas: críticas ao BC, defesa de Vorcaro e o posicionamento do Master como vítima do sistema financeiro. Representantes dessas páginas chegaram a ser ouvidos e confirmaram à PF a negociação que envolveria, além de Miranda, um empresário de Brasília que também é investigado, mas não teve seu nome divulgado.

PF vê tentativa de fuga para os Emirados Árabes

A PF também teria identificado, no decorrer das investigações, que Vorcaro tentava fugir do país quando foi preso, em novembro de 2025, no Aeroporto de Guarulhos. Ele afirmou na época que estava indo a uma viagem de negócios e não pretendia fugir. Relatórios da PF enviados a André Mendonça alertariam que Vorcaro teria recebido informações sigilosas de seu grupo, apontado pela corporação como uma espécie de contrainteligência armada e conhecido como “A Turma”, antes de tentar fugir.

Graças à atuação desse grupo, Vorcaro chegou a tomar ciência prévia da operação prevista para 18 de novembro, acionando sua rede de contatos para tentar mitigar os efeitos da ação e tentando fugir no dia anterior, 17 de novembro, tentativa que acabou frustrada com sua primeira prisão quando estava prestes a embarcar em um voo internacional.

Na época, a defesa de Vorcaro refutou a tentativa de fuga e disse que sua viagem tinha caráter profissional. Ele viajaria para formalizar a venda do Master a um grupo de investidores estrangeiros. Ainda segundo a defesa de Vorcaro, o ex-banqueiro pretendia se encontrar, na ocasião, com parte dos compradores do Master.

Em pedido de soltura apresentado à época, os advogados afirmaram que Vorcaro se colocara à disposição das autoridades e sugeriram que a situação poderia ser tratada com medidas cautelares alternativas, como proibição de contato entre investigados ou monitoramento eletrônico. Apesar dos novos desdobramentos do caso e das apreensões da última semana, a defesa do ex-banqueiro ainda não se manifestou.

Já a defesa de Thiago Miranda afirma que ele sempre exerceu sua atividade profissional dentro da legalidade, com transparência, respeito às instituições e à liberdade de expressão. Seus advogados negam que ele tenha praticado crimes ou participado de ações destinadas a intimidar, constranger ou violar direitos de terceiros.

A defesa também ressalta que a existência de uma investigação não autoriza conclusões antecipadas sobre eventual responsabilidade, destacando que devem ser preservados os princípios do devido processo legal, da ampla defesa, do contraditório e da presunção de inocência.

Ainda segundo uma nota da defesa, Miranda permanece à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos, colaborar com as investigações e demonstrar a regularidade de sua conduta. Os advogados informam que acompanharão o andamento do procedimento e adotarão as medidas jurídicas para garantir que a apuração ocorra com respeito às garantias legais.

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