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Assim como acontece na discussão de quase todos os grandes temas que afetam hoje o Brasil (seja em tribunas públicas, na imprensa ou até em grupos de WhatsApp), atualmente existe um crepitar nervoso, passional e um tanto desfocado no debate sobre o papel das universidades públicas e, relacionado a isso, sobre a nossa produção da ciência e tecnologia. Esses debates são naturalmente ligados entre si na medida em que no nosso país a produção do conhecimento, ao contrário de alguns outros lugares (que dispõem de seus Instituts, Écoles, ou o que seja), está concentrada nas universidades: no Brasil, elas são o grande protagonista da produção de saberes, da ciência e da tecnologia. E, apesar de 87,4% das instituições de ensino superior serem privadas (segundo dados do Censo da Educação Superior de 2014), é nas universidades públicas que encontramos mais de 90% da produção do conhecimento no Brasil. Certamente é por isso, entre outras razões, que no Ranking Universitário da Folha (RUF) de 2016 as 20 melhores universidades do Brasil, sem exceção, são públicas. Quero dizer com isso que é necessário e até urgente discutir, com serenidade e bom senso, o papel da ciência e tecnologia no nosso país – o que vai nos remeter inevitavelmente para o debate sobre as universidades públicas.

Mas aqui deixo de discutir a ideia (despropositada, a meu ver), desenterrada recentemente, de acabar com a gratuidade das universidades; e deixo também de enfrentar o tema (complexo e muito necessário) da melhora de sua eficiência, de seu alcance e do seu papel social, para concentrar-me na conveniência ou não, no nosso atual momento, do corte de investimentos públicos na ciência e na tecnologia.

A ciência e a tecnologia brasileiras estão, hoje, à beira do abismo

E, nesse Atletiba em que lastimavelmente tem se transformado nosso debate público, tomo como interlocutor imaginário não aquele defensor inflexível da importância do fomento e intervenção por parte do Estado, mas sim aquele cidadão convicto da necessidade de enxugamento das despesas públicas (leia-se cortes da educação superior, entre outros) para que a produção (leia-se: o mercado e a livre iniciativa) possa ficar mais desonerada e pujante. E a esse último interlocutor eu aconselho: seja o maior defensor do aumento dos gastos públicos em ciência e tecnologia e o crítico mais feroz de quaisquer cortes que sejam feitos nessa área.

Em artigo recentemente publicado na Folha de S.Paulo, Helena Nader e Luiz Davidovich nos lembram que na década de 1940 a produtividade média brasileira do plantio da soja era de 700 kg por hectare; hoje é de 3 mil kg por hectare, sendo que em alguns lugares chega até a 8 mil kg. Lembram-nos, ainda, dos recentes avanços que desembocaram na descoberta do pré-sal e nos saltos de nossa indústria aeronáutica. Isso foi resultado de milagre ou do acaso? Não: foi resultado direto de investimentos públicos expressivos em ciência e tecnologia.

Dias atrás, uma comitiva da maior universidade sul-coreana visitou a UFPR para firmar relações acadêmicas. Em nossos contatos pessoais, o reitor Jacho Yeom reiterou aquilo que todos já sabíamos: a Coreia do Sul cresceu economicamente de modo vertiginoso desde a década de 1960 até hoje, aumentando a renda per capita (e, portanto, a capacidade de consumo e a pujança do mercado interno) algumas centenas de vezes. E esse “milagre econômico” sul-coreano tem uma explicação principal: expressivos aportes públicos em educação superior, ciência, tecnologia e inovação.

Leia também:Os investimentos na ciência (editorial de 28 de fevereiro de 2012)

Leia também:Ciência, tecnologia, educação e inovação (artigo de João Carlos Gomes, publicado em 17 de agosto de 2014)

Os exemplos poderiam se multiplicar. Mas o que importa aqui é apenas demonstrar essa verdade quase linear: um país que queira dar um verdadeiro salto de desenvolvimento econômico só conseguirá fazê-lo com pesados investimentos na educação superior, em ciência, tecnologia e inovação. Não há outra regra mágica.

Como sabemos, no orçamento brasileiro de 2017 houve um corte de 44% na área de Ciência e Tecnologia, que agora tem o menor volume de recursos dos últimos 12 anos. Como também sabemos, na atual política geral de “cortes” das despesas públicas, aquelas que mais têm sentido são as universidades federais, que hoje denunciam estar com as condições de subsistência orçamentária comprometidas até o fim do ano – algumas dizem que fecharão em setembro, à míngua de verbas para cobrir despesas de custeio. Isso deve dar o que pensar para todos, qualquer que seja sua tribo ou seu credo ideológico ou econômico.

A ciência e a tecnologia brasileiras estão, hoje, à beira do abismo. Parece-me que o mais urgente, agora, é que, apesar das dificuldades hoje existentes no debate público nacional, todos devamos nos comprometer e agir em torno de dois grandes consensos: colocar a ciência e a tecnologia, inevitavelmente junto com as universidades públicas, num claro projeto de nação; e deixar de considerar as verbas despendidas no ensino superior, em ciência e em tecnologia como meros gastos, mas sim como verdadeiro investimento.

Ricardo Marcelo Fonseca é reitor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisador do CNPq.
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