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O agro brasileiro está inovando rápido o suficiente?

O Brasil já demonstrou que sabe transformar conhecimento em produtividade e produtividade em competitividade. Nas próximas décadas, porém, isso talvez não seja suficiente. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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O Brasil construiu uma das agroindústrias mais competitivas do mundo. Em poucas décadas, nosso agro incorporou avanços em genética, nutrição, sanidade, automação, bem-estar animal e gestão que ajudaram a transformar o país em uma potência global na produção de alimentos. Mas uma nova variável começa a ganhar importância nessa equação: a velocidade. Não apenas a velocidade para desenvolver novas tecnologias, mas, principalmente, para incorporá-las às operações.

Durante muito tempo, os grandes saltos de produtividade do agro estiveram associados à capacidade de gerar e disseminar conhecimento. Pesquisa agropecuária, melhoramento genético, novas técnicas de manejo, mecanização e automação permitiram produzir mais, com maior eficiência e controle. À medida que as operações se tornaram mais complexas, os softwares de gestão passaram a integrar boa parte desses avanços.

Hoje, praticamente tudo gera dados. Granjas, frigoríficos, fábricas de ração, equipamentos, sistemas de qualidade e processos de rastreabilidade produzem informações que precisam ser organizadas, analisadas e transformadas em decisões. É justamente aí que surge um gargalo pouco visível.

Enquanto processos produtivos e tecnologias do agro avançam rapidamente, muitos dos sistemas responsáveis por gerenciá-los ainda dependem de ciclos relativamente lentos de evolução. Surge uma necessidade, solicita-se uma alteração, prepara-se um orçamento, aprova-se o investimento e entra-se em uma fila de desenvolvimento.

A próxima vantagem competitiva do agro brasileiro pode não estar apenas enquanto conseguimos inovar, mas em quão rápido conseguimos transformar inovação em resultado

Durante décadas, esse modelo no agro foi perfeitamente justificável. Desenvolver software era caro, demorado e dependia de muitas horas de trabalho especializado. Cada nova funcionalidade representava efetivamente um novo projeto. A inteligência artificial está mudando essa lógica.

Ferramentas de desenvolvimento assistidas por IA estão reduzindo o tempo e o custo necessários para criar, testar e incorporar novas funcionalidades. O que antes poderia exigir meses de desenvolvimento começa a ser realizado em períodos muito menores. Isso significa que não estamos apenas diante de uma nova tecnologia. Estamos diante de uma mudança na economia do desenvolvimento de software. E essa mudança interessa diretamente ao agro brasileiro.

Se o custo marginal de evoluir um sistema diminui e a velocidade de desenvolvimento aumenta, é natural questionar modelos construídos em uma realidade tecnológica anterior. Uma necessidade identificada por uma agroindústria pode ser também a necessidade de dezenas de outras. Nesse cenário, tratá-la sempre como um projeto isolado significa desperdiçar tempo, conhecimento e escala.

Outros setores já começam a enfrentar esse dilema. O MIT Sloan Management Review chama atenção para modelos capazes de combinar velocidade e personalização, conceito conhecido como high-speed bespoke. A ideia é especialmente relevante: customização e velocidade, que durante muito tempo pareceram objetivos conflitantes, começam a poder coexistir.

Para um agro que disputa mercados globais, isso não é uma questão secundária. Imagine uma empresa que identifica uma forma melhor de monitorar bem-estar animal, reduzir perdas industriais, melhorar a rastreabilidade ou antecipar desvios de produção.

Se a tecnologia necessária existe, mas sua incorporação aos sistemas leva meses, parte do valor dessa inovação se perde no caminho. A velocidade entre identificar um problema e colocar sua solução em operação passa, portanto, a ser uma medida de competitividade.

Isso exige repensar também a relação entre agroindústrias e empresas de tecnologia. Os sistemas do futuro tendem a ser menos produtos estáticos, alterados por sucessivos projetos individuais, e mais plataformas em evolução permanente. Necessidades identificadas nas operações podem alimentar melhorias contínuas, que passam a fazer parte do próprio produto e, quando aplicáveis, beneficiam um conjunto maior de usuários.

Há uma oportunidade particularmente importante para o Brasil nesse movimento. Temos um agro sofisticado, operações de grande escala e problemas produtivos suficientemente complexos para impulsionar o desenvolvimento de tecnologia de classe mundial. A aproximação entre agroindústria e empresas brasileiras de tecnologia pode transformar necessidades locais em soluções capazes de competir globalmente.

Foi assim, em diferentes momentos, que o país construiu parte de sua liderança agropecuária: aproximando ciência, conhecimento e problemas concretos de produção. A transformação digital abre espaço para repetir essa lógica em uma nova fronteira. O desafio agora é fazer com que a infraestrutura digital acompanhe a velocidade das transformações que acontecem no campo e no chão de fábrica.

O Brasil já demonstrou que sabe transformar conhecimento em produtividade e produtividade em competitividade. Nas próximas décadas, porém, isso talvez não seja suficiente. Será preciso reduzir cada vez mais o intervalo entre uma boa ideia e sua aplicação prática. A próxima vantagem competitiva do agro brasileiro pode não estar apenas enquanto conseguimos inovar, mas em quão rápido conseguimos transformar inovação em resultado.

Leonardo Thielo de La Vega é médico-veterinário, pesquisador e CEO da F&S CAP.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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