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Imagem ilustrativa.| Foto: Antônio More/Gazeta do Povo

Já não é novidade o fato de o Brasil liderar o ranking de países que mais tempo figuram com as escolas fechadas. Tampouco é de causar espanto a autorização dada para abertura de bares, parques, casas de eventos, restaurantes e até mesmo para atos de campanhas eleitorais em meio a aglomerações. No entanto, essa mesma regra não vale para as escolas, que continuam sem poder atender nem receber regularmente crianças, apesar de as instituições de ensino seguirem uma série de protocolos já investidos, comunicados, implementados e referendados como seguros pela própria área da saúde.

São lamentáveis as marcas que essa pandemia tem deixado, em especial no setor da educação: confusão de retóricas entre lideranças, misto de decretos, estatísticas desencontradas, além de inúmeras diretrizes políticas que, por vezes, ignoram posturas sanitárias a favor da escola e da infância. Por consequência, observa-se um grau de indiferença em relação aos efeitos psicológicos causados nas crianças, que, sem escola aberta, ficam à mercê de favores de vizinhos, cuidadores, amigos e avós informais − sem, é claro, seguir muitos protocolos −, uma vez que muitos pais já trabalham em regime laboral normal.

Diferentemente de outros setores da economia que já vislumbram retomadas, o educacional ainda caminha, como um teste cardíaco aos educadores, à custa de previsões e muita incerteza. No começo da pandemia, havia dúvidas e medo – por sinal, muito compreensíveis, pois o mundo vivia um encontro com o desconhecido. Mas hoje tais sentimentos são inadmissíveis, na medida em que já se constata uma curva de aprendizado imensa, seja pela experiência acumulada de outros países onde o vírus surgiu antecipadamente, seja pelo grande volume de pesquisa e achados científicos consistentes que se baseiam em uma retaguarda sólida de estudos internacionais sobre a doença em crianças, subsidiando a necessidade urgente da reabertura segura das escolas. Fato esse, inclusive, recomendado declaradamente pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A baixa transmissibilidade entre crianças e a incidência de sintomas leves demonstram que as medidas, como uso de máscara, distanciamento social e boa circulação do ar, quando devidamente aplicadas, são eficazes e permitem a reabertura segura de instituições de ensino, em especial para crianças menores de 10 anos. Em artigo recente do New York Times, republicado pelo jornal O Globo, o Centro de Prevenção e Controle de Doenças da Europa afirmou que seria improvável que o fechamento das escolas significasse uma proteção potencial à saúde das crianças, pois estas representam menos de 5% de todos os casos do novo coronavírus nos 27 países da União Europeia e do Reino Unido.

Além de administrar escolas fechadas, demandas familiares e completa administração de custos, os gestores escolares também já vislumbram o que lhes espera para 2021: um ano completamente transformado pela tecnologia e pelo ensino híbrido. A ausência de vacina faz com que medidas de distanciamento e protocolos sejam mantidos por órgãos reguladores, forçando rodízios em algumas turmas. Além disso, impõe às famílias o dilema sobre o envio (ou não) das crianças à escola, na maioria dos casos por alguma orientação médica, comorbidade ou mesmo insegurança. Isso sem contar com uma possível segunda onda de Covid-19, já evidenciada com grande intensidade em países europeus, ainda que algumas nações tenham optado pelo não fechamento das escolas nessa nova fase.

Ou seja, no Brasil, até que uma imunização em massa seja feita, as salas de aula serão um misto de alunos presenciais e alunos on-line. Esse fato é suficiente para uma reviravolta na organização escolar. Além da relevante e substancial atenção ao ensino fragmentado de 2020, que, por sugestão do Conselho Nacional de Educação (CNE), deve ser redistribuído em um continuum escolar em 2021, outras demandas se presentificam.

No caso especial das organizações privadas, as renovações de matrículas são um dilema quando se trata de contratos anuais. Outra questão tem sido o esforço dos gestores na tentativa de manter seu corpo de colaboradores efetivos, a fim de evitar a perda de investimento em capital humano frente à evasão e à inadimplência. Isso sem falar na possível reforma tributária, na Lei Geral de Proteção dos Dados, na imperiosa revisão dos processos internos com a pandemia e nos obrigatórios e significativos investimentos em plataformas digitais, conexão, transmissão de imagem com qualidade e hangouts, recursos tão necessários ao ensino híbrido. O fato é que a realidade pós-pandemia exigirá muita competência, bem como alto nível de profissionalização e gestão, casados com disponibilidade de caixa, pois, além do cenário de dificuldade, principalmente para escolas de cunho exclusivamente infantil, a sobrevida implica investimento.

Sob o olhar pedagógico, os gestores educacionais e suas equipes terão, como tarefa primeira, de mapear cuidadosamente os componentes curriculares essenciais por faixa etária atendida e registrar em que nível seus alunos se encontram, tecendo um responsável diagnóstico. Em um cenário de possível retomada, terão, depois, com engajamento e profissionalismo, de acolher e recolocar emocionalmente todas as crianças, famílias e educadores na escola. É um profundo e delicado recomeço. Terão, ainda, de proporcionar aos estudantes do grupo de risco ou de alguma comorbidade meios seguros e estáveis de receber ensino de forma consistente em seus lares. Com todas essas necessidades, será imprescindível contar com uma equipe completamente engajada, digital e fluente em sua proposta pedagógica para evitar perdas ainda maiores em 2021.

De fato, as cartas foram embaralhadas, os diferenciais educacionais revistos, as famílias transformadas e a escola inteira reinventada. Aliás, diga-se de passagem, os professores têm sido expostos todos os dias a julgamento público quanto às atividades e atuações laborais. Ousados e corajosos, estão sobrepondo críticas em nome de uma causa chamada educação básica, recebendo o notório e diferenciado reconhecimento da sociedade, que outorgou a seus docentes mérito pelo gigantesco esforço intelectual e digital e, também, pela nítida reinvenção da arte de educar. Sem dúvida, essa trajetória diária de superação e pequenas vitórias será o esteio para vencer barreiras futuras do ano que vem.

A escola básica de 2021 impõe uma árdua tarefa pela frente. Vai depender muito de sua capacidade de gestão para engajar alunos, professores e famílias em um novo processo educativo e em um novo normal, quando se somam os protocolos de biossegurança. Gestores deverão estar ainda mais próximos, monitorando passo a passo o que for surgindo ao longo de 2021. Todo cuidado é pouco nessa retomada, principalmente no tocante à parte emocional das crianças. Essa preocupação sobre os danosos e duradouros efeitos do período fora da escola ao desenvolvimento acadêmico e emocional das crianças é mundial. Isso sem falar, especialmente no estado do Paraná, da taxa de evasão e abandono escolares, que pode alcançar um patamar alarmante por causa da pandemia, colocando uma geração toda de jovens, estimada em 90 mil alunos, para fora da escola.

Infelizmente, se as atividades escolares continuarem suspensas, corre-se o risco de negligenciar as pesquisas científicas, tão louvadas e respeitadas. Com as escolas fechadas em meio à maioria das atividades econômicas liberadas, subentende-se que a educação esteja sendo considerada atividade não essencial e que a escolha da decisões esteja sendo enveredada para a direção contrária. Basta olhar para os clássicos da educação ou, se preferirem, para as pesquisas recentes, lideradas por pesquisadores de Harvard. Esses estudiosos, enveredados com a ciência da Psicologia Positiva, ressaltam a importância das relações, das emoções positivas e da construção de relacionamentos saudáveis, a partir da emoção saudável e da escola como espaço que ultrapassa de longe a função da mera transmissora de conteúdos.

Mas isso é um segundo passo para uma nação que ainda demora para abrir escolas enquanto lota bares. Que venha 2021 com todos os desafios de gestão e educação: missão dada para ser vencida!

Haroldo Andriguetto Junior é mestre em Administração, doutor em Educação e gestor da escola O Pequeno Polegar.

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