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O Brasil precisa pensar alto: por que criamos o instituto de altos estudos em geopolítica, segurança e conflitos

(Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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O Brasil vive um momento decisivo. O ambiente internacional tornou-se mais instável, mais competitivo e mais perigoso do que em qualquer outro período desde o fim da Guerra Fria. Conflitos de alta intensidade, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, a escalada permanente no Oriente Médio e as tensões no Indo-Pacífico, mostram que o uso da força voltou a ser um instrumento central da política internacional. Esses conflitos são alertas claros de que a paz não é um dado permanente, mas uma construção que exige preparo, capacidade dissuasória e visão estratégica.

Foi diante desse cenário que nasceu o Instituto de Altos Estudos em Geopolítica, Segurança e Conflitos (GSEC). O GSEC é vinculado administrativamente à ADEPOL-Brasil, a Associação dos Delegados de Polícia do Brasil, que oferece suporte institucional sem interferir na autonomia científica da instituição.

A ideia em estruturar um instituto voltado para unificar doutrinas, pensamentos e estudos nas áreas de geopolítica, segurança e conflitos surgiu inicialmente no seio da ADEPOL, por iniciativa de seu presidente, doutor Rodolfo Queiroz Laterza, grande estudioso destes temas, com diversos livros e artigos publicados. A iniciativa logo encontrou ressonância no seio dos principais canais de mídias alternativas brasileiras que se dedicam aos temas estratégicos, dentre eles o Arte da Guerra, o Velho General, o Plano Brasil e o GRU Geopolítica em Ação, dentre outros.

O Instituto tem a missão de produzir análises independentes e técnicas, de alta qualidade, sobre as áreas temáticas de geopolítica, segurança pública, segurança internacional, defesa e política externa. Atuando neste sentido, se propõe a contribuir para a formulação de uma grande estratégia nacional brasileira.

O mundo vive uma reconfiguração profunda. A disputa sino-americana, a militarização do espaço e do ciberespaço, a reorganização das cadeias produtivas e a ascensão de atores não estatais violentos mostram que a segurança internacional está em transformação acelerada

O país ocupa uma posição geográfica privilegiada, mas também vulnerável. A Amazônia, o Atlântico Sul, o pré-sal, a Margem Equatorial e as fronteiras terrestres extensas colocam o Brasil diante de riscos que não podem ser ignorados. A Margem Equatorial, em particular, representa uma das áreas mais promissoras do mundo em potencial energético, mas também uma das mais sensíveis do ponto de vista geopolítico. A disputa global por recursos estratégicos e a crescente pressão internacional sobre temas ambientais tornam essa região um ativo que precisa ser protegido com inteligência, tecnologia e presença do Estado.

No campo da defesa, o Brasil enfrenta desafios que vão desde a necessidade de modernização tecnológica até a proteção de suas fronteiras marítimas e terrestres. Ameaças híbridas, ciberataques, espionagem tecnológica, pressões ambientais externas e disputas por recursos energéticos exigem preparo e coordenação. Os conflitos em curso no mundo mostram que Estados que não investem em defesa, inteligência e autonomia tecnológica tornam-se dependentes de outros e perdem capacidade de decisão.

Mas a segurança do Brasil não se limita ao campo militar. A segurança pública é hoje um dos maiores desafios nacionais e está profundamente conectada ao ambiente internacional. O crime organizado brasileiro opera em redes transnacionais, controla rotas internacionais de drogas e armas, infiltra-se em portos estratégicos e disputa territórios urbanos com violência crescente. Facções nacionais mantêm conexões com cartéis estrangeiros, grupos armados e organizações criminosas que atuam em vários continentes.

A defesa e a segurança pública, portanto, não são esferas isoladas. São dimensões complementares de um mesmo problema: a proteção do Estado e da sociedade brasileira.

Nenhum país relevante separa sua política externa de sua política de defesa. Ambas são expressões de um mesmo objetivo: proteger interesses nacionais e ampliar a capacidade de ação do Estado no mundo. Para que cumpram esse papel, precisam ser tratadas como políticas de Estado, e não de governo.

Mudanças de orientação geopolítica a cada ciclo eleitoral fragilizam a credibilidade internacional do país e dificultam a construção de uma estratégia no longo prazo. O Brasil precisa de continuidade, coerência e visão estratégica. O GSEC nasce para contribuir com essa construção, oferecendo análises técnicas, independentes e orientadas pelo interesse público.

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O Instituto busca consolidar uma escola brasileira de pensamento estratégico, capaz de dialogar com centros internacionais relevantes, mas sem abrir mão da perspectiva nacional. O objetivo é produzir conhecimento que sirva ao Estado brasileiro, e não a agendas externas ou a disputas partidárias.

O documento fundador do GSEC estabelece que o Instituto deve articular a política externa, a política de defesa e a política de segurança pública em uma grande estratégia nacional. Isso significa integrar dimensões militares, diplomáticas, econômicas, tecnológicas, informacionais e de segurança pública em uma visão coerente de futuro.

O GSEC foi concebido com governança sólida. Seu Regimento Interno garante autonomia científica e independência intelectual. A estrutura inclui o Conselho Diretor, a Diretoria Executiva, o Conselho de Pesquisa e grupos temáticos que abrangem geopolítica, estratégia territorial, terrorismo, crime organizado, tecnologias críticas, inteligência e segurança internacional.

Cada grupo deve reunir acadêmicos, profissionais de campo e jovens pesquisadores. Essa composição híbrida garante equilíbrio entre rigor científico, experiência prática e inovação.

O mundo vive uma reconfiguração profunda. A disputa sino-americana, a militarização do espaço e do ciberespaço, a reorganização das cadeias produtivas e a ascensão de atores não estatais violentos mostram que a segurança internacional está em transformação acelerada.

O Brasil enfrenta desafios internos que se conectam diretamente a esse ambiente global. Crime organizado transnacional, vulnerabilidades cibernéticas, dependência tecnológica e pressões geopolíticas sobre recursos naturais exigem planejamento de longo prazo. Sem pensamento estratégico, o país reage. Com pensamento estratégico, o país antecipa.

O Instituto nasce para contribuir com o Estado brasileiro na formulação de políticas públicas, na formação de quadros, na produção de análises e na construção de pontes entre setores que raramente dialogam. Militares, diplomatas, acadêmicos, jornalistas, especialistas em tecnologia, operadores da segurança pública e profissionais de inteligência precisam estar na mesma mesa.

Nosso compromisso é com a soberania, com o interesse público e com o rigor científico. Esses valores orientam cada uma de nossas ações. O Brasil precisa pensar alto. Precisa pensar grande. Precisa pensar estrategicamente e com políticas de Estado, não de governo. O GSEC está pronto para ajudar a cumprir essa missão.

Marco Antonio de Freitas Coutinho é coronel da reserva do Exército Brasileiro, bacharel em Ciências Militares pela AMAN, mestre em Operações Militares pela EsAO e em Ciências Militares pela ECEME. Possui especialização em Relações Internacionais e é mestre em Ciência Política Internacional pela Universidade Europeia do Atlântico (Espanha). É vice-presidente do Instituto GSEC.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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