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São os costumes e o espírito de um povo que preservam o vigor de uma república. A degeneração destes é um câncer que logo corrói o âmago de suas leis e constituição.
–Thomas Jefferson, Notas sobre o Estado da Virgínia (1785)
Um espelho cultural
Hoje, o conflito político nos Estados Unidos é mais do que uma crise social — é um reflexo cultural. Nos últimos anos, ataques violentos contra autoridades eleitas, líderes comunitários e cidadãos comuns suscitaram não apenas tristeza, mas também sinais preocupantes de aprovação. Em grandes plataformas como Reddit, TikTok e X, milhares expressaram reações que variaram do luto à celebração após o assassinato de Charlie Kirk.
No cerne dessa tendência está um desafio civilizacional: um colapso contínuo das virtudes cívicas que outrora sustentaram a democracia ocidental. Embora algoritmos, ideologia e partidarismo possam alimentar a divisão, a verdadeira preocupação é que tenhamos desmantelado silenciosamente os alicerces de nossa arquitetura moral.
De fato, desde a fundação dos Estados Unidos, as diferenças políticas eram esperadas e, em sua maior parte, respeitadas. Lembro-me de famílias, amigos e vizinhos discutindo ao longo da minha vida, mas o entendimento mútuo era considerado um requisito cívico até recentemente.
Intelectuais públicos elogiavam de forma consistente a diversidade de opiniões como um baluarte contra o extremismo. Poucos cidadãos poderiam imaginar o perigo à espreita em um campus universitário, em uma câmara municipal ou em uma reunião local onde o debate aberto era incentivado.
Infelizmente, esse mundo está desaparecendo rapidamente. De acordo com a Polícia do Capitólio dos EUA, as ameaças e agressões contra figuras públicas triplicaram em cinco anos. Pesquisas do Pew Research Center indicam crescente desconfiança nas instituições culturais, e sondagens mostram que o número de cidadãos que justificam a violência política está aumentando. Essas constatações não representam meras opiniões isoladas; revelam os primeiros sinais de uma agressão normalizada.
Para entender o porquê, precisamos olhar além da superfície política e observar o que as gerações anteriores consideravam óbvio. Respostas políticas convencionais, como leis mais rigorosas de controle de armas, códigos de conduta mais estritos e moderação de conteúdo mais eficaz, não conseguem reparar o que está se deteriorando. O que emergiu não é uma simples falha regulatória, nem mesmo uma crise constitucional. É a consequência inevitável da negligência em relação à antropologia moral que uma democracia liberal pressupõe.
Uma antropologia ignorada
Desde o autogoverno colonial até as associações cívicas descritas por Alexis de Tocqueville, a experiência americana tratou a virtude pública como parte essencial de sua infraestrutura. O declínio contemporâneo dessa tradição — outrora mantida em escolas, igrejas, organizações de voluntariado e lares — explica por que as soluções regulatórias agora falham em restabelecer a ordem.
Por essa razão, devemos reconsiderar uma questão fundamental: que tipo de cidadão uma sociedade livre pressupõe? Cada sociedade responde a essa pergunta com sua própria antropologia subjacente, e a tradição ocidental ofereceu uma resposta notavelmente exigente.
Ela sustentava que os seres humanos são racionais, morais e espirituais por natureza: agentes livres capazes de deliberação, vinculados por deveres que ordenam a sociedade e orientados para bens que os transcendem. Essa visão tornou a formação do caráter não opcional, mas essencial. Mais do que qualquer outra forma de governo, a democracia liberal exige que os indivíduos assumam responsabilidades, exerçam autocontrole e empreguem discernimento ético.
Contudo, a política contemporânea tende a minimizar esse legado. Em grande parte do espectro ideológico, o comportamento pessoal é tratado mais como questão de preferência privada do que como expressão de responsabilidade cívica.
No entanto, a neutralidade não pode ser moralmente neutra; ela própria constitui uma postura ética — e profundamente desestabilizadora. Isso ocorre porque a compreensão da pessoa humana como dotada de dignidade inerente, capacidade moral e obrigações que precedem o Estado, com base no direito natural, está praticamente esquecida.
Como alertou o filósofo Alasdair MacIntyre, em sua obra de 1981, Depois da Virtude, a modernidade “perdeu qualquer estrutura pública para as virtudes”, deixando os cidadãos sem padrões ou expectativas comuns. Da mesma forma, o filósofo Charles Taylor demonstra em Uma Era Secular que todo julgamento envolvendo direitos humanos se baseia em um conjunto de premissas morais.
Assim, quando a autonomia é apresentada como o bem supremo, virtudes cívicas fundamentais — como veracidade, justiça, prudência, moderação, compaixão, sacrifício e coragem — são inevitavelmente enfraquecidas.
Embora a neutralidade processual tenha sido concebida para proteger os cidadãos contra a coerção governamental, ela passou a impor um credo amoral. O que deveria proteger a consciência individual agora a enfraquece.
Quando a natureza foi rejeitada
Essa involução não é totalmente surpreendente. Uma cisão ideológica durante o Iluminismo resultou em antropologias rivais que permanecem influentes até hoje. Seus representantes moderados — John Locke, Montesquieu e a tradição do direito consuetudinário inglês — enfatizaram direitos de origem divina, dignidade humana, lei natural e limites estritos ao poder do Estado. Mantiveram a forma tradicional, sustentando que tanto a razão quanto a virtude eram indispensáveis à democracia. Enraizados na tradição liberal clássica, esses intelectuais inspiraram a Constituição dos EUA.
Em contraste, a antropologia concebida por pensadores igualitaristas radicais — Jean-Jacques Rousseau e os jacobinos — motivou a Revolução Francesa. Eles viam a natureza humana como uma tábula rasa, corrompida apenas por influências sociais.
Ao defenderem que os indivíduos poderiam ser remodelados, acreditavam que o governo deveria remodelá-los ativamente. A história mostra como essas convicções moldaram projetos utópicos desastrosos, da União Soviética e da China comunista a regimes mais recentes na Venezuela e na Nicarágua.
Ao contrário dos jacobinos, os fundadores americanos criaram a democracia para criaturas imperfeitas. Como escreveu James Madison no Federalista nº 51: “Se os homens fossem anjos, nenhum governo seria necessário”. A historiadora Gertrude Himmelfarb, em Os Caminhos para a Modernidade, captou bem esse contraste: a Revolução Americana foi temperada pela religião e pela virtude; a Francesa, pela ideologia e pelo terror.
As condições essenciais da liberdade
A estabilidade política de uma sociedade sempre reflete sua antropologia subjacente; altere-a e sua arquitetura moral também se transformará. Uma república que não compreende a natureza humana logo compreenderá mal o que a democracia exige.
As liberdades que prezamos — de expressão, consciência, religião e autodefesa — jamais foram concebidas como direitos abstratos. Elas foram moldadas em uma estrutura que unia liberdade e dever
Em 1798, John Adams escreveu que “nossa Constituição foi feita apenas para um povo moral e religioso. Ela é totalmente inadequada para o governo de qualquer outro”. Em seu Discurso de Despedida, George Washington chamou a religião e a moralidade de “sustentáculos indispensáveis” da prosperidade social.
Uma década antes, a Ordenança do Noroeste de 1787 declarava que “religião, moralidade e conhecimento” são necessários para um bom governo. E Thomas Jefferson, em Notas sobre o Estado da Virgínia, advertiu que “nenhum governo pode ser mantido com segurança sem o princípio da virtude”.
É notável que nenhuma dessas declarações faça apelo à conformidade religiosa. Em vez disso, apelam para uma moralidade compartilhada — enraizada na lei natural e acessível à razão — que qualquer sociedade ocidental pode cultivar. Compreendiam que a cidadania envolve compromissos vinculantes e que, quando esse senso de obrigação vacila, todos os direitos se tornam negociáveis.
Líderes modernos também reconheceram essa verdade. Como observou o cientista político James Q. Wilson, “o problema central da ordem social não é a estrutura do governo, mas o caráter daqueles que vivem sob ele”. E, em Justiça, o filósofo Michael Sandel argumenta que “a liberdade não consiste na ausência de restrições, mas no exercício da autonomia moral”. Isso não é nostalgia; é realidade.
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A razão e a ciência oferecem confirmação
Contudo, representando a corrente radical do Iluminismo, céticos há muito rejeitam a “virtude cívica” como teologia ultrapassada. Ainda assim, a ciência contemporânea apoia o que a antropologia ocidental sempre defendeu: qualquer pessoa saudável pode viver como agente moral livre e responsável.
Em termos de capacidade individual, a neuropsicologia demonstra que, embora genes e ambiente influenciem o comportamento, não o determinam. Como o cérebro é reconfigurado pela experiência e pelo hábito, permanece surpreendentemente flexível.
Diversos estudos e publicações confirmam que o cultivo de valores espirituais — como gratidão, compaixão, paz, serviço, perseverança, disciplina, esperança e propósito — fortalece a felicidade, a saúde mental, os relacionamentos e a contribuição cívica.
Na esfera social mais ampla, a economia comportamental indica que fé e reputação privadas funcionam como uma espécie de moeda cultural invisível.
Um experimento em larga escala realizado por Ederer e Schneider constatou que a comunicação moral — especialmente o ato de fazer promessas — aumentou a confiança e a credibilidade entre os participantes em cerca de 50%. Estudos em psicologia evolucionista e teoria dos jogos confirmam que a cooperação confiável depende muito mais da qualidade das relações do que do interesse próprio genético.
Assim, tanto no nível individual quanto no social, o florescimento humano cresce onde a formação moral é esperada e incentivada.
A fronteira moral à frente
Hoje, os Estados Unidos não sofrem principalmente de divisão ideológica e partidarismo, mas de um notável declínio da virtude cívica. Embora a promulgação de novas leis possa restringir atos ilícitos, jamais reformará o coração humano.
Essas realidades estão em consonância com a antropologia tradicional ocidental, que afirma que os indivíduos são capazes de raciocinar, responsáveis por suas escolhas e sujeitos a princípios que transcendem a autoridade estatal.
A aceitação gradual da agressão política — evidente na crescente aprovação da violência contra opositores — serve como um espelho cultural. Mais especificamente, reflete como liberdades civis fundamentais, como a liberdade de expressão, de opinião e de religião, dependem de uma cidadania comprometida com os valores que lhes dão sustentação.
Ainda assim, não podemos esperar que a virtude pública seja herdada apenas como um ideal. Serão necessárias famílias que sirvam de modelo de gratidão e disciplina pessoal, escolas que ensinem filosofia e ética ocidentais, associações locais que cultivem responsabilidade mútua e comunidades religiosas que formem a consciência individual.
Para reconstruir nossa arquitetura moral, essas instituições precisam ser revitalizadas. Pois, como observa o analista político Yuval Levin em A Time to Build, “nossas instituições moldam o caráter das pessoas que as compõem”.
Em última análise, não podemos esperar preservar uma democracia liberal se cada geração não aprender a abraçar suas responsabilidades cívicas. Desde o princípio, a sobrevivência de nossas liberdades distintivas repousa na qualidade das pessoas que estamos formando ativamente. Pois, sem virtude, a liberdade fracassa — não pela força externa, mas pela erosão interna.
©2026 The Public Discourse. Publicado com permissão. Original em inglês: Without Virtue, Freedom Fails



