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opinião do dia 1

O desafio de Stefan Zweig

Brasil, um país do futuro não é uma quimera, nem fantasia. Não é profecia malograda, nem maldição rompida. É uma questão em aberto, originalíssima provocação. Interminável e salutar controvérsia. Desafio

O mais conhecido livro sobre o nosso país em qualquer idioma tem um título que acabou por tornar-se sobrenome ou cognome: Brasil, um país do futuro. Agora, no início de agosto, o livro de Stefan Zweig completa 70 anos de publicação ininterrupta.

Ao longo deste tempo criou a imagem do país-promessa, potência de amanhã e também terra do jamais, pátria do nunca. Mas, quando visitou o Brasil, o presidente Obama pronunciou dois discursos e em ambos usou a inevitável metáfora: o país do futuro é agora o país do presente.

Utopia ou miopia, projeto político ou prospecto turístico, qualquer que seja a etiqueta que apliquem ao livro, uma coisa é certa: raros são os livros de viagem que conseguiram produzir um aposto com tal aderência. O de Tocqueville, Democracia na América, talvez mais denso, não tem o apelo nem o toque engenhoso de Zweig. De 1941 até hoje, o qualificativo colou – convite a veementes refutações ou entusiasmadas constatações.

Com o doutorado em História, Zweig não se encaixa como historiador, está mais para Dichter, poeta. Embora seu texto tenha uma boa fundamentação histórica e econômica (foi ajudado pelo empresário-economista-acadêmico brasileiro Roberto Simonsen), a sua tônica e motivação são essencialmente humanistas.

Com a Europa destroçada pelo ódio racial, o visitante encontrou no Brasil algo que nenhum outro conseguiu enxergar e louvar com tanto entusiasmo: a miscigenação. "O suposto princípio destrutivo da mistura, esse pecado contra o sangue dos fanáticos teóricos racistas, aqui é o cimento de uma civilização nacional."

Sete décadas depois quem condena essa mesma mistura qualificando-a de "catastrófica" é Anders Breivik, o monstro de Oslo. O xenófobo serial-killer norueguês nunca ouviu falar em Joseph-Arthur Gobineau (1816-1882), o criador do racismo moderno, patriarca da direita francesa, precursor do arianismo hitlerista com o seu Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas.

Gobineau foi embaixador da França junto à corte de Pedro II e vaticinou a degeneração da nação brasileira devido à intensa miscigenação e ao intenso intercâmbio cultural. Zweig contesta tanto o guru como o pupilo-assassino. A palavra ainda não fora cunhada, mas Zweig era um convicto defensor do multiculturalismo natural, orgânico. Com ele construiu uma doutrina de inclusão e conciliação no exato momento em que o mundo partia-se, ensanguentado pelas exclusões.

Não lhe interessavam estatísticas, renda per capita ou PIB, apenas a capacidade de vencer diferenças. Militante pacifista na Primeira Guerra Mundial encontrou uma bandeira para empunhar na seguinte: o Brasil como modelo de convivência.

O escritor mais traduzido no mundo produziu um novo best-seller, desta vez tendo um país como personagem. Saiu quase simultaneamente em seis idiomas, mas aqui foi arrasado. Como exaltava o povo brasileiro, alguns críticos o entenderam como preito ao governo e ao Estado Novo, uma ditadura nada branda.

Brasil, um país do futuro não é uma quimera, nem fantasia. Não é profecia malograda, nem maldição rompida. É uma questão em aberto, originalíssima provocação. Interminável e salutar controvérsia. Desafio.

Este é o segredo da sua longevidade. Esta a chave da sua atualidade.

Alberto Dines é jornalista.

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