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O futebol explica o Brasil

  • PorElton Duarte Batalha
  • 02/10/2019 15:21
Argentino Sampoli, no Santos, e português Jesus, no Flamengo.
Argentino Sampoli, no Santos, e português Jesus, no Flamengo.| Foto: Montagem com fotos de Felipe Correira e Edu Andrade/Estadão Conteúdo

A chegada com sucesso dos técnicos estrangeiros Jorge Jesus e Jorge Sampaoli evidenciou algumas deficiências do futebol brasileiro que representam no microcosmo esportivo, em última análise, falhas presentes na sociedade e economia nacionais. A observação de alguns desses problemas auxilia na análise de questões presentes no cotidiano do Brasil.

Primeiro ponto a observar diz respeito ao corporativismo. O êxito em desempenho dos referidos treinadores, que conseguiram fazer com que seus times apresentassem futebol vistoso, o qual, muitas vezes, produz vitórias expressivas, ensejou reação de alguns técnicos. O gremista Renato Portaluppi, por exemplo, relativizou recentemente o desempenho obtido pelo time dirigido pelo português Jorge Jesus. Tal postura, em outros momentos, foi adotada por diversas figuras do meio do futebol, ressaltando o caráter corporativo dos profissionais brasileiros. A defesa da classe não é algo restrito ao mencionado esporte, bastando observar as ações de alguns políticos diante das operações contrárias à corrupção ou a tentativa de diminuição de privilégios (como o auxílio-moradia) de determinadas categorias do setor público.

Triste é o país que, na falta de comportamento humilde, desperdiça a oportunidade de fazer análise acurada de seus defeitos

O despreparo técnico dos profissionais nativos é outro tópico que chama a atenção. O desconhecimento de idiomas é algo marcante, sendo notória a dificuldade apresentada pelo treinador Joel Santana com a língua inglesa quando trabalhava na seleção da África do Sul e de Vanderlei Luxemburgo com o idioma espanhol quando dirigiu o Real Madrid. Tal restrição intelectual obviamente cria óbice para o desenvolvimento da carreira dos brasileiros no exterior. Ademais, há certo desinteresse em relação ao aprimoramento técnico por parte dos treinadores brasileiros, sobrevalorizando o empirismo em detrimento da teoria e dos mais modernos sistemas táticos e estratégicos, presentes especialmente na Europa, local em que o futebol hoje é praticado com a maior intensidade e qualidade no mundo. O desapego ao aprofundamento teórico é algo presente em boa parte da sociedade, refletindo os problemas históricos e estruturais da educação formal no país. A comparação com treinadores argentinos, que conseguem mais mercado no âmbito europeu, mesmo em países que não tem a língua de Cervantes como o seu idioma oficial, torna mais claro o problema brasileiro. A excelência atingida por profissionais europeus exemplificados na figura do espanhol Josep "Pep" Guardiola e do alemão Jürgen Klopp é algo longe da realidade dos colegas nascidos no Brasil.

A falta de planejamento é outra característica do meio futebolístico brasileiro que reflete o ambiente em que se encontra. A desorganização financeira histórica dos clubes nacionais é outro elemento que deve ser observado com cuidado na análise de nossa realidade. Em uma sociedade cuja figura do homem cordial é marcante, como apontou Sérgio Buarque de Holanda, a aplicação da racionalidade weberiana no cotidiano é algo que nem sempre é aceito com facilidade. Daí surge a improvisação, muitas vezes oriunda da desorganização, redundando, em alguns casos, no chamado "jeitinho brasileiro" para resolver determinadas dificuldades. No campo de futebol, um embate clássico entre um time pautado pela emoção e outro caracterizado pela razão ficou conhecido em 2014, durante a Copa do Mundo disputada no Brasil, quando a equipe anfitriã foi derrotada por 7 a 1.

Essa deficiência em termos de organização dentro e fora de campo produz como efeito a exploração do potencial do esporte brasileiro de modo muito menos satisfatório do que seria desejável. Os casos de violência e a desconsideração do evento futebolístico como um negócio em todas as suas facetas, inclusive pela mentalidade dos dirigentes, enseja faturamento bem menor que outras ligas ao redor do mundo. A estrutura problemática reproduz no futebol algo que também ocorre na economia do país: a venda de bens em estado bruto, sem muito valor agregado. O Brasil perde seus talentos ainda muito jovens, que rumam sobretudo para a Europa, local em que serão lapidados, ocasionando rápida e expressiva valorização dos jogadores.

É óbvio, em suma, o efeito positivo que a entrada de treinadores estrangeiros produz no cenário futebolístico nacional. Além da troca de experiências, o referido fenômeno expõe de modo cristalino algumas deficiências do esporte no Brasil, refletindo, de modo profundo, problemas presentes também nos campos social e econômico. Triste é o país que, na falta de comportamento humilde, desperdiça a oportunidade de fazer análise acurada de seus defeitos, evidenciados na comparação entre profissionais brasileiros e estrangeiros. A armadilha do argumento nacionalista no trato desse assunto, embora confortável, pode fazer que o país desperdice a possibilidade de encarar mazelas presentes desde tempos imemoriais nessas terras.

Elton Duarte Batalha é professor de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, advogado e doutor em Direito.

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