Entre os fenômenos que vêm ocorrendo nos últimos tempos, dois deles imporão mudanças econômicas profundas e exigirão novo comportamento social. Trata-se do envelhecimento da população e do aumento do número de pessoas sozinhas.

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A população do Brasil anda na casa dos 195 milhões. Desses, os que têm mais de 60 anos são 20 milhões; daqui a dez anos serão 31 milhões e, em 2040, passarão de 57 milhões. É uma mudança etária muito grande que levará a novas exigências em três pontos: necessidade de poupança individual e de educação financeira; reformulação nos sistemas de previdência dos trabalhadores públicos e privados; modificações nos sistemas públicos de saúde e assistência.

Na outra ponta, em apenas uma década o país terá 6 milhões de crianças a menos na faixa de 5 a 14 anos, saindo de 34 milhões hoje para 28 milhões em 2022. Nas próximas décadas, teremos muito menos gente em idade produtiva como proporção da população na terceira idade. O INSS não vai aguentar, pois é um sistema baseado no regime de repartição, pelo qual os benefícios de hoje (aposentadorias, pensões e outros) são pagos pelas contribuições dos trabalhadores de hoje. Alguma reformulação terá de ser feita.

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Quanto à previdência dos servidores públicos, a situação é ainda pior. Atualmente ela está absorvendo, dos tributos, parcela muito acima do que é considerado razoável para padrões mundiais. Um exemplo está nas pensões por morte. Se um casal trabalha no governo com salário de R$ 25 mil por mês cada, em caso de morte de um, o outro passa a receber, em forma de pensão, o salário integral do cônjuge falecido. Esse exemplo foi usado pelo ministro da Previdência para defender a necessidade de mudanças.

Louve-se a iniciativa da presidente Dilma em começar a mexer nesse problema, com a criação do Fundo de Previdência do Servidor Público no âmbito do governo federal. Mas isso é só o início da solução. Estados e municípios estão devendo a correção dos problemas previdenciários de seus servidores, algo que já deviam ter começado a fazer, pois reforma previdenciária leva 30 anos para dar resultado.

Outros fenômenos são a diminuição do tamanho das famílias e o aumento do número de pessoas da terceira idade morando sozinhas. Dos 57 milhões acima de 60 anos em 2040, muitos irão morar sozinhos porque não se casaram, porque se divorciaram ou porque o cônjuge morreu. Um dado a respeito é o aumento do número de separações formais. Para ilustrar, em 2011 foram 351.153 divórcios, contra 243.224 em 2010, um crescimento de 45,6%.

Essa realidade recomenda que cada um cuide de sua educação financeira, faça sua previdência complementar e forme reservas para prover o próprio sustento, ainda mais que a probabilidade de ficar sem emprego na velhice e gastar mais com saúde e cuidados pessoais é bastante grande. Ademais, não é prudente colocar seu futuro nas mãos do governo, pois os governos têm a mania de acabar correspondendo aos que não confiam nele.

A nova realidade populacional exigirá mudanças, também, na indústria habitacional, nos fabricantes de alimentos e no setor de serviços – que terão de atender milhões de residências com apenas um consumidor –, e no conceito de família. A solidão, no sentido físico, tende a promover novas formas de núcleo familiar e convivência social. Em alguns países, já se fala em "família social", amigos que, em grupo, fazem um pacto de convivência e apoio mútuo, como se uma família fossem.

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José Pio Martins, economista, é reitor da Universidade Positivo.