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bandeira de Portugal
| Foto: Patricia de Melo Moreira/AFP

Duas são as características do uso da língua portuguesa, contrastantes em Portugal e no Brasil.

1. Seu melhor conhecimento e melhor uso, com vocabulário abundante, correção gramatical, beleza de construções, correção de traduções em Portugal. Tal nota vem minguando, máxime em anos recentes, à conta da influência brasileira, na forma de telenovelas (desde os anos 1970) e dos 300 mil brasileiros lá residentes há décadas; umas e outros dão o exemplo de expressões e de calinadas. Já não se fala o português impecável e elevado de até dez anos atrás e sim português abrasileirado, permeado de dizeres como “não é a sua praia”, “tarefa fácil”, “acho”, “a gente”, “obrigado eu”, “domingão”, “centrão”, “tudo bem”, “tá ?” e muitas outras, todas de origem coloquial.

O título do programa da SIC Não há crise é abrasileirado: em coloquial muito rasca, diz-se ou já sequer dizem, no Brasil, “não tem crise”, isto é, não há problemas; os portugueses substituíram o aí errado verbo “ter” por “haver” e mantiveram a fórmula brasileira.

Aliás, a fórmula brasileira das telenovelas é a de haver personagens coléricas, gritalhonas, iracundas, raivosas, nas da Rede Globo, após o Jornal Nacional; os portugueses imitaram-nas e apresentam personagens dotadas do mesmo excesso emocional, e das mesmas mesas de pequeno-almoço lautas, com o patriarca à cabeceira, mulher e filhos, sumo de laranja em jarra cheia e abundante comida, exatamente como não é o café da manhã dos brasileiros.

A língua é a mesma cá e lá; palavras como “relva”, “gramado”, “rebuçado”, “bala”, “listras”, “riscas”, são equivalentes; não são, umas, lusismos, outras, brasileirismos; são palavras que correm em um país e não no outro e vice-versa, e igualmente corretas. Podemos usar umas e outras, indiferentemente.

Portugal é colônia lingüística (uso o trema, orgulhosamente, cuja supressão foi erro da reforma ortográfica) de brasileiros, onde exerce influência deletéria; não me refiro às expressões típicas, senão aos vícios e aos solecismos típicos de país em que há décadas se descura do idioma e em que professores e doutrinadores professam ódio para com a gramática, vergonha de sua origem portuguesa, desdém do passado luso-brasileiro, e fazem da recusa da gramática de matriz portuguesa afirmação nacionalista.

Ademais, o português do Brasil é anglicizado: contém inúmeras palavras imitantes do inglês, que preteriram os equivalentes vernaculares (“impacto” em lugar de “influência” ou “efeito”; “inteligência” em lugar de “informação”; “denominação” em vez de “seita” ou “religião”; “evidência” em vez de “indício”; “memorial” por “monumento”); também são anglicizadas as traduções do inglês, dos últimos 30 anos, mormente ruins e muito ruins, contrariamente às anteriores, boas, ótimas, excelentes. Também nisto se patenteia involução.

No Brasil, o idioma variou (as línguas mudam) para muito pior (o que os mudancistas ignoram ou dissimulam); os produtos de seu empobrecimento é o que os portugueses atualmente incorporam. O português de Portugal vem-se impregnando mais e mais de expressões e termos correntes e moentes no Brasil e, com elas, de cacoetes, vícios, erronias de brasileiros.

Não há recíproca: não se dá influência portuguesa de mais vocabulário, melhor sintaxe, correção gramatical, mais elevação e menos vulgaridade na fala e na redação dos brasileiros, nem de traduções castiças. Entra o ruim do Brasil em Portugal, não entra o bom de Portugal no Brasil (à exceção de “mais do mesmo”).

2. O português transmite exatamente o que exprimiu, ao passo que o brasileiro exprime-se, muitas vezes, com subtextos, metaforicamente, com sentidos paralelos: enuncia uma coisa para transmitir outra. Se se pergunta ao português se ele sabe que horas são, ele responde que sabe ou que não sabe, mas para o brasileiro “O senhor sabe que horas são?” é igual a “Que horas são?” Obviamente, trata-se de indagações distintas.

O brasileiro pergunta: “Sabe onde fica o Rossio?”, para exprimir: “Como faço para chegar ao Rossio?”. Evidentemente, são perguntas diferentes.

Um brasileiro perguntou: “A senhora sabe onde fica o banheiro?”, ao que o português respondeu-lhe: “Sei; trabalho aqui há muitos anos”, mas o brasileiro quis transmitir “Onde fica o banheiro?”. São perguntas diferentes.

Ao brasileiro deparou-se mochila em cadeira; ele indagou à moça da cadeira adjacente: “Esta mochila é sua?”, ao que ela lhe respondeu: “Não, é de meu primo que ma emprestou”. O brasileiro perguntou-lhe se a mochila pertencia-lhe: foi exatamente isto que ela lhe respondeu, mas na mente do brasileiro indagar “Esta mochila é sua?” significa “Se esta mochila for sua, remova-a daqui”.

Notai vós que o brasileiro diz uma coisa a pensar em outra: há o conteúdo explícito e o implícito, de que o segundo é subentendido entre brasileiros, porém não o é entre brasileiros e estrangeiros. Se o brasileiro indagar na Argentina a um argentino, no Uruguai a um uruguaio, na Itália a um italiano “Sabe onde fica o banheiro?”, não pode exigir que seu interlocutor adivinhe que o sentido da pergunta é outro.

Aqui há tempos indaguei à telefonista de firma: “A Fulana está?”, ao que ela passou-me a ligação para a Fulana. Eu perguntei se Fulana estava, não lhe pedi que lhe passasse a ligação; não era “óbvio” que eu quisesse comunicar-me com Fulana.

É célebre a anedota do brasileiro que indagou ao português:
“Esta loja fecha no sábado?”
“Não.”
No sábado estava fechada; na segunda-feira lá foi ter e protestou:
“O senhor me disse que no sábado não fechava e estava fechada.”
“No sábado não fechamos porque não abrimos; fechamos na sexta-feira.”

Os portugueses não são “burros”, não padecem de deficiência cognitiva; os brasileiros, por sua vez, criaram formas de comunicação de sentido paralelo, diferente de seu sentido literal, compreendidas entre si, porém incompreensíveis para qualquer pessoa alheia ao dito sentido, inclusivamente os próprios brasileiros. É o caso também de “O que abre e o que fecha no feriado”: se fecha no feriado, é porque no feriado abre; quer-se referir o que abre no feriado e o que não abre no feriado. “Fechar” é diverso de “não abrir”, diferença facilmente perceptível em que o brasileiro não atina.

Os brasileiros podem modificar sua comunicação e dizer exatamente o que pretendem; por exemplo: se querem saber como chegar ao Rossio, perguntarão “Como faço para chegar ao Rossio?” em vez de perguntarem “Sabe onde fica o Rossio?”.

*Arthur Virmond de Lacerda Neto é mestre em História do Direito, autor de “A república positivista”.

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