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Em recente visita ao Japão, durante um evento educacional, mais de 60 mantenedores de escolas privadas brasileiras puderam conhecer um pouco sobre o sistema educacional daquele país, observando, ainda sua cultura, tecnologia, desenvolvimento social, dentre outros aspectos. Chamou-nos a atenção ao ver que naquele lugar vivem em paz milhões de pessoas em grandes metrópoles, com nível social tão elevado e um desenvolvimento de tecnologia que é copiado e admirado no mundo todo. Então nos perguntamos, quais são os segredos do Japão?

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Em primeiro lugar, o que ficou evidente foi a educação do povo japonês, no seu sentido mais amplo, como formação de um povo, seus valores, o respeito que possuem às suas regras e leis. Princípios aplicados desde a formação das crianças e adolescentes, visando uma vida social saudável e coletiva.

Antes dessa viagem, eu já dizia que seria como estar em outra galáxia, pois poucas coisas poderão ser copiadas e coladas para a nossa realidade. Verdade! Dentre todas as diferenças e percepções que uma visita rápida em um país milenar e tão intenso, podemos destacar as diferenças conceituais. Para o japonês, duas palavras ou conceitos são extremamente importantes: (kyoiku), para educação e valores que vêm de família; e outro (shitsuke), para ensino.

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Para o japonês, duas palavras são extremamente importantes: (kyoiku), para educação e valores que vêm de família; e outro (shitsuke), para ensino

Como em nosso idioma, também temos duas palavras, educação e ensino, que possuem dois conceitos completamente diferentes, ou no máximo complementares. Porém a sociedade brasileira ignora a importância destes dois conceitos e da diferença entre eles. Se mantém na confortável posição de achar que educação é papel exclusivo da escola e que, portanto, é dela a culpa ou tarefa de educar os jovens e adultos. A escola acaba sendo cobrada por todos os problemas e mazelas da nossa sociedade, desde a violência, até a falta de respeito ao próximo, à sociedade e à natureza. Quando perguntamos às pessoas o que pensam sobre como está a educação no nosso país, a maioria afirma que está ruim, e complementam dizendo que a escola é muito fraca.

Ainda sobre os conceitos de educação e ensino, remontando ao respectivo significado destas palavras em português, podemos afirmar que: educação é todo o processo humano de vivência e experiências, que forjam seu caráter, suas crenças, seus valores e verdades. Ou seja, é tudo o que sustenta e alimenta uma sociedade, onde os jovens são educados pelos exemplos, vivências, desde o nascimento até a morte.

Já o conceito de ensino é um processo humano moderno, composto de técnicas que visam ensinar ou desenvolver certas habilidades cognitivas, especialmente aquelas não naturais, como decodificar os códigos da língua ou da matemática. Ou seja, chamamos de ensino o que está no universo das letras e dos números, é aprender matemática, técnicas e métodos, etc. É diferente das habilidades naturais como andar e falar, por exemplo, as quais somos capazes de aprender sozinhos, por serem da nossa natureza.

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Apenas para exemplificar, cito o caso de meus avós, que eram semianalfabetos, mas absolutamente educados. Criaram 10 filhos, também semianalfabetos e também educados. Nesse sentido, surge mais uma pergunta, o que é mais importante, educação ou ensino? As duas são complementares e fundamentais em uma sociedade, mas sem dúvida, educação vem primeiro, pois é possível ser educado sem ter ensino. Porém temos muitas pessoas com ensino, cursos superior, mestrado, mas sem educação. A operação Lava Jato, da Polícia Federal, que o diga!

Então, o que vivemos atualmente é uma profunda crise de educação, que leva nossas crianças e jovens a perderem as melhores e maiores oportunidades, pois não é possível ensinar uma pessoa que não quer, não entende e não valoriza aspectos sérios e importantes da vida, não prima pelo mérito e a competência. E para educar uma criança ou jovem, precisamos de pouco ou quase nada. Basta querer, se dispor a fazer, e dar o exemplo.

Nessa visita ao Japão, pude observar que aquele país que se destaca em desenvolvimento de tecnologia não a usa em suas escolas. Talvez porque estejam ensinando seus jovens a desenvolver a tecnologia. E nós ensinamos nossos jovens a usar, ou seja, estamos desenvolvendo usuários.

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Foram muitas as reflexões sobre a escola e o que ela pode contribuir para a sociedade brasileira, pois como sociedade estamos na contra mão da história. Temos criado nossas crianças e jovens com dois estigmas extremamente negativos, o vitimismo e a cultura da impunidade e da inconsequência. O famoso “isso não dá nada”! Não permitimos que nossos filhos sofram, chorem, sejam contrariados e estamos sempre buscando culpados para qualquer contrariedade que eles possam sofrer. Por outro lado, se nossos filhos aprontam alguma coisa, lutamos e defendemos para que não sejam punidos, não queremos “traumatizá-los”. Esse comportamento social leva a uma sociedade sem resiliência e resistência. Na vida adulta, esses jovens terão muitas dificuldades no mercado de trabalho. Muitas empresas já percebem isso com a entrada de jovens profissionais.

Colocamos a escola no divã, escrevemos um livro com esse título e explicamos um pouco como a escola brasileira pode ajudar. O Japão é uma bela experiência, mas complexa e pouco aplicável no Brasil, pois ainda estamos muito distantes de entender e definir em nossa sociedade os reais conceitos de educação e ensino.

Ademar Batista Pereira é presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (FENEP).