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O jovem eleitor conheceu Lula – e não gostou

Lula sai em desvantagem na disputa do segundo turno com Flávio. (Foto: André Coelho/EFE)

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O jovem que votou em Lula em 2022 não votou, em grande medida, em Lula. Votou numa lenda sobre ele. Quando o petista deixou o Palácio do Planalto, em 1º de janeiro de 2011, quem tinha entre 16 e 24 anos nas eleições de 2022 era uma criança de quatro a doze anos. Nenhum desses eleitores votou nos dois primeiros mandatos de Lula. Nenhum viveu, como adulto, um governo petista. Para essa geração, Lula não voltou como um ex-presidente a ser avaliado, mas como personagem de uma história contada por outros.

E a história contada foi cuidadosamente editada. Ofereceu-se ao jovem eleitor o Lula de "a esperança venceu o medo", o "Lulinha paz e amor", o operário que chegou à Presidência, reduziu a pobreza e deixou o cargo nos braços do povo. O conciliador, o pragmático, o estadista que conversava com todos. Ficaram de fora as notas de rodapé, e, no caso do petismo, as notas de rodapé são justamente o que importa.

O contexto ajudou a vender o produto. Jair Bolsonaro chegou a 2022 desgastado, sobretudo depois da pandemia, e para muitos jovens votar em Lula sequer significava aderir ao PT. Bastava rejeitar Bolsonaro e acreditar na promessa de volta à normalidade. Era um voto de rejeição, não de convicção. E votos assim cobram juros.

Os números mostram o tamanho daquela aposta. Em setembro de 2022, o Datafolha registrava Lula com 54% das intenções de voto entre eleitores de 16 a 24 anos, contra 24% de Bolsonaro. Na última pesquisa do instituto antes do primeiro turno de 2026, Lula ainda aparecia à frente nessa faixa, mas por 46% a 32% contra Flávio Bolsonaro. A vantagem de trinta pontos encolheu para catorze: evaporou mais da metade.

O dado mais eloquente, porém, é outro. Em julho, apenas 17% dos brasileiros entre 16 e 24 anos consideravam o governo Lula ótimo ou bom, o pior índice entre todas as faixas etárias. A geração que mais apostou nele é a que pior o avalia.

Apesar de o TSE não divulgar votos por idade, os números disponíveis dispensam sutilezas: o Lula idealizado de 2022 perdeu boa parte de seu encanto exatamente entre aqueles que nunca haviam sido governados por ele. Quem o recebeu como promessa passou a enxergá-lo como problema. A explicação é simples. Em 2022, conheciam o Lula que lhes contaram. Em 2026, conheceram o Lula que governa.

O jovem que tinha 18 anos em 2022 tem 22 hoje. Praticamente toda a sua vida adulta transcorreu sob o terceiro governo Lula. Para formar opinião, já não precisa das lembranças dos pais, das retrospectivas da televisão nem da propaganda eleitoral

E não foi só a economia, embora a economia baste para muita coisa. Durante quatro anos, esses jovens assistiram a um governo obcecado em ampliar despesas e alérgico a qualquer limite fiscal, enquanto o país pagava a fatura em juros altos, inflação persistente e dívida crescente. Aprenderam na prática o que a propaganda omitira: crescimento não nasce da vontade do governante, nem do gasto público, nem do crédito farto. Nasce de confiança, justamente o que o governo dilapidou. Mas conheceram também algo mais grave: a deterioração do ambiente institucional.

O caso Banco Master expôs a proximidade entre Daniel Vorcaro e algumas das figuras mais poderosas da República. Mensagens apreendidas pela Polícia Federal revelaram contatos com o presidente da Câmara, Hugo Motta, com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, cuja esposa, Viviane Barci de Moraes, mantinha um contrato milionário de advocacia com o banco. O escândalo chegou, assim, ao coração do Supremo e escancarou relações privadas, conflitos de interesse e a completa ausência da distância que deveria separar autoridades públicas dos interesses econômicos submetidos ao Estado.

A campanha acrescentou outro capítulo. Decisões do STF e do TSE passaram a ser criticadas por juristas, candidatos e amplos setores da sociedade como interferência indevida do Judiciário no processo político. O episódio mais simbólico foi a proibição de que a TV Globo exibisse o púlpito vazio de Lula num debate ao qual o presidente decidira não comparecer. A Justiça Eleitoral resolveu esconder do público a ausência voluntária de um candidato. Não de um candidato qualquer, mas daquele que ocupa o Palácio do Planalto. É difícil convencer um eleitor de vinte anos de que isso não foi um favor a quem está no poder.

Cada episódio, isolado, já seria grave. O conjunto consolidou uma percepção que a imagem vendida em 2022 escondia: a de um sistema em que Executivo, cúpulas do Congresso e parcelas do Judiciário aparecem entrelaçados por relações de poder, conveniência e autopreservação. Um sistema que se protege enquanto o cidadão paga a conta.

É nesse terreno que volta a fazer sentido uma acusação antiga contra o petismo: o aparelhamento. Um projeto de poder em que governar significa ocupar a máquina pública, lotear estatais e órgãos administrativos entre aliados, estender a influência sobre a burocracia e construir maiorias à custa das engrenagens do próprio Estado. Para quem acompanhou o PT nas décadas anteriores, nada disso era novidade. Para o jovem de 2022, foi uma descoberta. Depois destes quatro anos, ficou muito mais difícil tratar a acusação como mera retórica de oposição.

E este é um problema democrático antes de ser ideológico. Uma democracia liberal não se resume a eleições periódicas. Depende de instituições autônomas, de freios e contrapesos e da confiança pública de que Judiciário, Congresso, órgãos de controle e burocracia não existem para servir ao governo de turno. Quando essa confiança se esvai, vai junto parte da legitimidade das próprias instituições.

Nada disso estava no horizonte do jovem eleitor de 2022. Tampouco o mensalão, o petrolão, a ruína econômica que culminou no governo Dilma e a recessão de 2015 e 2016, uma das piores da nossa história. Estava distante, sobretudo, a experiência cotidiana de viver sob um governo do PT.

Em 2022, foi possível vender a essa geração uma versão editada da história: crescimento sem o boom das commodities; prosperidade sem discutir suas bases; Lula sem mensalão; PT sem Dilma; nostalgia sem a conta. Quatro anos depois, a conta chegou.

O resultado de domingo não se explica por uma causa única, mas o recado é inequívoco. Em 2022, Lula terminou o primeiro turno com 48,43% dos votos válidos. Agora, disputando a reeleição com toda a estrutura da Presidência a seu favor, ficou com 45,16%, atrás dos 47,03% de Flávio Bolsonaro. É seu pior desempenho em primeiro turno desde 1998.

Há quatro anos, Lula enfrentava o presente de Bolsonaro armado com a melhor versão possível de seu próprio passado. Agora, até 25 de outubro, terá de enfrentar um adversário mais difícil de derrotar: o próprio presente.

O jovem que tinha 18 anos em 2022 tem 22 hoje. Praticamente toda a sua vida adulta transcorreu sob o terceiro governo Lula. Para formar opinião, já não precisa das lembranças dos pais, das retrospectivas da televisão nem da propaganda eleitoral. Conheceu a economia. Conheceu a política. Conheceu as instituições. Conheceu o petismo não como memória afetiva, mas como experiência concreta. Em 2022, Lula foi vendido como nostalgia. Em 2026, foi julgado como governo, e o veredito, ao menos no primeiro turno, não lhe foi favorável.

Marcos Kayan Niquelatte, advogado, é diretor de Formação do Instituto Atlantos e vice-embaixador regional do SFLB – Sul.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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