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Nenhum legado presidencial é unidimensional – só positivo ou negativo. Entender deste modo é errôneo e com o legado de Barack Obama não é diferente. Basta lembrar, por exemplo, das guerras feitas via drones, da permanência de Guantánamo ou da atual instabilidade no cenário internacional. Emblemático é o fato de Obama ter aceitado o Nobel da Paz com o argumento da guerra justa. Contudo, há uma metade cheia do copo quando se considera seu legado, sobretudo tendo em vista o seu limitado antecessor e o seu temerário sucessor.

Obama sai da presidência com 57% de aprovação. Após oito anos no cargo, não é nada mau. Simbolicamente, não é insignificante o fato de ter havido um presidente negro no cargo mais poderoso do mundo. Ao contrário, este é um legado imaterial e aspiracional que, apesar de não ter superado as tensões raciais atuais, definitivamente impactará futuras gerações nos Estados Unidos e no mundo. Isso está longe de ser um pequeno pormenor.

Obama simplesmente evitou o total colapso da economia americana após a crise financeira de 2008

Um desastre econômico

Em seus oito anos de governo, o democrata endividou mais os EUA que a soma de todos os seus antecessores, aumentando em 87% a dívida pública da nação mais rica do mundo

Leia o artigo de Paulo Figueiredo Filho, economista e empresário.

Internamente, um de seus feitos significativos está na esfera econômica. Em 2009, Obama assumiu a presidência em meio à maior crise econômica desde a Grande Depressão. Por meio, por exemplo, de pacotes de estímulo à economia e do resgate da indústria automobilística, Obama simplesmente evitou o total colapso da economia americana após a crise financeira de 2008. Este é um expressivo legado, normalmente subestimado.

A isso, soma-se a importante reforma feita no setor da saúde, conhecida como Obamacare. A política de estender o acesso à saúde por meio de subsídios é algo muito limitado em comparação com outras redes de proteção social pelo mundo. Contudo, tendo em conta a profunda carência de serviços sociais nos Estados Unidos, o Obamacare é um grande avanço para os padrões do país, o que não pode ser negligenciado.

Internacionalmente, Obama também deixará sua marca. É bastante significativa a assinatura do acordo climático de Paris. Lidar seriamente com o assunto é impensável sem o envolvimento do segundo maior poluidor internacional. O declínio da dependência norte-americana em relação ao petróleo estrangeiro também é positivo, pois deixa o país menos vulnerável internacionalmente.

Contudo, as marcas mais relevantes de Obama na cena internacional são o acordo nuclear com o Irã e a reaproximação com Cuba. O acordo busca impedir que o Irã possa enriquecer urânio a ponto de construir uma bomba nuclear. Isso há tempos é um ponto decisivo da política externa norte-americana. Nas relações com Cuba, abre-se uma oportunidade para o fim definitivo da Guerra Fria no continente. Mesmo tardia e limitada, a reaproximação com Cuba pode impactar positivamente diferentes esferas da política internacional continental.

Se o seu legado será duradouro, ainda é duvidoso. Provavelmente, parte dele poderá ser revertido pelo próximo governo. Entretanto, tendo em conta o que se vislumbra como o futuro governo de Donald Trump, é bastante possível que a marca deixada por Barack Obama torne-se mais relevante com o passar dos anos. Só o tempo dirá.

Ramon Blanco, doutor em Relações Internacionais, é professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) e colaborador no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR).
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