| Osmar Nunes/Gazeta do Povo
| Foto: Osmar Nunes/Gazeta do Povo

Combater a corrupção também custa caro. E com efeitos tão nocivos quanto a própria corrupção em si, principalmente quando o problema se dissemina na sociedade e exige, além da coragem e da ousadia de uns poucos, um esforço descomunal de investigação para localizá-la e punir os corruptos. O detalhamento dos intrincados mecanismos bancários e das fraudes mirabolantes que envolvem sistemas financeiros ao redor do mundo, “laranjas” e subterfúgios surpreendentes demanda grandes despesas e equipes de profissionais dedicados e de altíssimo gabarito. E tudo é pago com recursos públicos, ou seja, nós somos roubados e gastamos mais dinheiro para localizar e punir quem roubou.

Mas um outro custo do combate à corrupção é muito maior e atinge os brasileiros diretamente: a paralisação e o adiamento de obras estruturais em todo o território nacional, que levam ao desemprego, a tragédias anunciadas e um futuro de consequências imprevisíveis.

Arcamos com o custo de passar o Brasil a limpo depois de 500 anos jogando a sujeira sob o tapete

No Paraná, o caso mais exemplar e visível do preço alto da corrupção é o adiamento da duplicação da PR-323, uma das mais importantes do Noroeste do estado. Uma colisão entre um ônibus e um caminhão matou 21 pessoas, chocou o Paraná e expôs a realidade: a duplicação nem sequer foi iniciada porque a Parceria Público-Privada (PPP) com a concessionária Rota das Fronteiras se desfez, pois a empresa Odebrecht, que liderava o consórcio, perdeu totalmente a capacidade financeira para executar a obra diante dos escândalos de corrupção na qual se envolveu, denunciados na Operação Lava Jato. Sem saída, o governo do estado decidiu pela rescisão do contrato e tudo voltou à estaca zero. Perderam-se milhares de empregos, diretos e indiretos, empresas que seriam terceirizadas pela empreiteira continuam com seus equipamentos paralisados e o transporte de produtos da região mais desenvolvida do estado sofre as consequências da falta de infraestrutura. E, mais grave ainda, os paranaenses colocam suas vidas em perigo em um trecho de 220 quilômetros sem a duplicação.

Por todo o Brasil essas situações se repetem, e a notícia ruim é que os prejuízos vão acontecer na exata proporção do andamento da Operação Lava Jato e de outras operações da Polícia Federal. Mas os problemas “causados” pelas atuações do Ministério Público, da Polícia Federal e dos juízes do Paraná são ínfimos diante da importância do trabalho que realizam. E, mais uma vez, esse bom combate nos ensina que uma sociedade democrática e republicana deve ter na fiscalização e na luta contra a corrupção ações permanentes, diárias até, amplas e irrestritas. Não dá para descansar: o Estado brasileiro e todas as esferas da sociedade civil devem exercer uma “manutenção” de todo o sistema contra a corrupção. Do contrário, será como se costuma dizer sobre nossas casas, nossas cidades e toda a estrutura que nos cerca: quando abandonadas, o custo das reformas será muito mais caro que as próprias construções.

Arcamos, atualmente, com o custo de passar o Brasil a limpo, depois de 500 anos jogando a sujeira sob o tapete. E esse é o fio da esperança que sustenta a fé de todos nós num país melhor e mais justo.

Marcos Domakoski, ex-presidente da Associação Comercial do Paraná, é presidente do Movimento Pró-Paraná.
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