| Foto: Pixabay

Doze de agosto é uma data que ficará para sempre gravada em nossa lembrança. É o dia em que nossos filhos, Khalid Jabara e Heather Heyer, foram assassinados, vítimas de crimes de ódio, com um ano de diferença um do outro: Khalid, em 2016, na porta de nossa casa em Tulsa, no Oklahoma; Heather, em 2017, em uma rua movimentada de Charlottesville, na Virgínia.

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O destinos de nossos filhos também estão ligados por outro fator: embora seus algozes tenham sido julgados como autores de crimes de ódio, nenhum dos dois foi assim considerado nas estatísticas federais. Para o governo americano, não constam nem como dados oficiais.

Como sabe muito bem toda mãe que perdeu o filho, não há palavras que descrevam a dor e o vazio. Passamos a vida concentradas neles – em protegê-los, vê-los crescer e se transformar em adultos, em comemorar suas vitórias, consolá-los durante os tempos difíceis e em nos deleitar com sua garra e entusiasmo. Amávamos nossos filhos, e nossa incapacidade de protegê-los da violência que lhes tirou a vida é algo de que jamais nos recuperaremos plenamente.

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Porém não somos unidas apenas pelo luto e por uma data triste; o fato é que Khalid e Heather foram vítimas de crimes de ódio.

Os dados exatos são a base para a criação de políticas eficazes, necessárias hoje mais do que nunca

Khalid foi morto a tiros pelo vizinho de porta, um homem com passagem pela polícia devido aos ataques persistentes à nossa família, porque somos árabes-americanos. Durante anos, o assassino nos aterrorizou, já tendo inclusive apelado para a violência, jogando o carro em cima de mim meses antes. Nem sonhávamos que ele mataria Khalid pouco depois, em um ataque de fúria, naquela tarde de verão.

Um ano se passou antes que o ódio tomasse conta das ruas de Charlottesville, quando nacionalistas brancos se reuniram na cidade para um encontro de dois dias. Heather se juntou a amigos e contramanifestantes pacíficos em apoio à justiça e à igualdade. Ela estava andando na rua quando um homem jogou o carro propositalmente contra a multidão – que foi seu alvo justamente pela diversidade racial que representava –, matando-a e ferindo várias outras pessoas.

Os dois casos foram julgados como crimes de ódio: no de Khalid, foi a acusação feita pelo Estado, além do homicídio qualificado; o de Heather se baseou na Lei de Prevenção de Crimes de Ódio Matthew Shepard e James Byrd Jr., de 2009, que ganhou o nome de duas vítimas do mesmo tipo de horror.

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Por que, então, não foram incluídos na estatística do governo federal? Por que foram ignorados, apesar da enorme repercussão que tiveram?

Descobrimos que, sob a Lei das Estatísticas de Crimes de Ódio (HCSA, na sigla em inglês), de 1990, o procurador-geral é obrigado a recolher dados desse tipo de delito. O FBI publica suas estatísticas anuais baseado nas informações fornecidas pelas polícias locais. Em praticamente todos os estados, os departamentos enviam os dados ao governo estadual, que por sua vez os encaminha à agência de segurança. Todo esse processo é feito por meio de um sistema padronizado conhecido como o programa Uniform Crime Reporting (UCR), que permite uma análise mais precisa das informações de todas as jurisdições em âmbito nacional. É por intermédio dele que o FBI obtém os melhores dados possíveis – mas, para isso, fornece instruções e diretrizes precisas para a descrição dos crimes, inclusive os de ódio.

Além disso, muitos estados exigem que os Departamentos de Polícia submetam os dados dos crimes de ódio dentro de suas jurisdições. É o caso dos nossos respectivos estados, Oklahoma e Virgínia, mas, apesar disso, os assassinatos de Khalid e Heather não foram reportados nas estatísticas adequadas do FBI. Apesar do formado padronizado, o UCR é um sistema complexo, e ainda estamos esperando para saber como e por que exatamente as omissões ocorreram.

Mas temos certeza de duas coisas: primeira, de acordo com as diretrizes federais e as leis estaduais, os crimes deveriam ser reportados como sendo de ódio por meio do UCR. Se tais atos explícitos de violência preconceituosa não são assim considerados, é difícil imaginar o que poderia ser. O que nos leva à nossa segunda certeza: a de que essas omissões não são a exceção, mas sim exemplos dramáticos da subnotificação crônica de circunstâncias semelhantes neste país. Os especialistas nos disseram que a grande maioria dos crimes de ódio não é caracterizada como tal, tendo as informações flagrantemente ignoradas nesse aspecto, como aconteceu com Khalid e Heather.

Nada poderá preencher o vazio que se abriu nas nossas vidas, mas a descoberta de que as informações sobre os assassinatos de Khalid e Heather não constam dos dados oficiais levaram os parlamentares a agir para sanar um problema mais que bem documentado – e, em junho, o "projeto de lei Jabara-Heyer NO HATE" foi apresentado na Câmara e no Senado. A legislação bipartidária tem como objetivo reforçar a precisão das estatísticas federais, além de fornecer às autoridades estaduais e municipais recursos adicionais para impedir o crime de ódio, lidar com ele e reagir a ele.

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Tanto quanto os democratas e os republicanos no Congresso, nós duas estamos profundamente preocupadas com o aumento dos casos de crimes de ódio e a falta de rigor das estatísticas federais que os regem. O médico não pode combater uma doença se não tiver um quadro preciso dos sintomas e do diagnóstico; os dados exatos são a base para a criação de políticas eficazes, necessárias hoje mais do que nunca.

Não era nossa intenção defender ou conhecer os detalhes dos crimes de ódio; tragicamente, os incidentes do dia 12 de agosto mudaram tudo. Hoje, defendemos a aprovação da Lei Jabara-Heyer NO HATE para que outras famílias não tenham de lidar com a perda de um filho e a percepção de que o trágico assassinato que lhe tirou a vida não foi nem documentado como tal. O Congresso pode nos ajudar nessa luta fazendo sua parte e aprovando essa lei tão importante.

Por Heather, Khalid e todas as vítimas dos crimes de ódio cometidos neste país, devemos e podemos fazer mais.

Susan Bro é mãe de Heather Heyer e cofundadora da Fundação Heather Heyer. Haifa Jabara é mãe de Khalid Jabara e cofundadora do Fundo da Fundação Khalid Jabara.

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