A Revolução Francesa inaugurou a era dos totalitarismos, com uma “religião cívica” servindo de pretexto para a submissão plena ao Estado.| Foto: Fábio Abreu

Chesterton dizia não se preocupar com a falta de crença em Deus numa pessoa, mas sim com o que ela colocaria nesse lugar. Somos seres religiosos por essência, e mesmo o mais cético dos agnósticos costuma canalizar esse sentimento religioso para algum destino. A imensa quantidade de seitas modernas, como o veganismo e o ambientalismo, atesta isso. E a maior “religião secular”, sem dúvida, é a ideologia, ou o socialismo, para ser mais específico.

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O maior experimento dessa “religião política” foi, certamente, a Revolução Francesa. Os jacobinos não queriam apenas melhorar as coisas, emplacar reformas necessárias; eles desejavam criar um mundo totalmente novo, do zero, com base apenas na “razão”, seguindo o Zeitgeist do Iluminismo, que via avanços concretos nas ciências naturais com a aplicação do conhecimento objetivo.

Muito já se falou do fanatismo jacobino e desse caráter religioso da Revolução Francesa, precursora da Revolução Soviética dos bolcheviques. Mas o livro de Christopher Dawson sobre o assunto, Os Deuses da Revolução, é um dos mais concisos relatos do fenômeno. O historiador inglês não esconde seu ponto de vista cristão, e faz uma análise poderosa das causas e consequências dessa transferência da religiosidade para a política.

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A principal tese é justamente a de que, por trás do dinamismo cultural, há o fator religioso que não pode ser ignorado. “Toda cultura viva deve possuir alguma dinâmica espiritual que fornece a energia necessária para aquele contínuo esforço social que é a civilização”, escreve Dawson. Ou seja, mesmo em uma era moderna e secular, o “impulso religioso” não desaparece, ao contrário do que acreditam os marxistas materialistas, que reduzem tudo à luta de classes e ao aspecto econômico.

O historiador Arnold Toynbee resume bem a questão na introdução: “O supremo paradoxo da Revolução foi que, no ato de depor o tradicional establishment cristão, abriu-se caminho para um retorno atávico à religião pré-cristã: a adoração do poder humano coletivo que fora a religião pagã do Império Romano e das cidades-Estado gregas que os romanos incorporaram”. O profeta dessa “nova fé” era Rousseau, e seu instrumento era Robespierre, o “incorruptível” disposto a tocar o Terror para construir o paraíso terrestre.

Antes disso, houve uma revolução intelectual com os “filósofos amadores” como Voltaire, preocupados com os prazeres da vida mais que com a sabedoria, e que foram responsáveis pela secularização da cultura ocidental. O advento da burguesia teve tudo a ver com isso. Aos novos olhares, a tradicional ordem social e religiosa da cristandade ocidental era uma estrutura antiquada, e chegara o momento de demoli-la por completo, e construir sobre a tabula rasa da natureza humana o novo edifício, alicerçado em princípios racionais e nada mais.

Na França, porém, a burguesia era bem diferente daquela da Holanda, Inglaterra e Estados Unidos. O Estado francês manteve o comércio e a indústria em rédea curta, com a política de Colbert não deixando espaço para o desenvolvimento de um poder financeiro independente. A burguesia francesa, como consequência, procurava o Estado em vez da iniciativa privada para obter empregos e avanços sociais.

Além disso, a Igreja era muito mais unida na França, reinando com autoridade absoluta. Logo, o verdadeiro anseio dos filósofos era substituir uma unidade por outra, trocar o reino universal da religião pela autoridade da ciência e da razão, mantendo o absolutismo do pensamento, um tanto distante do realismo cauteloso dos ingleses. O desprezo dos intelectuais franceses pelo homem comum era evidente, e Voltaire se referia ao populacho como “canaille”. Elitismo arrogante, em nome da razão, unido ao radicalismo das ideias igualitárias num ambiente de concentração de poder no Estado: o que poderia dar errado, não é mesmo?

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Na América, os revolucionários também se encantaram com as ideias abstratas, mas havia o contraponto das tradições conservadoras. Se Thomas Paine se inspirava nos caminhos franceses, havia um John Adams para oferecer resistência e impedir o radicalismo. Paine flertou com a mesma “religião” dos jacobinos, e chegou a escrever: “Está em nosso poder começar o mundo outra vez. Uma situação similar à presente não acontece desde os dias de Noé até agora”. Esse idealismo messiânico, que ansiava por um milênio social e uma nova humanidade, não saiu pela tangente na América, ao contrário do caso francês.

Esse clima francês de refundar a humanidade acabou saindo do controle, e a “vontade geral” se mostrou um aríete capaz de destruir tudo que encontrasse pela frente. “Eles haviam destruído coisas que não poderiam substituir e convocado forças que não podiam entender ou controlar”, explica o autor. Muitos liberais endossaram esses ideais sem perceber onde tudo acabaria, pois os “nobres fins” justificavam quaisquer meios, inclusive a guilhotina. “Foi esse pano de fundo ideológico que deu à Revolução Francesa sua força espiritual e sua significância internacional”, escreve Dawson. Sem isso, seria apenas mais uma Fronda, uma guerra civil local sem maiores impactos no mundo.

A Revolução Francesa inaugurou a era dos totalitarismos, com uma “religião cívica” servindo de pretexto para a submissão plena ao Estado. As turbas não reagiram conforme o esperado pelos iludidos democratas seculares. A religião dos jacobinos era dogmática, tinha suas escrituras sagradas, seus profetas, rituais, e, como o cristianismo, era uma religião da salvação humana, “a salvação do mundo pelo poder do homem tornado livre pela Razão”. O rio de sangue derramado pelos revolucionários seria purificador, pensavam os crentes, que olhavam para locais elevados demais a ponto de reparar nesse sangue todo.

E não havia espaço para os que hoje chamaríamos de “isentões”. Saint-Just foi categórico ao declarar: “Devemos punir não só os traidores, mas também os indiferentes, devemos punir quem quer que seja passivo na República e nada faça por ela”. E completou: “Aqueles que não podem ser governados pela justiça devem ser governados pela espada”. Quem não apreciasse as maravilhas dessa “libertação” deveria ser forçado a ser “livre”, ou perecer. Eram sacrifícios humanos no altar da Deusa da Liberdade.

Rodrigo Constantino, economista e jornalista, é presidente do Conselho do Instituto Liberal.

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