| Foto: Adalberto Carvalho/Ascom-CGU

A última semana começou agitada, com a transferência de Torquato Jardim, então titular do Ministério da Transparência e Controladoria-Geral da União (CGU), para o cargo de ministro da Justiça, no lugar do deputado Osmar Serraglio. Este, por sua vez, seria transferido para a CGU. Um “troca-troca” institucional, se assim podemos dizer. O governo só esqueceu de “combinar com os russos”, como teria dito o saudoso Garrincha ao técnico Vicente Feola, na preleção para o jogo contra a União Soviética na Copa do Mundo de 1958.

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Os servidores da CGU não aceitaram a mudança, pois não vislumbravam no deputado paranaense alguém com a reputação ilibada que o cargo mereceria. Serraglio defendeu arduamente no Congresso o ex-deputado Eduardo Cunha e está sendo investigado pelo seu suposto envolvimento na Operação Carne Fraca. Ainda pairava no ar que a sua nomeação era uma jogada do governo para manter o foro privilegiado do agora ex-deputado Rodrigo Rocha Loures, o “homem da mala” dos R$ 500 mil. No fim, o próprio deputado Serraglio – seja quais foram as suas motivações – não aceitou o convite, deixando o governo a ver navios. E com isso Temer nomeou, interinamente, o atual secretário-executivo da CGU, Wagner de Campos Rosário.

A CGU não pode ser usada como moeda de troca para arranjos e composições políticas

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Este é justamente o acerto do governo Temer, mesmo que decorrente de seus próprios erros. Wagner é servidor de carreira da CGU, com mestrado em Combate à Corrupção e Estado de Direito, com experiência em investigações conjuntas com a Polícia Federal, Ministério Público e demais órgãos de defesa do Estado. Não paira sobre ele nenhuma acusação em toda a sua trajetória de vida pública. Uma gota num oceano de denúncias, conduções coercitivas, delações premiadas e prisões com as quais os brasileiros se acostumaram a conviver nos últimos anos.

A CGU não pode, de maneira nenhuma, ser usada como moeda de troca para arranjos e composições políticas de qualquer espécie. A CGU não é um ministério qualquer. A ela cabe o papel maior de guardião da coisa pública – do meu, do seu, do nosso suado dinheiro, repassado para o governo federal. Se hoje vemos mudanças acontecendo no Brasil na prevenção e no combate à corrupção – e elas são inegáveis –, é, em grande parte, pela atuação da CGU ao longo de seus quase 15 anos.

A questão é que a CGU não aparece muito na mídia, apesar de sua enorme importância para todas as outras instituições e para o sistema de controle interno brasileiro. O trabalho dela é eminentemente técnico. No início, em seus trabalhos ordinários, apontando indícios que, com o aprofundamento das investigações, levam aos crimes que depois serão denunciados. No meio, ajudando na formação de evidências e provas, com uma expertise em gestão pública que somente este órgão possui, por meio de seu quadro de auditores. No fim, quando expulsa servidores e declara empresas inidôneas, evitando que o ciclo de malfeitos se repita.

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Seu trabalho não é notícia “quente”. Não é o “chute na porta” da Polícia Federal, a coletiva de imprensa dos procuradores ou a sentença condenatória de um juiz. Ela atua nos bastidores, garantindo que isso tudo seja possível, de uma forma ou de outra, direta ou indiretamente. Sua importância é inequívoca para o Brasil e a CGU deve, necessariamente, ser conduzida por pessoas capacitadas e com perfil técnico. E, por óbvio, de reputação ilibada e sobre quem não paire absolutamente nenhuma suspeita.

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A CGU tem agora um ministro interino com estas características. Cabe ao governo Temer mantê-lo no cargo, efetivando sua posição, enviando com isso uma mensagem clara para a sociedade brasileira de que não irá interferir na atuação das instituições que estão na importante missão de moralizar e aperfeiçoar a gestão estatal. Ou o governo pode testar, mais uma vez, a paciência da sociedade brasileira, que parece realmente estar no fim.

João Paulo Silveira é auditor da CGU, cedido atualmente para a Escola Nacional de Administração Pública (Enap) no cargo de auditor-chefe.